Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Bolsa cai 0,18% e dólar sobe a R$ 5,29 com investidor de olho em alta dos juros

Mercado analisou a sinalização de uma alta menor da Selic na próxima reunião, e a decisão do Banco da Inglaterra de subir os juros; recuo das ações do Facebook derrubou a Bolsa de Nova York

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2022 | 14h42
Atualizado 03 de fevereiro de 2022 | 19h04

O dia fortemente negativo para os ativos de risco, com os investidores monitorando as decisões de política monetária do Banco Central brasileiro e de autoridades monetárias do exterior, afetou o desempenho dos mercados. No câmbio, o dólar fechou em alta de 0,36%, cotado a R$ 5,2954, enquanto a Bolsa brasileira (B3) caiu 0,18%, aos 111.695,94 pontos. Em Nova York, o Nasdaq cedeu 3,74%, afetado pelo recuo das ações do Facebook.

A sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) de que o próximo ajuste nos juros pode ser menor, após elevar a taxa Selic em 1,5% ponto, para 10,75% ao ano ontem, gerou reações mistas no mercado. A leitura sobre o sinal não deixa de ser ambivalente: por um lado, o nível e a trajetória da inflação ainda preocupam o mercado; por outro, um ciclo menor de ajuste da Selic, com os juros em patamar não tão elevando, tenderia a ajudar a economia e o nível de atividade.

Do Copom, “o que veio com certa surpresa foi a indicação, para próximas reuniões, de aumento menor do que os 150 pontos-base, deixando alguma margem caso as condições e a inflação mudem até lá. O ciclo de aumento de juros já está no final, o que não deixa de ser positivo para a economia e o crescimento”, diz Mauro Morelli, estrategista-chefe da Davos Investimentos.

“A redução do ritmo de ajuste para a próxima reunião foi a novidade, mudança que vinha dividindo o mercado: uma parte acreditava que o BC daria esse sinal, outra de que deixaria a porta aberta. Pode ser traiçoeiro deixar já esta definição, porque a inflação pode mostrar evolução ainda em ritmo alto neste primeiro trimestre”, diz Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

“De qualquer forma, o comunicado trouxe novamente tom de alerta, principalmente sobre o quadro fiscal e possíveis impactos que um aumento nos gastos poderia ter sobre a inflação. Ou seja, o mercado pode interpretar que o ciclo de ajuste da Selic pode ser um pouco mais longo do que o previsto anteriormente. O mercado projetava juros de 11,75% para o final deste ano e essa projeção pode subir após a decisão (de ontem). Talvez para 12%, não muito mais que isso”, observa Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

Em resposta, as ações de setores de serviços, consumo e bancos estiveram entre as favorecidas. Hoje, Yduqs subiu 2,18%, CVC, 2,08%, e Americanas, 2,53%, enquanto Itaú teve alta de 1,16% e Bradesco, de 1,47%. Na semana, o Ibovespa cede 0,19% e, no mês, 0,40%, ainda acumulando bom ganho de 6,56% no ano.

O desempenho, positivo, porém, não livrou o Ibovespa de um desempenho negativo, em dia de forte recuo das Bolsas de Nova York: o índice tecnológico Nasdaq caiu 3,74%, o Dow Jones 1,46%, e o S&P 500, 2,44%, em dia de recuo de 25% das ações do Facebook, que perdeu US$ 252 bilhões em valor de mercado, após a empresa perder usuários e receita pela primeira vez em 18 anos.

Além disso, as decisões de política monetária na Europa também pesaram nos negócios. Hoje, o Banco da Inglaterra aumentou a taxa básica de juros pela segunda reunião consecutiva, em 25 pontos-base, a 0,50%. Pela primeira vez desde 2004, o BC inglês aumentou os juros em reuniões consecutivas, diante dos temores de que as expectativas inflacionárias se incorporem à economia britânica. Já o Banco Central Europeu (BCE) manteve hoje as taxas de juros da zona euro inalteradas, apesar da inflação recorde - de 5,1% no mês passado -, que atinge a região.

Em resposta, o mercado europeu também fechou em baixa. O índice Stoxx 600, que reúne as principais ações no continente, encerrou a sessão em baixa de 1,76%, enquanto a Bolsa de Londres, caiu 0,71%, a de Frankfurt, 1,57% e a de Paris, 1,54%. 

Câmbio

O dólar ganhou força no mercado doméstico na sessão desta quinta após a Selic, com o investidor de olho na ampliação ainda maior entre o diferencial de juros interno e externo. Com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na vanguarda, os bancos centrais dos países desenvolvidos vão embarcar em um processo de normalização da política monetária nos próximos meses enquanto o BC brasileiro já está quase no fim de seu ciclo de aperto. Era natural que, diante de tal quadro, houvesse ajustes e realização de lucros no mercado de câmbio local, após a recente rodada expressiva de apreciação da moeda brasileira.

Esse movimento de ajuste na taxa de câmbio foi mais intenso pela manhã, quando o dólar tocou na casa de R$ 5,32, ao correr até a máxima de R$ 5,3226. Já no início da tarde o dólar desacelerava e, após passar a etapa vespertina orbitando R$ 5,30. A moeda ainda acumula queda de 1,76% na semana e desvalorização de 5,03% neste ano.

Lá fora, com a arrancada do euro após o discurso de Lagarde, o índice DXY - que mede a variação do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - trabalhou em baixa firme, na casa dos 95,300 pontos. Em relação a divisas emergentes e de países exportadores de commodities, a moeda apresentou sinal predominantemente positivo, com alta frente o peso mexicano, o peso chileno e o rublo, enquanto recuou ante o rand sul-africano.

Para o gestor de juros e moedas da RPS Capital, Joaquim Sampaio, após a queda expressiva do dólar em janeiro, com forte fluxo de recursos externos, é difícil que haja uma nova rodada de apreciação do real. "Com os bancos centrais desenvolvidos cada vez mais 'duras' e os fundamentos locais ruins, não vejo uma entrada de recursos expressiva por parte dos estrangeiros daqui para frente", diz Sampaio, que classifica o forte fluxo externo para ativos domésticos no mês passado como um evento pontual.

Já o head de câmbio da HCI Invest, Anílson Moretti, aposta em manutenção do apetite de estrangeiros por ativos locais ao longo deste mês, suportado em grande parte por uma taxa de juros ainda elevada, apesar da sinalização do Copom de redução do ritmo de aperto. "Depois de vários dias de baixa, tivemos uma alta do dólar. Mas acredito que o nosso suporte de R$ 5,26 será rompido ainda em fevereiro. Depois vamos ter outro suporte em R$ 5,15", afirma Moretti. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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