Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Dólar cai a R$ 5,16 e Bolsa sobe 0,6% em dia de recuperação de perdas

Apesar disso, ainda paira sobre o mercado temores de deterioração do quadro fiscal e recrudescimento de ruídos políticos, com a retomada da CPI da Covid

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 14h35
Atualizado 02 de agosto de 2021 | 17h59

O ambiente externo benigno para ativos de risco na maior parte da sessão desta segunda-feira, 2, abriu espaço para uma recuperação dos ativos brasileiros, em especial o real, com o dólar fechando em queda de 0,86%, cotado a R$ 5,1653. Já a Bolsa brasileira (B3) fechou com ganho de 0,59%, aos 122.515,74 pontos, embora ainda pairem sobre o mercado temores de deterioração do quadro fiscal e recrudescimento de ruídos políticos, com a retomada dos trabalhos da CPI da Covid.

Depois de disparar na sexta-feira e fechar em alta 2,57%, acumulando valorização de 4,76% em julho, o dólar à vista trabalhou em queda durante todo o dia e chegou a tocar na casa de R$ 5,11 no início da tarde, ao descer até mínima de R$ 5,1147, em meio à realização de lucros e ajustes de posições.

Lá fora, o DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - recuava 0,11%, aos 92,069 pontos. A moeda americana tinha um desempenho misto em relação a divisas emergentes, com leve alta ante o peso mexicano e forte queda na comparação com o rand sulafricano, ambos pares do real.

O gestor da Vitreo Rodrigo Knudsen ressalta que o dólar se enfraqueceu hoje em relação às principais moedas do mundo (à exceção da libra) e recuou por aqui em um ajuste natural, com o real recuperando "parcialmente" as perdas de sexta-feira. "Mas o dólar ainda está em um patamar mais alto do que a gente tinha visto na quinta-feira passada. Essa queda hoje é algo, na minha opinião, bem técnico e muito menos relacionada a algum fator econômico ou político", afirma.

Segundo operadores, podem dar suporte ao real esta semana a entrada de recursos para IPOs e a expectativa, quase unânime, de que o Banco Central acelere o passo e anuncie, na quarta-feira, uma alta da Selic em 1 ponto porcentual, para 5,25% ao ano - o que aumenta, em tese, a atratividade da renda fixa local.

Jogam contra a moeda brasileira as dúvidas sobre o comportamento global do dólar, que deve se acentuar com a divulgação do relatório de emprego nos EUA (payroll) de julho, na sexta-feira, e as preocupações de uma degringolada das contas públicas locais, em meio a uma possível ofensiva populista de Bolsonaro para recuperar a popularidade.

"Esperamos alta de 100 pontos da Selic, o que, em tese, deveria colaborar para a apreciação do real, porém os riscos fiscais e políticos estão se sobrepondo a esse esperado efeito", afirma, em relatório, a gestora Armor Capital, no qual que cita as discussões sobre como financiar a ampliação do Bolsa Família e as pressões de gastos por causa da baixa popularidade de Bolsonaro como obstáculos à apreciação do real. "Ademais, possíveis gastos bilionários com precatórios em 2022 constituem pressão adicional sobre as contas públicas".

Causou apreensão nas mesas de operações a informação de que pode ser inserido no Orçamento de 2022 um valor entre R$ 80 bilhões e R$ 90 bilhões para o pagamento de precatórios, bem acima do previsto pelo Ministério da Economia. A elevação nos gastos com precatórios é o que o ministro Paulo Guedes chamou na sexta-feira de "meteoro" para o Orçamento. Isso complica os planos de ampliar o Bolsa Família sem ferir o teto de gastos, o que assusta o mercado.

Pela tarde, saíram dados da balança comercial em julho. Houve superávit comercial de US$ 7,395 bilhões, abaixo da mediana (US$ 8,9 bilhões) e do piso (US$ 8,2 bilhões) de Projeções Broadcast. Mesmo assim, foi o segundo melhor resultado para o mês na série histórica (iniciada em 1989), atrás apenas de 2020.

A Armor nota que na quarta semana de julho, o exportador deixou de internalizar US$ 1,2 bilhão. "Nas últimas semanas, essa movimentação dos exportadores tem contribuído para a perda de dinamismo do câmbio contratado comercial", afirma a gestora.

Bolsa

O Ibovespa iniciou agosto em leve recuperação após ter amargado na sexta-feira perda de 3%, a maior desde março. A desaceleração de Nova York à tarde - ao final, sem direção única, com Dow Jones e S&P 500 no vermelho - acomodou o índice da B3 abaixo dos 123 mil pontos nesta segunda. No ano, o índice acumula ganho de 2,94%, vindo de perda de 3,94% em julho, a primeira desde fevereiro.

"Tivemos um estresse na semana passada, principalmente na sexta-feira, nos DIs, na Bolsa e no dólar, com alguma normalização vista hoje nos três mercados, especialmente de manhã. Os balanços e dados econômicos prevaleceram sobre as preocupações quanto à variante Delta e a liquidação de ativos, na semana passada, na China", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos. "Hoje foi o último dia de reserva para o IPO da Raízen - amanhã tem a precificação desse IPO, que promete ser o maior já visto na bolsa brasileira. E que pode ter sido responsável, em parte, pela queda no secundário, com investidores e principalmente fundos liquidando posições para ingressar nesta e em outras ofertas públicas."

"As ações incluídas no índice Ibovespa no passado valorizaram, na média, +10,4% trinta dias antes do rebalanceamento. Uma alta nos preços, antes e depois do evento, pode ser explicada pelo fato de elas serem alvo de compra por parte de fundos e levar a um maior interesse de investidores", apontam em relatório os estrategistas Jennie Li e Fernando Ferreira, e os analistas Yuri Pereira e Thales Carmo, da XP.

Acompanhando desde cedo o exterior, em semana que reserva os balanços trimestrais de grandes bancos brasileiros, como Itaú PN, em alta de 0,59%, Bradesco ON, de 0,82% e Banco do Brasil ON, de 1,36%), o Ibovespa, mesmo limitando muito a recuperação na reta final da sessão, conseguiu interromper série de duas perdas, em dia bem negativo para o petróleo, em queda superior a 3%, em ajuste técnico neste começo de mês em que a Opep+ passa a implementar o acordo para aumento da produção do cartel em 400 mil barris por dia.

Entre as ações de grande peso, Petrobras PN caiu 1,86% e a ON, 0,95%, enquanto Vale ON avançou apenas 0,16%, após ter encerrado a sexta-feira na mínima do dia, em queda de 5,89%. Na ponta positiva do Ibovespa nesta abertura de semana, Totvs teve ganho de 4,55%, Americanas ON, de 4,42% e Taesa, de 4,08%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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