Tasos Katopodis/ EFE
Tasos Katopodis/ EFE

Bolsa despenca 2,2% e dólar sobe 1,4%, pressionados por cenário de instabilidade do exterior 

Impasse sobre o teto da dívida americana e crise da chinesa Evergrande afetaram as bolsas mundias, com reflexos também para o Ibovespa; dólar fechou em R$ 5,4465, o maior valor desde 27 de abril

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 14h33
Atualizado 04 de outubro de 2021 | 18h24

Em dia de grande aversão aos riscos no exterior, diante do impasse sobre a elevação do teto da dívida americana e a crise de solvência da chinesa Evergrande, o investidor local seguiu o mercado internacional nesta segunda-feira, em especial a Bolsa de Nova York, hoje duramente afetada pelo recuo de mais de 2% do índice de tecnologia Nasdaq, pressionado pela falha que atinge os serviços do Facebook. Em resposta, a Bolsa brasileira (B3) fechou em forte queda de 2,22%, aos 110.393,09 pontos, enquanto no câmbio, o dólar subiu 1,44%, a R$ 5,4465 - maior valor de fechamento desde 27 de abril.

O forte recuo da Bolsa de Nova York pesou no desempenho do Ibovespa, em dia de noticiário local esvaziado. Por lá, o Nasdaq cedeu 2,14%, com destaque para a perda de 4,89% das ações do Facebook, empresa dona também dos aplicativos WhastsApp e Instagram, todos fora do ar desde o final da manhã - no pior momento do dia, as ações da empresa caíam perto dos 6%. O dia também foi de forte recuo para outras ações de tecnologia, diante das perspectivas de avanço da inflação americana: Apple caiu 2,46%, Amazon cedeu 2,85% e Twitter teve baixa de 5,79%.

As redes sociais da companhia não funcionam há mais de quatro horas para usuários de diversas partes do mundo. Além disso, o problema se dá um dia depois de Frances Haugen, ex-gerente de produto do Facebook, revelar ser a fonte por trás da série investigativa do Wall Street Journal, que mostrou que a companhia estava ciente dos danos que causa aos usuários e escolheu não resolvê-los.

Ainda em Nova York, Dow Jones recuou 0,94% e S&P 500, 1,30%. Nos Estados Unidos, o cenário é de grande incerteza. Hoje, o presidente Joe Biden disse que não poderia garantir que não haverá calote da dívida, ao fazer um apelo para que os republicanos "saiam do caminho" e deixem os democratas elevarem o teto da dívida. "Um calote da dívida levaria nossa economia ao precipício", acrescentou. "Nunca falhamos em pagar nossas dívidas, é o que nos define", disse também Biden. "O que os republicanos estão fazendo ao bloquear suspensão do teto é perigoso", concluiu.

Mais tarde, a Casa Branca confirmou que Biden não descarta elevar o teto da dívida por meio de instrumento legislativo conhecido como "reconciliação", ante o bloqueio imposto pelos republicanos. 

A elevação global do petróleo é outro fator acompanhado de perto pelo governo americano, apontou a porta-voz Casa Branca, Jen Psaki. Segundo ela, o governo dos EUA usará "todos os meios à disposição" para evitar que os preços de combustível subam demais, com a intenção de barrar um impacto ainda maior nos preços e, consequentemente, na inflação. Durante entrevista coletiva, a porta-voz disse também que o país já liberou parte de suas reservas estratégicas para lidar com o quadro.

Hoje, o WTI para novembro subiu 2,29%, a US$ 77,62 o barril em Nova York. Já o Brent para dezembro avançou 2,50%, a US$ 81,26 o barril em Londres. Em deliberação bem recebida no mercado da commodity, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), em reunião ministerial nesta segunda-feira, decidiu manter o acordo já em vigor sobre o aumento gradual da oferta. Com isso, o grupo continuará a elevá-la em 400 mil barris por dia em novembro. Em resposta, as ações ON e PN de Petrobras subiram 2,44% e 2,82% cada.

"A política fiscal continua no ar, altos custos de energia agora são dados, ninguém pode responder por quanto tempo os problemas de restrição na cadeia de suprimento vão durar, as preocupações com o crescimento global para o próximo trimestre continuam piorando, enquanto o que foi a rede de segurança sem fim, de estímulo do banco central, parece prestes a acabar em breve", resume em nota Edward Moya, analista da Oanda.

O cenário econômico chinês também ficou no radar hoje, após a suspensão de negócios com ações do grupo Evergrande e da subsidiária Evergrande Property Services, que revelou esperar receber uma proposta de aquisição. Em resposta, na Ásia, a Bolsa de Hong Kong, onde são negociadas as ações da companhia caíram, 2,19%, enquanto a Bolsa de Tóquio cedeu 1,13%. Na Europa, os índices de Londres, Paris e Frankfurt caíram 0,23%, 0,79% e 0,61% cada.

Por aqui, na mínima do dia, o Ibovespa caía aos 109.978,79 pontos, mais do que devolvendo o ganho de 1,73% registrado no fechamento da sexta-feira, alternando altos e baixos sem interrupção nas últimas oito sessões. No ano, o índice cede 7,25%, com recuo de 0,53% nas duas primeiras sessões de outubro. Entre as ações, destaque para o recuo do setor de siderurgia, com CSN ON em baixa de 5,00% e Usiminas PNA, de 5,22%.

Câmbio

O real liderou as perdas entre as moedas emergentes em relação ao dólar nesta segunda, dia marcado por movimento de fuga de ativos de risco em todo o mundo. O impasse em torno da elevação teto da dívida americana e a crise de solvência da incorporadora chinesa Evergrande mantiveram os investidores na defensiva.

Em alta desde a abertura dos negócios, quando registrou a mínima a R$ 5,3744, o dólar operou acima da linha de R$ 5,40 a maior parte da sessão e chegou a flertar com o patamar de R$ 5,45, ao correr até a máxima de R$ 5,4565 à tarde. O dólar futuro para novembro subiu 1,73%, a R$ 5,4775.

Lá fora, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - recuava cerca de 0,20%, em correção após as altas recentes e avanço do euro. A moeda americana avança em bloco frente a divisas emergentes, com ganhos mais acentuados frente ao real e ao rand sul-africano (+1,03). Entre países exportadores de commodities, destaque para o rublo, que avança na esteira dos ganhos do petróleo.

No front doméstico, ganha cada vez mais força a ideia da estagflação em 2022, com redução das estimativas de crescimento e aumento das expectativas de inflação. Já há quem veja a taxa Selic perto de 10% no ano que vem. Isso em meio à pressão por expansão de gastos em pleno ano eleitoral. Não é à toa que parte do mercado vê nas intervenções do Banco Central no mercado de câmbio - via swaps cambiais (equivalente à venda de dólares no mercado futuro) - o desejo de suavizar a alta do dólar e evitar, assim, aumento ainda maior das pressões inflacionárias. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ, MAIARA SANTIAGO E ILANA CARDIAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.