Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Cenário fiscal do País e geração de vagas nos EUA fazem dólar avançar 0,4%; Bolsa sobe 1%

Temores de relaxamento fiscal, com criação de desculpas para tirar gastos sociais da regra do teto, preocupam os investidores; tensões políticas envolvendo Bolsonaro também ficaram no radar

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 14h32

bom humor vindo de Nova York, cujos índices fecharam com recorde nesta sexta-feira, 6, após a forte geração de novas vagas nos Estados Unidos em julho, deu força para o dólar, que subiu 0,40%, cotado a R$ 5,2363. O cenário também favoreceu a Bolsa brasileira (B3), hoje em alta de 0,97% aos 122.810,36 pontos. No entanto, as questãos fiscais ainda ficaram no radar dos investidores.

A moeda americana termina a primeira semana de agosto com valorização de 0,51%. O dólar para setembro teve queda de 0,42%, a R$ 5,2480. O real até figurou entre as dividas emergentes e de países exportadores que menos sofreram hoje, em razão de questões técnicas. Operadores ressaltam que a moeda brasileira "apanhou" muito ontem, o que abriu espaço para realização de lucros e diminuiu, mesmo que marginalmente, as pressões sobre a taxa de câmbio.

O mercado até que gostou da investida do Ministério da Economia contra o projeto de lei que reabre o Refis, aprovado pelo Senado e que prevê amplo alívio em dívidas de empresas e pessoas físicas. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o ministro Paulo Guedes vai argumentar a favor de um veto presidencial, caso o projeto passe na Câmara dos Deputados. Guedes também não chancelaria a ideia de retirar os desembolsos com pagamento de precatórios, o "meteoro fiscal" citado pelo ministro, do teto de gastos.

Os temores de relaxamento fiscal, com criação de subterfúgios de tirar certos gastos sociais da regra do teto, em meio aos debates do Orçamento de 2022, elevam a incerteza e impedem que o real se beneficie da perspectiva do ciclo de aperto monetário. Ainda não se sabe ao certo como o governo vai acomodar o reajuste turbinado do Bolsa Família, pretendido por Bolsonaro, e o pagamento de precatórios dentro do orçamento. Em mais uma fala vista como populista nas mesas de operação, o presidente voltou a criticar o preço dos combustíveis e disse que estuda a possibilidade de zerar o imposto federal sobre o diesel em 2022.

Para o head de mesa específica para câmbio e operações PJ, da Wise Investimentos, Gustavo Gomiero, os riscos fiscais e o embate em torno do voto impresso assustam os investidores e impedem que o dólar recue, a despeito dos juros mais altos e da perspectiva de andamento das reformas no Congresso. "O diferencial de juros pode trazer fluxo de entrada capital especulativo e derrubar o dólar. Tivemos boa notícia de andamento das privatizações de Correios. Mas tudo isso é deixado de lado pelas tensões políticas e fiscais", afirma Gomeiro.

Além das preocupações fiscais, também causam marolas no mercado as rusgas entre o presidente Jair Bolsonaro, que segue no ataque ao sistema eleitoral, e os ministros do STF. Ontem, o dólar futuro disparou no fim do dia após o presidente do corte, Luiz Fux, cancelar reunião entre líderes dos Poderes, alegando que Bolsonaro não quer o diálogo. Como já era esperado, o voto impresso, bandeira do presidente, foi derrotado ontem em comissão especial da Câmara dos Deputados, embora ainda possa ir ao plenário.

Declarações apaziguadoras do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que exortou o STF a retomar o diálogo e defendeu a lisura do sistema eleitoral, levaram a uma queda momentânea do dólar no início da tarde. Mas logo a moeda voltou a subir, insuflada pela retórica agressiva de Bolsonaro, que pode agravar a crise institucional. Em Joinville (SC), o presidente atacou novamente o ministro do STF e presidente do TSE, Luis Roberto Barroso, associando-o à pedofilia. Bolsonaro disse já ter apresentado provas de fraudes nas eleições e afirmou que só Deus o "tira daquela cadeira [a presidência da República]".

As declarações provocam solavancos na taxa de câmbio, com investidores aproveitando o tiroteio verbal para operações pontuais de ajustes de posições e realizações de lucros. "A incerteza do cenário interno é muito grande. Tem essa briga entre Poderes e o temor de populismo. O Pacheco tenta apaziguar, mas vem o Bolsonaro e joga gasolina na fogueira de novo. Quando se fala do Bolsonaro, a incerteza é a única certeza", afirma Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus, ressaltando que as crescentes dúvidas no front fiscal e a preocupação com o populismo do presidente estressam o mercado. "Quanto mais se aproximam as eleições do ano que vem, mas esse quadro de incerteza tende a se agravar".

No exterior, o dia foi de ganhos generalizados do dólar, na esteira do payroll forte, com criação de 943 mil vagas em julho, acima da mediana de 900 mil de Projeções Broadcast. Além disso, a taxa de desemprego recuou de 5,9% para 5,4% (previsão era de 5,75). Esse resultado alimenta as expectativas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) comece a reduzir o volume de compra mensal de títulos, atualmente em US$ 120 bilhões, antes do quarto trimestre deste ano.

Bolsa

O Ibovespa conseguiu sobreviver ao dia de pressão sobre câmbio e juros, ambos refletindo a deterioração das condições políticas, para fechar a semana acumulando ganho de 0,83%, apoiado no fechamento recorde de Dow Jones e S&P 500 no mercado de Nova York. Com o desempenho desta sexta-feira, o Ibovespa quebrou série de duas semanas negativas, nas quais havia acumulado perdas de 2,60% e 0,72%. No ano, sobe 3,19%.

"Mercado recuperou hoje boa parte das perdas, principalmente no setor siderúrgico e em bancos, que haviam sido mais afetados. O mercado continua atento às questões fiscais e políticas, mas teve dia positivo, focando um pouco nos números das empresas e nos dados lá de fora, dos Estados Unidos, de reaquecimento da economia", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

Sobre o bom resultado do mercado de trabalho americano, "o cenário de recuperação sólida é positivo, mas a expectativa de elevação de juros e redução de estímulos um pouco antes do esperado pode balançar os mercados por aqui - elevando as taxas de juros futuras de longo prazo -, especialmente ao se juntarem às preocupações fiscais crescentes, vindas dos corredores de Brasília", diz Rachel de Sá, chefe de Economia da Rico Investimentos.

Na B3, o dia foi de recuperação bem distribuída por ações e segmentos de maior peso, à exceção do desempenho misto de Petrobras PN, em alta de 0,14%, mas a ON em queda de 0,55%, em dia e semana negativos para as cotações do petróleo. Destaque para as ações de bancos, como Santander Unit em alta de 3,97%, Itaú PN, de 2,80% e Banco do Brasil ON, de 3,05%. No lado oposto, Americanas ON caiu 2,41%, após confirmação de contato preliminar sobre eventual interesse da empresa por Marisa/ANTONIO PEREZ, LUIS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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