Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Após bater em R$ 5,31 na máxima, dólar fecha em alta de 0,3%; Bolsa cai 1,25%

Moeda termina o dia cotada a R$ 5,25, após leilão do Banco Central ajudar a aliviar a sangria do real; mercado financeiro acompanhou com preocupação o cenário político brasileiro

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 12h20
Atualizado 08 de julho de 2021 | 18h22

O cenário pouco favorável no exterior e aqui, após atritos entre a CPI da Covid e as Forças Armadas, além de perda de capital político do presidente Jair Bolsonaro, fez o dólar bater em R$ 5,31 na máxima desta quinta-feira, 8. No final do pregão, após intervenção do Banco Central, a moeda fechou com alta pela oitava vez seguida, de 0,29%, cotada a R$ 5,2554 - maior valor desde 26 de maio. O clima de aversão aos riscos também afetou a Bolsa Brasileira (B3), hoje em queda de 1,25%, aos 125.427,77 pontos.

Pela manhã, uma combinação de zeragem de posições "vendidas", busca por proteção (hedge) e movimentos especulativos levou o dólar a romper a barreira de R$ 5,30, batendo em R$ 5,3133 - uma alta de 1,39% -, na máxima do dia. A sangria do real só foi estancada pela intervenção do Banco Central com uma oferta avaliada em US$ 500 milhões de 10 mil contratos de swap cambial (equivalente à venda de dólares no mercado futuro), completamente absorvida pelos investidores.

Com a descompressão no mercado de dólar futuro, a moeda americana perdeu força, virou para o terreno negativo e registrou sucessivas mínimas no início da tarde, descendo até R$ 5,2198. O movimento coincidiu com a queda do fôlego do dólar em relação a outras moedas emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano. O dólar para agosto subiu 0,48%, a R$ 5,2710.

"O BC interveio porque houve uma busca muito forte por proteção, com desconforto de que quem estava 'vendido', e um movimento muito grande de especuladores, que se aproveitaram do dia ruim lá fora e dessa questão da CPI da Covid", afirma Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora. "Esses US$ 500 milhões [de swap cambial] foram suficientes para eliminar distorções e mostrar que o BC está atento para qualquer tentativa de puxada mais forte do dólar".

Analistas destacam que o agravamento das tensões políticas veio justamente em um momento de correção mais forte dos mercados globais, provocada por preocupações com o ritmo de recuperação da econômica mundial em meio à disseminação da variante Delta do coronavírus. Ao tom pró-estímulos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ontem se somaram a postura mais complacente do Banco Central Europeu com a inflação (a meta passou de ligeiramente inferior a 2% ao ano) e o anúncio de estímulos de monetários na China.

"O mercado começa a ver que talvez haja um atraso na recuperação da economia global, com essa questão da variante Delta, e isso levou a um movimento de realização de lucros lá fora, já que as bolsas estavam bem esticadas", diz Galhardo, ressaltando que o real costuma sofrer mais que outras moedas emergentes, ainda mais em meio ao agravamento das tensões política. "Se não fosse a questão política, o dólar estaria mais baixo. A tendência mais estrutural ainda é de queda, com juros mais altos e muitas captações".

Ontem, o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz, determinou a prisão do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias (solto após pagamento de fiança) e afirmou que "fazia muitos anos que o Brasil não via membros das Forças Armadas envolvidos em falcatruas". O Ministério da Defesa reagiu com uma nota de repúdio, assinada pelo ministro Walter Braga e pelos os comandantes das três forças. Aziz respondeu dizendo que não aceita "intimidação".

Hoje, o presidente da CPI da Covid enviou hoje carta a Bolsonaro cobrando posição sobre acusações feitas pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) contra o governo a respeito da proposta de compra da vacina indiana Covaxin. Bolsonaro, em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, acusou Aziz de ter desviado R$ 260 milhões no Amazonas.

Por ora, não se trabalha com a perspectiva de que a crise deságue no impeachment de Bolsonaro. Mas a elevação da temperatura na CPI pode desgastar ainda mais o presidente, que está com a popularidade em baixa e aparece atrás de Lula nas pesquisas para a eleição de 2022. Pesquisa XP/Ipespe divulgada hoje mostrou o petista com 38% das intenções de volto, e o Bolsonaro, com 26%. Há temores também que Bolsonaro radicalize e adote uma postura populista para tentar se recuperar no pleito. Em nova defesa do voto impresso, o presidente hoje disse "ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições".

Bolsa

Diante do cenário, pelo terceiro dia, o Ibovespa voltou a registrar variação superior a 1% no fechamento, alternando perda e ganho nestas últimas sessões, nas quais chegou a buscar âncora na relativa melhora de dados econômicos locais, em um cenário político que tem se mostrado mais acidentado. Na semana, o índice acumulou perda de 1,72%, após leve ganho de 0,29% na anterior, que havia interrompido três perdas semanais em sequência. No mês, cede 1,08%, com ganhos no ano a 5,39%.

O dia também foi de perdas no exterior, com Ásia e Europa em forte queda, assim como em Nova York, onde nenhum índice fechou no azul. No entanto, boa parte da perda de hoje é também consequência do cenário local. Thomás Gibertoni, analista da Porto Fino Multi Family Office, destaca que a Bolsa têm reagido a cada fala e desdobramento relacionados à nova fase da reforma tributária, recebida pelo mercado como aumento de carga para as empresas.

Hoje, o ministro da Economia, Paulo Guedes, almoçou com um grande grupo de empresários em São Paulo para discutir o projeto. Ele busca o apoio de todos os setores da economia para convencer o Congresso a cortar até R$ 40 bilhões em subsídios a poucos conglomerados em troca de uma redução de até 10 pontos porcentuais no Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) para todas as empresas do País. A proposta original de reforma prevê uma queda de apenas 5 p.p. no tributo.

Ainda por aqui, principal dado do dia, o IPCA mostrou em junho avanço de 8,35% em 12 meses, o maior desde setembro de 2016. Ainda assim, houve desaceleração na leitura de junho (0,53%) ante a de maio (0,83%). "O número (de junho) reforçou as apostas de um aumento de 1 ponto porcentual na próxima reunião (do Copom), em agosto, ao passo que o mercado já precifica na curva de juros que a Selic chegará em 7% ainda este ano", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Entre as ações, destaque para os shoppings, com IguatemiBR MallsMultiplan subindo 1,74%, 0,50% e 0,13% cada. Na ponta negativa, CSN fechou em baixa de 4,42%, enquanto as empresas e setores de maior peso também terminaram no vermelho, como Petrobrás PN e ON, em baixa de 2% e 1,98% cada, apesar da alta do petróleo no exterior. Já Vale ON cedeu 0,39%. Entre os grandes bancos, as perdas chegaram a 1,42% para Bradesco ON. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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