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Paul Yeung/Bloomberg
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Dólar dispara 2,4%, a R$ 5,20, e Bolsa recua 1,4% de olho em risco político

Andamento da CPI da Covid, que ameaça a votação das reformas estruturais, somada a cautela no exterior prejudicaram o desempenho do mercado brasileiro

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 15h25

O dia foi negativo para o mercado financeiro local, assim como nas principais praças internacionais nesta terça-feira, 6, com a Bolsa brasileira em queda de 1,44%, aos 125.094,88 pontos. No câmbio, o dólar fechou em alta de 2,39%, a R$ 5,2092, maior alta porcentual desde 24 de março e maior cotação desde 31 de maio. No exterior, a divulgação da ata do banco central dos Estados Unidos preocupa, enquanto por aqui, pesou o risco político com o desenrolar da CPI da Covid.

Hoje, o real mais uma vez liderou o ranking das perdas entre as divisas emergentes, fenômeno atribuído à deterioração do ambiente político doméstico. Na mínima, o dólar bateu em R$ 5,0765 e na máxima, em R$ 5,2127. No acumulado de julho, a valorização chega a 4,75%. A moeda para agosto subiu 2,07%, a R$ 5,2115.

Operadores e analistas atribuem o quadro político conturbado a uma combinação de fatores: avanço das investigações da CPI da Covid sobre propina em compra de vacinas, mal-estar com a proposta da reforma tributária e temores de uma "guinada populista" do governo Jair Bolsonaro, sobretudo após a Petrobrás anunciar um aumento nos preços dos combustíveis em meio à ameaça de paralisação dos caminheiros, que programam greve geral para 25 de julho.

Há preocupações também com a deterioração do quadro fiscal. Ontem à noite, o governo anunciou a prorrogação do auxílio emergencial por mais três meses. Economistas têm dito que a "melhora fiscal" vista nos últimos meses decorre mais de surpresas positivas com a atividade do que do sucesso do Ministério da Economia em colocar a 'casa em ordem'.

Além disso, Bolsonaro é alvo de um superpedido de impeachment, sofre acusações de receber parte do salário de assessores quando era deputado federal, a chamada "rachadinha", e aparece atrás do ex-presidente Lula nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2022. No noticiário político de hoje, o presidente da Câmara, Arthur Lira, reforçou que não há justificava para votar impeachment de Bolsonaro, a despeito das denúncias recentes.

Em depoimento à CPI da Covid, a servidora do Ministério da Saúde Regina Célia Silva Oliveira, fiscal para o contrato para aquisição da vacina indiana Covaxin, negou que haja influência do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), na pasta. Ela disse não ter visto nada de "atípico" no processo de aquisição da Covaxin, mas admitiu que o contrato ficou um mês sem fiscalização.

A economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ouroinvest, atribuiu o desempenho pior do real em relação a outras dividas emergentes à percepção de aumento do risco político interno. "Hoje o dia foi muito ruim para as moedas emergentes. E o real tende a sofrer mais porque o nosso mercado é mais líquido. Mas eu acho que o comportamento da moeda hoje é muito explicado pelo nosso quadro político", afirma a economista. "A expectativa de melhora da economia, com o avanço da vacinação, e aumento dos juros haviam contribuído para a queda do dólar em junho. Agora, vemos o risco político tomar conta e uma expectativa de inflação mais alta, que também prejudica", acrescenta Cristiane.

Lá fora, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, tinha alta firme e trabalhava na casa de 92,5 pontos. Entre as demais divisas emergentes, a moeda avançava com mais força frente ao peso colombiano, o peso mexicano e o rand sulafricano. O indicador que chamou mais a atenção foi a queda do índice de gerente de compras (PMI, na sigla em inglês) de serviços nos Estados Unidos, de 64 em maio para 60,1 em junho - resultado bem abaixo dos prognósticos do mercado.

O economista-chefe do Instituto Internacional de Finanças (IFF), Robin Brooks afirmou, no Twitter, que os dados fracos da economia americana levaram a um temor em relação ao crescimento global, o que acabou pesando nos ativos emergentes. "É uma bobagem. A economia americana está se recuperando. A pior bobagem de todas é a queda aguda do real. Mantemos nosso valor justo de R$ 4,50", escreveu Brooks.

A cautela também foi reforçada pela expectativa em torno da divulgação, amanhã, da ata do mais recente encontro de política monetária doFederal Reserve (Fed, o banco central americano), o que pode mexer com as expectativas para o início da redução da compra de ativos ('tapering') e, por tabela, com a liquidez global.

Bolsa

Com o dólar de volta a R$ 5,21 na máxima desta terça e a realização de lucros em Nova York, com apenas o Nasdaq fechando em alta, o Ibovespa perdeu o fôlego. Na semana, o índice cai 1,98%, elevando as perdas neste começo de mês a 1,35% - no ano, limita o ganho a 5,11%. 

Bradespar, em alta de 1,42%, Vale ON, de 0,53% e Energisa, de 0,09% foram as três exceções positivas no Ibovespa, com Petrobrás PN e ON em queda respectivamente de 4,09% e 3,74%, ambas nas mínimas do dia no fechamento, e perdas generalizadas em outros segmentos de peso, como bancos, com queda de 1,55% de Bradesco ON, de 1,50% de Banco do Brasil ON e 1,70% de Santander. No segmento de siderurgia, CSN despencou 2,13%

"Mercados seguem com os temores, os barulhos da CPI e da política, que têm interferido no curto prazo, fazendo com que se tenha uma realização mais forte. Junto a isso, tem um pouco do impasse do petróleo (na Opep+), sem uma solução sobre a recomposição da oferta da commodity, e também a expectativa para a ata do Fed, amanhã, em que o mercado vai tentar fazer a leitura sobre quando (o BC dos EUA) voltará a subir juros", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

"As denúncias de corrupção envolvendo a compra de vacinas pelo governo federal, com novas acusações envolvendo a Davati Medical Supply, a retomada do caso do esquema de 'rachadinha' envolvendo Bolsonaro, assim como a perda de força do presidente nas últimas pesquisas, geraram uma 'tempestade perfeita' para o governo", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, chamando atenção para o patamar de 125 mil pontos, "decisivo no curtíssimo prazo". "Caso perdido, irá gerar novo 'momentum' de baixa e abrir caminho para o suporte de curto prazo, marcado em 122 mil pontos", acrescenta o analista. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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