Gustavo Scatena/B3 - 21/10/2020
Gustavo Scatena/B3 - 21/10/2020

Apoiado em exterior positivo, dólar avança a R$ 5,48 e barra recuperação da Bolsa

Moeda americana foi favorecida hoje pela divulgação de dados positivos para a economia dos Estados Unidos; cenário local incerto, com inflação e questões fiscais, também deu fôlego para o dólar

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 14h31
Atualizado 05 de outubro de 2021 | 18h30

O ambiente favorável no exterior, diante do desempenho dos mercados de Nova York e da Europa, não foi o suficiente para garantir a recuperação da Bolsa brasileira (B3)após a queda de 2,2% ontem. Pressionado pelo dólar, que terminou esta terça-feira, 5, com ganho de 0,71%, cotado a R$ 5,4851 - maior valor de fechamento desde 23 de abril -, o principal índice do mercado acionário do País teve apenas ganho marginal de 0,06%, aos 110.427,64 pontos.

A valorização da moeda vem na esteira da alta do índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) de serviços dos Estados Unidos do Instituto ISM subiu de 61,7 em agosto para 61,9 em setembro. O resultado surpreendeu analistas consultados pelo The Wall Street Journal, que previam queda do indicador a 60. O déficit comercial dos EUA atingiu US$ 73,3 bilhões em agosto, também acima do esperado (US$ 70,3 bilhões), com grande avanço das importações, reflexo do ímpeto da economia americana.

Os dados favoráveis reforçam as expectativas pelo início da retirada de estímulos por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em novembro. Pela manhã, o presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, disse estar "confortável em pensar" que a inflação, por conta, sobretudo, dos gargalos de oferta vai diminuir, mas disse que isso pode "demorar um pouco mais" do que se esperava. Evans repetiu sua avaliação de que o início da redução mensal da compra de ativos, o 'tapering', pode vir "em breve".

O cenário, que fortalece a busca pela moeda americana, fez com que o dólar ganhasse força não apenas por aqui, mas também no exterior. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - avançava 0,23%, perto do limiar dos 94 pontos. Em relação às divisas emergentes e de países exportadores de commodities, o dólar subia em relação ao peso mexicano, colombiano e a lira turca, mas recuava ante o rand sul-africano e o rublo, este apoiado por mais uma rodada de alta do petróleo.

Em Nova York, o petróleo WTI para novembro subiu 1,69%, a US$ 78,93 o barril - no maior valor desde 2014. Já o Brent para dezembro, por sua vez, avançou 1,60%, a US$ 82,56 o barril em Londres. O avanço dos contratos fez crescer o temor ante a inflação, em meio a uma crise de energia global, mas também beneficiou as petroleiras. Em Nova York, a Chevron subiu 1,09% Na Europa, as ações da Royal Dutch Shell e da BP avançaram 1,77% e 2,18%, respectivamente. Por aqui, Petrobras ON subiu 1,67%, e a PN, 2,19%.

"Ontem, a Opep+ [Organização de Países Exportadores de Petróleo e Aliados] confirmou que manteria sua produção no nível atual mesmo com a pressão de alguns países por um aumento maior da produção. Ou seja, existe maior demanda pela commodity e a decisão de não aumentar a produção se reflete no aumento dos preços", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

No entanto, o cenário local também ficou no radar dos investidores. A máxima do dólar no dia, de R$ 5,4876, veio em meio a declarações do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), neste fim de tarde, que colocam em xeque o andamento de pautas caras ao Planalto no Congresso.

Em dia de entrega do parecer da PEC da reforma tributária (que trata da unificação de tributos), pelo senador Roberto Rocha (PSDB-MA), Pacheco afirmou que o "projeto do IR pode até ser apreciado pelo Senado", mas que é preciso "exaurir todas as possibilidades" de fontes de financiamento para o Auxílio Brasil, citando o Refis, repatriação de recursos e arrecadação com atualização de valor de ativos.

Para Pacheco, não é recomendável apostar todas as fichas na reforma do IR para bancar o programa social que vai substituir o Bolsa Família. Ele também disse que está sendo debatida a prorrogação do auxílio emergencial, adotado para lidar com a perda de renda das famílias por conta da pandemia do novo coronavírus. Em relação ao parecer da reforma tributária apresentada hoje, Pacheco evitou se comprometer com prazos.

Na avaliação do economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, é grande no mercado a preocupação com as contas públicas e a ameaça à âncora fiscal do país justamente em meio a uma escalada inflacionária provocada por choques de oferta (como a crise hídrica). Ele chama a atenção para o impasse em torno da questão dos precatórios e da reforma do Imposto de Renda, que considera "claramente populista" e ruim para o crescimento potencial. "O mercado está com uma cautela muito grande em relação ao Brasil. As Bolsas lá fora se recuperando lá fora e o Brasil aqui operando de lado, com o dólar subindo", afirma Miraglia.

Em relatório, o sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, afirma que "aumenta a percepção de que a cobertura do Auxílio Brasil não será atingida", dada a falta de perspectiva de aprovação da reforma do IR no Senado. "O governo precisaria de quase R$ 30 bilhões, em particular dos dividendos", escreve Velho, em referência à tributação de lucros e dividendos. "Não teremos contribuição fiscal para desacelerar a inflação, e a inércia inflacionaria aumentou e não está estabilizada. Governo dá sinais de subsídios ou escalonamento de reajustes de preços administrados".

Bolsas

Descolado do exterior, o Ibovespa não conseguiu reparar as perdas de ontem. Durante o pregão, o índice chegou a registrar picos de alta, em sintonia com Nova York, subindo 1,18%, aos 111.691,29 pontos, na máxima do dia. Na semana, cede 2,16%, com perda de 0,47% nestas três primeiras sessões de outubro - no ano, o índice recua 7,19%.

Já no exterior, o dia foi de recuperação. Em Nova York, Dow Jones e S&P 500 subiram 0,92% e 1,05%, enquanto o Nasdaq teve ganho de 1,25%, recuperando parcialmente as perdas do dia anterior, causadas pela pane de sete horas dos serviços do Facebook. Hoje, as ações da companhia subiram  2,06%. A rede social, contudo, enfrenta intenso escrutínio. Hoje, uma ex-funcionária acusou a empresa de violar as leis de segurança dos EUA e omitir relatórios a investidores.

No mercado europeu, os principais índices também subiram, na esteira da alta do índice de gerentes de compras (PMI) do setor de serviços da zona do euro em setembro, que ficou em 56,4, acima da leitura preliminar de 56,3. Por lá, a Bolsa de Londres subiu 0,94%, a de Paris, 1,52% e a de Frankfurt, 1,05%. Na Ásia, onde os mercados chineses ainda estão fechados devido a um feriado, a Bolsa de Hong Kong subiu 0,28%, mas as negociações das ações da Evergrande seguem suspensas, por conta da forte crise financeira que abala a incorporadora chinesa.

De volta ao Brasil, o destaque ficou, além do ganho das ações da Petrobras, com o setor financeiro, com Banco do Brasil em alta de 4,76% e Itaú, de 2,42% - o desempenho do setor manteve o Ibovespa em terreno positivo nesta terça, em dia negativo para a mineração, com Vale ON em baixa de 0,72%, e também siderurgia, em dia de baixa para Usiminas PNA, com 0,38%, e Gerdau PN, em queda de 0,52%. Refletindo os "jabutis" incluídos na MP da crise hídrica, as ações de utilities caíram: Eletrobras ON baixou 1,00%, Cesp PNB, 1,94%, e Copel PNB, 1,36%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL, MAIARA SANTIAGO E SILVANA ROCHA

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