Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa sobe 1,7% e dólar cai 1,4%, apoiados em otimismo de Nova York com remédio contra covid

Segundo a farmacêutica americana Merck, medicamento 'reduziu significativamente' os riscos de hospitalização e morte pela doença; no entanto, cenários interno e externo prometem um outubro 'movimentado'

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 14h57
Atualizado 01 de outubro de 2021 | 18h21

Acompanhando o otimismo do mercado de Nova York com o comunicado da farmacêutica americana Merck, de que o remédio que desenvolveu para o tratamento da covid-19 apresentou resultados positivos contra a doença, a Bolsa brasileira (B3) começou o primeiro pregão de outubro com alta de 1,73%, aos 112.899,64 pontos, com o maior ganho em porcentual desde o último dia 22 de setembro, enquanto no câmbio, o dólar caiu 1,42%, cotado a a R$ 5,3691.

"Hoje, houve animação em Nova York, com resposta muito positiva à possibilidade de medicamento (da Merck) para Covid, e o Ibovespa acompanhou. Foi o principal catalisador do dia", diz Leonardo Aparecido, especialista em renda variável da Valor Investimentos.

Os resultados positivos do molnupiravir, que segundo comunicado da Merck, "reduziu significativamente" os riscos de hospitalização e morte pela doença, foi bem recebido especialmente pelo mercado americano, que subiu o bastante para apagar as perdas do dia anteriorDow Jones teve alta de 1,43%, o S&P 500, de 1,15% e o Nasdaq, de 0,82%. 

Diante do dia favorável - e após fechar setembro em queda de 6,57%, a pior para um mês desde 2020 -, o Ibovespa conseguiu limitar as perdas da semana a 0,34%, após ter vindo de ganho de 1,65% na semana anterior, que havia sido o primeiro em quatro semanas. No ano, o índice cede 5,14%. Na máxima, tocou nos 113.019,62 pontos.

No entanto, o cenário ainda é de cautela. No exterior, os gargalos nas cadeias internacionais de insumos, a escassez de fontes de energia, as dúvidas sobre o ritmo de retomada econômica e o aumento da inflação global permanecem como pano de fundo para os negócios.

"Setembro teve muitos pontos de atenção e outubro começa quase da mesma maneira", observa Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, acrescentando que os investidores continuarão muito atentos aos dados sobre a inflação americana, em meio a sinais de desaceleração econômica global, especialmente na China em momento de substituição de matrizes de energia, com redução do uso de carvão. "O investidor precisará ser paciente no médio prazo, após um mês de setembro muito volátil."

Nesta sexta-feira, os principais mercados acionários da Europa fecharam o dia em baixa, reagindo à leitura sobre a inflação na zona do euro, em alta de 3,4% ao ano em setembro, comparada a 3% em agosto. No mês, a inflação ao consumidor no bloco, no maior nível desde 2008, também foi puxada pela energia, aponta Pietra Guerra, especialista em ações da Clear Corretora. "Esse cenário inflacionário, pressionando o aumento de custos, está acontecendo em diferentes países", acrescenta.

Já por aqui, persistem as dúvidas sobre a evolução do cenário fiscal, com indefinição sobre como ficará o Auxílio Brasil e a PEC dos Precatórios. Hoje, durante entrevista a uma rádio, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, levantou dúvidas sobre a proposta do governo do presidente Jair Bolsonaro de vincular a Reforma do Imposto de Renda para ampliar o Bolsa Família a partir de novembro.

"Seria um tanto temerário apostar todas as fichas para um programa social em um projeto que sequer foi aprovado ainda", disse. Pacheco afirmou ainda que tem procurado alternativas à estratégia do governo de financiar o novo programa com a arrecadação do Imposto de Renda.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, cometeu um ato falho hoje ao dizer, em evento do Palácio do Planalto, que o ministro da Cidadania, João Roma, iria estender o auxílio emergencial. Diante da repercussão no mercado financeiro, Guedes disse que havia trocado, sem intenção, o Auxílio Brasil (que precisa ser abrigado no teto dos gastos) por auxílio emergencial (que pode ser financiado por crédito suplementar e, portanto, fora do teto).

Na ponta do Ibovespa, destaque para a recuperação da Unit do Banco Inter, em alta de 9,54%, assim como para a ação PN, com ganho de 9,31%, ocupando o topo da lista do índice na sessão, ao lado de Banco Pan, em alta de 8,46%. Entre as ações de grande peso, Petrobras ON e PN fecharam o dia respectivamente em alta de 1,88% e 2,83%, enquanto Vale ON cedeu 0,05% em dia positivo para o setor de siderurgia, com destaque para Usiminas PNA, em alta de 4,65%. Entre os grandes bancos, os ganhos chegaram a 4,01% para a Unit do Santander.

Câmbio

Após fechar setembro com valorização de 5,30% e flertar com o patamar de R$ 5,45, o dólar iniciou o mês outubro em terreno negativo, interrompendo uma sequência de sete pregões seguidos de alta. Nas mesas de operação, o diagnóstico é que o ambiente externo benigno, marcado por avanço dos mercados acionários e enfraquecimento global da moeda americana,

abriu espaço para uma correção na taxa de câmbio, embora o clima ainda seja de cautela por causa da questão fiscal doméstica.

Muito castigado nos momentos de maior aversão ao risco, o real hoje liderou os ganhos entre emergentes - desempenho que se deve em parte, segundo operadores, ao menor apetite para especular contra a moeda brasileira, dada a percepção de que o Banco Central está mais vigilante, depois da intervenção de ontem à tarde com a oferta de swaps cambiais (o que equivale a venda de dólares no mercado futuro). O recado parece ser de que, caso não haja vendedor de dólares no mercado e a moeda americana entre em um movimento unidirecional, o BC vai intervir.

Com mínima a R$ 5,3535, baixa de 1,70%, a moeda americana encerra esta semana em leve alta de 0,47%. O dólar para outubro cedeu 1,55%, a R$ 5,3845. No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - trabalhou a maior parte do dia em queda de cerca de 0,20%, no limiar dos 94 pontos.

Hoje, o Bradesco revisou hoje estimativa para taxa de câmbio para o fim deste ano (de R$ 5,00 para R$ 5,15) e de 2022 (de R$ 5,50 para R$ 5,60). Na avaliação do banco, embora a alta da taxa Selic "venha contendo os fluxos de saída de dólares", a desaceleração da China e a retirada de estímulos monetários nos países desenvolvidos jogam contra o real. O valor justo da moeda brasileira, segundo o Bradesco, segue abaixo de R$ 5,00, mas o recuo do dólar depende da resolução dos problemas fiscais e redução da inflação. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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