Paul Yeung/Bloomberg via The Washington Post
Paul Yeung/Bloomberg via The Washington Post

Dólar fecha no maior nível desde 20 de abril, com expectativa pela inflação de setembro

Além do dado, que sai amanhã, investidor também espera pelo resultado do mercado de trabalho dos Estados Unidos de setembro; PEC dos precatórios foi bem aceita pelo mercado

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 14h33
Atualizado 08 de outubro de 2021 | 12h38

Apesar do bom humor do exterior - e da recepção positiva do texto da PEC dos precatórios pelo mercado - o dólar voltou a ganhar força ante o real, fechando em alta de 0,57%, cotado a R$ 5,5174 - maior valor desde 20 de abril, quando a moeda encerrou cotada a R$ 5,5603. O dia foi marcado pela expectativa dos investidores com dados sobre as economias americana e brasileira, que saem amanhã. Também na espera, a Bolsa brasileira (B3) terminou o dia apenas com variação positiva, em leve ganho de 0,02%, aos 110.585,43 pontos.

O apetite por risco no exterior foi apoiado pela notícia dos Estados Unidos de que há um acordo entre governo e oposição para elevar o teto da dívida, ao menos até dezembro. Em resposta, em Nova York, Dow Jones subiu 0,98%, o S&P 500, 0,83%, e o Nasdaq, 1,05%. Na Europa, a Bolsa de Londres teve alta de 1,17%, Frankfurt, de 1,85%, e Paris, de 1,65%. Já na Ásia, a Bolsa de Tóquio avançou 0,54% e a de Hong Kong, 3,07%.

"Os investidores continuam otimistas de que os EUA não vão dar o calote em sua dívida depois que os democratas aceitaram o aumento do limite da dívida de curto prazo oferecido pelos republicanos", comenta o analista Edward Moya, da Oanda.

Depois de chacoalhar pela manhã, quando correu entre mínima a R$ 5,47 e máxima a R$ 5,5290, a moeda americana apresentou oscilações modestas ao longo da tarde, flutuando ligeiramente abaixo de R$ 5,50. O dólar futuro para novembro subiu 0,38%, cotado a R$ 5,5380. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - trabalhava perto da estabilidade, mas em níveis elevados, na casa dos 94,200 pontos. Entre as divisas emergentes, o real e o peso mexicano amargaram as piores performances.

Impediram os ganhos dos ativos brasileiros hoje, a grande expectativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, que deve trazer o maior resultado para a inflação no mês desde 1994, e os dados do mercado de trabalho dos EUA do mês passado.O resultado irá ajudar o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) a definir se começa em novembro - ou não - a redução do programa de compra de ativos, processo chamado de 'tapering'. Ambos os dados saem amanhã.

A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, avalia que a principal pressão sobre a taxa de câmbio vem do exterior, diante da expectativa pelo 'tapering', em meio a indicadores positivos da economia americana. "Isso impacta em cheio as moedas emergentes. O tema orçamentário nos EUA pesa pouco, mas, de qualquer forma, aumenta a volatilidade", afirma Consorte.

Para o gerente de câmbio da corretora Ourominas, Mauriciano Cavalcanti, a taxa de câmbio mudou de patamar e deve operar em uma faixa entre R$ 5,45 e R$ 5,55 daqui para frente. "Não vamos ver esse dólar voltar para o nível de R$ 5,30. A cautela é muito grande com os números ruins da economia brasileira", diz Mauriciano, acrescentando que o desgaste adicional de Paulo Guedes, após a revelação de que o ministro da Economia tem conta offshore em um paraíso fiscal, aumenta o desconforto dos investidores.

Consorte ressalta que o "pano de fundo do Brasil" segue muito ruim. Após a decepção com os dados das vendas no varejo em agosto, divulgados ontem, pode haver novas revisões para baixo nas expectativas para o crescimento do PIB. "Tudo isso em um cenário de pressão inflacionária e ambiente político pouco propício para evolução de reformas. O resultado é um dólar acima de R$ 5,50".

Por aqui, o mercado recebeu moderadamente bem o parecer do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) sobre a PEC dos Precatórios, que trouxe várias modalidades de pagamento aos credores, conforme havia sido negociado entre Guedes, e os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL).

O encontro de contas poderá ocorrer, por exemplo, via quitação de débitos parcelados ou débitos inscritos em dívida ativa do ente. Como mostrou o Estadão/Broadcast, a medida abre um espaço de R$ 51 bilhões no teto de gastos. O desenlace da PEC dos Precatórios e a aprovação da reforma do Imposto de Renda no Senado são fundamentais para que haja uma definição sobre o valor do Auxílio Brasil, o programa social que substituirá o Bolsa Família. Nos bastidores, há também negociações para prorrogação do auxílio emergencial.

A avaliação nas mesas de operação, as indefinições no campo fiscal, aliadas ao ambiente de inflação elevada e indicadores fracos de atividade, jogam contra o real, que não deve encontrar espaço para uma melhora significativa em um momento de menor liquidez no mundo.

Bolsa

Ibovespa andou de lado hoje. Na máxima da sessão, o índice subia quase 0,8%, mas não conseguiu sustentar os ganhos. No mês, o índice cede 0,35%, com perda de 2,05% na semana e de 7,08% no ano. Entre as ações, Petrobras fechou com sinal misto, com a ON em alta de 0,21%, mas a PN em queda de 0,14%, apesar dos ganhos dos contratos de petróleo no exterior.

Em Nova York, o WTI para novembro subiu 1,12%, a US$ 78,30 o barril, enquanto em Londres, o Brent para dezembro avançou 1,07%, a US$ 81,95 o barril. Os contratos foram ajudados pela notícia de que os EUA não devem liberar reservas estratégicas para segurar os preços no mercado internacional. A medida viria para conter os preços do petróleo no exterior, diante das projeções de que o WTI pode bater nos US$ 90 o barril.

A decisão viria também em meio à crise energética que recai sobre os países europeus, que além da escassez, também enfrentam a elevação dos preços do setor, o que pressiona ainda mais a inflação da região. Hoje, o governo russo afirmou que pode elevar a oferta de gás para a Europa, para conter os preços. Um porta-voz do governo disse que existe potencial para isso, a depender da demanda, dos contratos e dos acordos comerciais. 

Além das ações de commodities, especialmente mineração, com Vale ON em alta de 2,98%, a retomada ainda que parcial em siderurgia, com Gerdau PN em alta de 1,63%, e em utilities, com ganho de 1,71% para Eletrobras PNB,  se impunha ao dia negativo para os grandes bancos com Bradesco PN em baixa de 2,50%, Banco do Brasil ON, de 1,04%, e Itaú PN, de 2,12%, ajudaram a limitar as perdas do Ibovespa.

Destaque hoje para a recuperação em Banco Inter, com a Unit em alta de 12,06% e a PN, de 11,67%, após "a empresa contratar Bank of America, Bradesco BBI, JP Morgan e Itaú BBA para assessorá-la em reorganização societária", observa em nota a Terra Investimentos. A empresa está de saída da B3 rumo à Bolsa de Nova York. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ, MAIARA SANTIAGO E IANDER PORCELLA

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