Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Bolsa fecha em alta de 0,9%, apoiada no bom desempenho do exterior; dólar sobe 0,53%

Situação fiscal do Brasil, com o governo negociando um aumento do Bolsa Família, e andamento da reforma tributária, preocuparam o mercado na véspera da decisão do Copom

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 18h00

Ajudada pelo bom humor do exterior e na véspera de decisão do Copom, a Bolsa brasileira (B3) fechou esta terça-feira, 3, com alta de 0,87%, aos 123.576,56 pontos. Já no câmbio, acompanhando desdobramentos em torno da reforma do Imposto de Renda e também de olho na situação fiscal do País, o dólar devolveu parte dos ganhos de ontem, hoje em alta de 0,53%, a R$ 5,1927.

Na semana e no mês, o Ibovespa avança 1,46%, com ganho a 3,83% no ano. Em Nova York, o índice S&P 500 fechou com novo recorde histórico, enquanto as Bolsas da Europa também subiram. "A combinação de política e fiscal segura a taxa de câmbio em patamar mais alto, com a discussão sobre pagamento de precatórios, Bolsa Família maior, em movimento de incerteza e aversão a risco em relação a Brasil reforçado pela retomada da CPI da Covid, depois do recesso", diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

"A grande questão é quanto o eventual aumento de 1 ponto porcentual esperado amanhã por boa parte do mercado para a Selic, na reunião do Copom, pode minimizar esse aspecto de alta da taxa de câmbio - o quanto isso já está internalizado na taxa de câmbio. A meu ver, vai ajudar, mas será momentâneo. As questões políticas e fiscais vão falar mais alto ainda por bastante tempo", acrescenta a economista.

As idas e vindas em torno da proposta de tributação de rendimentos, com novas declarações do relator, o deputado Celso Sabino (PSDB-PA), na apresentação do texto, também continuam a ser acompanhadas de perto pelo mercado - e causaram algum ruído à tarde, embora passageiro. Ao fim, o que prevaleceu, sobre câmbio e ações, foram os comentários do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de que o reajuste do Bolsa Família não resultará em ruptura do teto de gastos, e de que não há possibilidade de "calote" nos precatórios, apesar da dificuldade de conciliar seu pagamento sem atingir o teto.

Embora Sabino tenha indicado que, com as mudanças, a reforma do IR terá efeito neutro do ponto de vista fiscal, fatores pontuais, como a proposta de aumento, de 4% para 5,5%, na alíquota de compensação financeira pela exploração de recursos minerais (CFEM) não passaram despercebidos, bem como a retórica do relator sobre os "altos lucros das grandes mineradoras".

"Uma grande companhia aqui, no segundo trimestre desse ano, anunciou um lucro de R$ 40 bilhões e tem um preço de equilíbrio do minério de US$ 45 por tonelada, e o valor do minério está em US$ 200 por tonelada", disse Sabino, sem citar o nome da Vale, cuja ação ON subia quase 4% mais cedo mesmo com o Ibovespa em baixa, mas chegou a se acomodar em nível menor, antes de se recuperar para fechar o dia em alta de 3,41%, a R$ 112,64. 

Sabino confirmou a isenção sobre lucros e dividendos de empresas enquadradas no Simples nacional, mas apontou que, a despeito do efeito fiscal neutro da reforma pretendida, a carga pode subir. "Há algumas exceções, de grandes recebedores de lucros e dividendos", observou.

Pela manhã, sem conseguir acompanhar Nova York, o Ibovespa mostrava perdas que o colocaram no pior momento no menor nível intradia desde 14 de maio, refletindo, por um lado, o retraimento do investidor estrangeiro observado desde julho e, por outro, a nova fornada de preocupações domésticas, sobre precatórios e a busca de abertura de espaço orçamentário para acomodar Bolsa Família de até R$ 400 sem ferir o teto de gastos. Hoje, Lira negou haver conversas sobre elevação do auxílio a este patamar.

"A volatilidade que vimos hoje reflete o grau de incerteza, de ruído, sobre o fiscal a partir do nível político, em circunstância na qual o investidor estrangeiro já vinha retraído, e assim deve permanecer até que se tenha clareza maior. Por outro lado, a temporada de balanços, positiva, tem contribuído para segurar o índice", diz Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos, escritório ligado ao BTG Pactual.

"Há todo um ambiente de volta à preocupação fiscal. Em um período curto, de três meses, com aceleração do crescimento e da inflação, houve queda da relação dívida/PIB, o que havia criado uma percepção melhor do mercado sobre a situação fiscal. Conforme a gente vai caminhando para o final do ano, e entra na pauta a discussão da eleição e do Orçamento do ano que vem, a percepção de alívio no fiscal vai caindo por terra, por conta de várias atitudes e falas na linha populista. Mercado vai ficando mais nervoso, localmente, com situação fiscal um pouco mais desafiadora, entrando em 2022", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group, destacando também a reforma fiscal, entendida também como "populista" - o que "nunca dá certo, em nenhum país do mundo". "O resultado é juro mais alto, inflação mais alta e crescimento de longo prazo mais baixo", acrescenta.

Entre as ações, Petrobras PN subiu 1,67% e Itaú PN, 0,98%. Destaque ainda para Vale ON, em alta de 3,41% e Bradespar, de 2,98%, na ponta do índice. Na face oposta do Ibovespa, Americanas ON cedeu 4,43% e Sul América, 2,65%.

Dólar

Temores de deterioração das contas públicas na esteira da ameaça de uma onda populista do governo Jair Bolsonaro, em meio ao debate sobre o pagamento de precatórios e o reajuste do Bolsa Família, pautaram os negócios no mercado de câmbio no pregão desta terça, em mais um dia de muita volatilidade. Na maior parte do pregão, a moeda operou acima de R$ 5,20 e registrando, no início da tarde, máxima de R$ 5,2746.

Lá fora, o índice DXY - que mede a variação da moeda americana ante seis divisas fortes - operava perto da estabilidade, na casa dos 92,000 pontos. Em relação a emergentes, o comportamento do dólar era misto, com alta frente ao peso colombiano e a lira turca, mas queda ante o rand sul-africano e o peso mexicano.

Para head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto, o encaminhamento da questão dos precatórios e o desejo de aumento do Bolsa Família passam a sensação de um governo "displicente" com a questão fiscal. E o risco de deterioração das contas públicas deve aumentar cada vez mais, à medida que se aproximam as eleições de 2022. "Bolsonaro parece disposto a sacrificar o fiscal se for para garantir a sua reeleição, enquanto Lula já disse que vai acabar com o teto de gastos. Isso tudo pressiona a moeda", diz Netto.

O diretor da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, afirma que os "sinais internos sugerem que a cena política fará os fundamentos econômicos sucumbirem", o que aumenta a volatilidade e impede que a taxa de câmbio vá para um nível compatível com a alta do juros internos. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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