Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa avança 1,6% e recupera parte das perdas com ajuda do exterior; dólar sobe

Criação de 850 mil novos postos de trabalho nos EUA em junho ajudou o mercado brasileiro a aliviar a pressão causada pela proposta de reforma tributária

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 15h04
Atualizado 02 de julho de 2021 | 18h38

O dia positivo no exterior, após a divulgação de dados positivos sobre o mercado de trabalho dos Estados Unidos, ajudaram a Bolsa brasileira (B3) a recuperar parte das perdas dos úlitmos dias com a proposta de reforma tributária e também a CPI da Covid. Nesta sexta-feira, 2, o principal índice da B3 subiu 1,56%, aos 129.513,62 pontos. No câmbio, o dólar seguiu o ritmo mais favorável do exterior e diminuiu as perdas ante o real, fechando com alta de 0,16%, a R$ 5,0533.

Na máxima de hoje, o Ibovespa chegou aos 127.672,40 pontos. No ano, o índice da B3 avança 7,23%, acumulando ganho de 0,65% neste começo de julho, após três perdas diárias seguidas na virada de mês. Na semana, ele soma leve ganho de 0,29%.

Em nota os estrategistas Fernando Ferreira e Jennie Li, da XP, apontam que, em junho, "o Ibovespa terminou o mês em +0,5% na moeda local". "E com o real 5,0% mais forte contra o dólar americano, o índice brasileiro retornou +5,2% em dólares, sendo um dos mercados com a melhor performance global", acrescentam. Perto da passagem do mês, contudo, o governo apresentou novidades tributárias mal recebidas pelo mercado, especialmente a tributação de dividendos e o fim dos juros sobre capital próprio (JCP).

"Calculamos que o JCP teria um impacto negativo de 5% a 6% no resultado líquido agregado das empresas sob a nossa cobertura. Mas essas perdas seriam majoritariamente recompensadas com a redução do IRPJ", observam os estrategistas da XP, casa que mantém a projeção de 145 mil pontos para o Ibovespa. " Esperamos um período de longa discussão pela frente, a proposta inicial ainda poderá sofrer mudanças e ser substancialmente diferente da aprovada pelo Congresso no final", acrescentam.

Depois das turbulências da última semana, foi o resultado do relatório de emprego dos Estados Unidos de junho, o chamado payroll, que ajudou o mercado brasileiro a recuperar parte das perdas. O documento apontou para criação líquida de 850 mil novos postos de trabalho no país americano no mês passado. Em resposta ao resultado, não apenas o S&P 500 mas também Dow Jones e Nasdaq fecharam em novas máximas históricas nesta sexta.

"Depois da turbulência por conta do cenário político brasileiro, que descolou o mercado brasileiro dos pares internacionais, tivemos um realinhamento hoje desde a manhã, com o S&P 500 vindo de seis altas, em renovação de recorde, com avanço de 14% no primeiro semestre. Este otimismo continua a refletir os indicadores e melhor rumo para a economia global", diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos.

"O payroll de hoje, com os dados de junho, ajudou, com o dólar engatando baixa lá fora ante a elevação da taxa de desemprego nos Estados Unidos, apesar da geração de vagas acima do esperado no mês - o que mostra que o mercado de trabalho americano ainda não se recuperou da forma como o Federal Reserve [Fed, o banco central americano] espera, sinal visível também na evolução abaixo do esperado para o ganho salarial médio por hora trabalhada", diz Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos. O conjunto da obra deste mais recente relatório sobre o emprego nos EUA sugere que o Fed tende a não ter tanta pressa em reavaliar os estímulos, avalia o analista.

Assim, ações com exposição à demanda externa e a preços globais, estiveram mais uma vez entre os destaques desta sexta, Vale ON e CSN em altas de 2,07% e 3,78% cada, apesar do recuo do preço do minério de ferro na China. O dia foi ainda de recuperação para os bancos, com Bradesco em alta de 2,40% e Banco do Brasil, de 1,10%. Na ponta do Ibovespa, Magazine Luiza fechou hoje em alta de 4,59%, à frente de BTG, com 4,34%. Em dia sem sinal único para o petróleo, Petrobrás PN subiu 0,41% e a ON, 0,91%.

Dólar

Depois de uma manhã volátil, em que chegou a ser negociado abaixo do piso de R$ 5,00, com investidores digerindo dados do mercado de trabalho nos EUA e o noticiário político doméstico, o dólar andou de lado ao longo da tarde e, a despeito da queda generalizada da moeda americana frente a divisas emergentes e moedas fortes, manteve-se sempre acima R$ 5,00. Na máxima de hoje, ele bateu em R$ 5,0738. O dólar para agosto subiu 0,15%, a R$ 5,0720.

Na semana, o dólar à vista acumula valorização de 2,34%, atribuída por especialistas à cautela nas mesas de operação por conta do risco político e das dúvidas sobre o impacto da reforma tributária nos fluxo de recursos, o que inibe as apostas a favor do real e aumenta a demanda dos agentes por proteção (hedge).

Por aqui, o real até ameaçou seguir a toada de apreciação de outras moedas emergentes, mas perdeu força com a percepção de agravamento do quadro político, após a notícia de que o vice-procurador da República, Humberto Jacques de Medeiros, pediu ao STF abertura de inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro por suposta prevaricação no caso das negociações para aquisição da vacina indiana Covaxin.

"Se o contexto político se agravar, o dólar continuará pressionado. Vai haver uma demanda maior por proteção, até porque o real vem de um movimento muito forte de apreciação", afirma o  economista e gestor da JF Trust, Eduardo Velho , ressaltando que o mercado parece "assimétrico", com espaço para ganhos limitados com a apreciação da moeda brasileira e percepção de risco elevada.

O operador Hideaki Iha, da Fair Corretora, vê o atual movimento de alta do dólar como uma correção natural após a forte queda da moeda americana nos últimos três meses. "Agora deve permanecer a cautela. Meu cenário é de dólar para cima. Houve um fluxo muito grande de dólares, com IPOs [ofertas iniciais de ações], exportadores e captações no primeiro semestre, que não tende a se repetir no segundo", afirma Iha, lembrando que, além do ambiente político conturbado, existem dúvidas sobre o andamento da reforma tributária e os impactos da crise hídrica. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO​

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