Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Dólar sobe 0,25% e Bolsa tem leve ganho, com investidores digerindo recuo do PIB

Após economia brasileira cair 0,1% no segundo trimestre, instituições financeiras fizeram revisões de suas perspectivas para inflação, juros e crescimento; cenário político também ficou no radar

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 14h55
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 18h32

A Bolsa brasileira (B3) recuperou parte das perdas do pregão anterior nesta terça-feira, 1, em alta de 0,52%, aos 119.395,60 pontos, em dia marcado pela divulgação da baixa de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do segundo trimestre. Em resposta, instituições financeiras promoveram revisões de suas perspectivas para inflação, juros e crescimento econômico. No câmbio, o dólar reverteu o movimento de queda e encerrou em alta de 0,25%, a R$ 5,1849.

Pela manhã, o resultado aquém do esperado do PIB no segundo trimestre lançou dúvidas sobre o ritmo de crescimento da economia brasileira, sobretudo diante do agravamento da crise hídrica. O desempenho divulgado hoje foi bem inferior à mediana de Projeções Broadcast, de alta de 0,2%. Diversas casas reduziram hoje a estimativa para o PIB e elevaram as expectativas para a inflação, tanto neste ano quando em 2022.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, minimizou o resultado do PIB e reafirmou que a economista brasileira segue recuperação em forma de V. "Hoje saiu um dado (PIB), é praticamente de lado. Como foi -0,05%, arredondou para -0,1%. Se fosse -0,04% era zero", disse, durante lançamento da agenda legislativa da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo.

Em audiência pública na Câmara dos Deputados, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto afirmou que o BC deve revisar "um pouco para baixo" sua previsão para o PIB deste ano. Campos Neto disse, porém, que a inflação está pressionada e que o instrumento do BC para domar a alta de preços é elevar a taxa de juros.

A economista do Banco Ourinvest Cristiane Quartaroli destaca que, mesmo com o PIB fraco, o presidente do BC manteve o discurso de que precisa seguir firme para conter o avanço da inflação. "O crescimento mais fraco não será impeditivo para novas altas da Selic nos próximos meses", afirma a economista

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) alterou a projeção de crescimento do PIB de 2021 ante 2020 para 4,9%, de uma estimativa de avanço de 5,2%.O Banco Fibra prevê alta de 5,6% para o PIB fechado em 2021. Já o Barclays elevou a projeção de aumento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2021 de 7,1% para 7,7%, na esteira de surpresas para cima com a inflação e da "bandeira escassez hídrica" para as contas de energia.

Teria pesado no humor dos investidores ainda a notícia, apurada pelo Estadão/Broadcast, de que o Senado pode impor uma derrota ao governo nesta quarta-feira na votação de uma proposta que desmonta as regras que estabelecem parâmetros máximos para gastos de estatais com planos de saúde. Já aprovado na Câmara, o texto pode inviabilizar a privatização dos Correios.

Embora o ambiente externo seja favorável a divisas emergentes, investidores evitam apostas mais contundentes em uma nova rodada de apreciação do real, devido aos problemas locais. Além da novela dos precatórios e do reajuste do Auxílio Brasil (ex-Bolsa Família) - ainda sem um desenlace apesar do envio ontem do Orçamento de 2022 ao Congresso -, há temores sobre recrudescimento das tensões político-institucionais, em meio à espera pelas manifestações de 7 de setembro

Para o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto, a performance modesta do real hoje em relação a outras divisas de emergentes é natural, já que houve uma apreciação muito forte da moeda brasileira nos últimos dias de agosto. "Assim como tinha subido muito rápido, para quase R$ 5,40, o dólar caiu também rapidamente e chegou até R$ 5,11. Isso gera oportunidades para realização de lucros e correções", afirma Netto, para quem o real ainda "tende a uma depreciação", por conta da antecipação do calendário eleitoral, que aumenta a pressão sobre os gastos do governo. "Podemos ter muito investidores montando posições defensivas nos próximos dias, com as manifestações do feriado de 7 de setembro", ressalta.

No exterior, o índice DXY - que mostra a variação do dólar frente a seis divisa fortes - operou em queda durante todo o pregão. A moeda americana também cedia em bloco na comparação com as divisas emergentes, com destaque para o rand sul-africano.  Dados do relatório ADP, de emprego privado, mostraram criação de 374 mil vagas em agosto, bem abaixo do previsto por analistas (600 mil).

Bolsa

Vindo de dois meses ruins, o Ibovespa iniciou setembro em tom moderadamente positivo, buscando reaproximação do nível de 120 mil pontos, em alinhamento ao dia majoritariamente favorável em Nova York, mesmo com leituras abaixo do esperado para a geração de empregos no setor privado americano em agosto e, no Brasil, a contração de 0,1% no PIB.  Na semana, a B3 ainda cede 1,06%, mas retorna hoje a terreno positivo no ano, acumulando leve ganho de 0,32% em 2021.

Com nova tarifa para o intervalo de setembro a abril refletindo a crise hídrica, as ações do setor elétrico estiveram entre as campeãs desta quarta-feira, com ganhos perto ou acima de 3%, com destaque para Copel PNB, em alta de 3,80%, Cesp PNB, de 3,50% e Cemig PN, de 3,40%.  No fechamento, Eletrobras PNB e ON mostravam alta, respectivamente, de 2,57% e de 2,79%

"Os índices de utilities e energia reagiram bem hoje ao aumento de tarifa, o mercado parece ter gostado, para além da questão se veio no nível ou no tempo certo", diz Alexandre Brito, sócio da Finacap Investimentos. "O PIB foi uma surpresa de certa forma, mas o PIB potencial ainda é bem significativo e os resultados das empresas, em boa parte, têm sido excelentes", acrescenta Brito

Em meio às incertezas, especialmente domésticas, a XP reduziu preço-alvo do Ibovespa no fechamento do ano, de 145 mil para 135 mil pontos. "Em agosto, vimos os mercados no Brasil andarem na contramão do mundo novamente, por conta primordialmente de riscos domésticos, atrelados à trajetória fiscal futura, na medida em que o debate, em preocupações com as eleições, já foram antecipados", apontam em relatório o estrategista-chefe e head de research, Fernando Ferreira, e a estrategista de ações, Jennie Li.

Na ponta do Ibovespa nesta quarta-feira, destaque para Marfrig, com ganho de 4,88%, à frente de Americanas ON, de 4,11% e Eneva, de 4,02%. /ANTONIO PEREZ, LUIS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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