Werther Santana/Estadão - 18/06/2021
Werther Santana/Estadão - 18/06/2021

Bolsa sobe 2% e zera perdas da semana, apoiada em indicadores mais amenos

Com inflação menor do que a esperada no Brasil e geração de vagas de emprego nos EUA também abaixo do previsto, Ibovespa conseguiu ter um pregão de recuperação; dólar ficou estável, com baixa de 0,02%

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 17h49
Atualizado 08 de outubro de 2021 | 18h25

Em meio à divulgação de indicadores mais amenos, com inflação menor do que a esperada no Brasil e geração de vagas de emprego nos Estados Unidos também abaixo do previsto, a Bolsa brasileira (B3) conseguiu se firmar em alta e recuperar as perdas da semana. Nesta sexta-feira, 8, o Ibovespa fechou com alta de 2,03%, aos 112.833,20 pontos - na semana, baixou as perdas para apenas 0,06%. No câmbio, o dólar ficou estável, em variação negativa de 0,02%, a R$ 5,5161.

No acumulado do mês, o Ibovespa conseguiu, nesta última sessão, virar do negativo para o positivo, com alta de 1,67%. No ano, o índice cai 5,20%. Na máxima do dia, subia 3,24% aos 114.171,97 pontos.

Por aqui, as atenções se voltaram para o resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro. Sob a pressão dos aumentos na energia elétricagasolina, passagem aérea e gás de botijão, a inflação oficial no País acelerou para 1,16% no mês passado, a taxa mais elevada para o mês desde 1994, ano de implantação do Plano Real. O resultado, porém, veio abaixo das espectativas do mercado.

Como consequência, a taxa acumulada pelo IPCA em 12 meses rompeu o patamar de dois dígitos, subindo a 10,25% em setembro, ante uma meta de 3,75% perseguida pelo Banco Central neste ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto (2,25% a 5,25%). O resultado em 12 meses é o maior desde fevereiro de 2016.

"A inflação está concentrada em gastos de subsistência, com pressão de três grupos importantes: habitação, devido ao encarecimento da energia elétrica residencial; transporte, com a alta dos combustíveis, relevante, pelo câmbio e pelo avanço dos preços internacionais do petróleo; e alimentação em domicílio, em desaceleração ante agosto, mas em alta de 1,19%", diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, destacando o efeito da inflação para a população mais pobre, com restrição orçamentária.

Se os dados sobre o custo de vida ainda permanecem sob escrutínio, o barateamento da Bolsa observado desde julho começa a ser visto com interesse maior pelos investidores, apesar das incertezas que prevalecem, no plano doméstico, sobre a situação fiscal e, no exterior, sobre o ritmo da inflação global, com efeito sobre a orientação das políticas monetárias nas maiores economias.

A aprovação ontem à noite pelo Senado americano de elevação temporária, até dezembro, no teto da dívida, deu ânimo aos mercados da Ásia, no dia em que as bolsas da China continental retomaram os negócios, após o feriado da Golden Week. Apoiados na notícia, os índices chineses de Xangai e Shenzhen subiram 0,67% e 0,79% cada.

O impasse que prevalecia na política americana se fez sentir no início da semana, conturbado também pela queda de rede do WhatsApp, Instagram e Facebook. "Na segunda-feira, o S&P 500 tinha caído bastante e começou a recuperar logo no dia seguinte, enquanto o Ibovespa perdeu 2,22% naquele mesmo dia e ficou de lado nos seguintes, até vir esta recuperação concentrada na sexta, com a busca por descontos. O que deixa algum otimismo para a semana que vem, com parte dela em liquidez reduzida pelo feriado no Brasil (terça)", diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vítreo.

"Surpreendeu a resiliência do Ibovespa hoje, mesmo com o S&P 500 embicando pra baixo. Há muito tempo isso não acontecia: o mais comum tem sido recuperação mais rápida em Nova York, sem que o Ibovespa consiga acompanhar aqui. Desde setembro, tem havido uma retomada de fluxo estrangeiro, mas nem isso vinha dando força ao índice, devido ao excesso de pessimismo, especialmente do investidor doméstico. Agora, muitos fatores negativos, principalmente da política, parecem já estar no preço, e o interesse por compras começa a voltar", acrescenta.

Em Nova York o clima foi negativo, com Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq caindo 0,02%, 0,19% e 0,51%, após o resultado decepcionante do payroll, relatório de geração de emprego dos Estados Unidos, para setembro. Os analistas previam a criação de 500 mil vagas em setembro. No entanto, foram apenas 194 mil. "Apesar do fim dos programas de seguro-desemprego pandêmico e do retorno à escola e ao trabalho para muitos em setembro, a recuperação do mercado de trabalho ainda está sendo prejudicada pela variante Delta", diz Edward Moya, analista da Oanda.

O resultado era extremamente aguardo pelo mercado, principalmente após o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) dizer que o payroll seria decisivo para o ínicio da redução do programa de compra de ativos, processo chamado de 'tapering'. Em relatório, porém, analistas do Goldman Sachs dizem esperar que não haja reflexo sobre o anúncio do Fed para a retirada de estímulos da economia, na reunião monetária de novembro, na previsão do banco. Também afetado pelo dado, o mercado europeu ficou sem sinal único: a Bolsa de Londres subiu 0,25%, mas Paris e Frankfurt recuaram 0,29% e 0,61% cada.

"Hoje, o Ibovespa se descolou do zero a zero lá fora. O reajuste anunciado pela Petrobras para a gasolina e o gás de cozinha, a partir deste sábado, ajudou as ações da empresa a contribuir para a alta do índice, em dia muito forte para mineração e siderurgia. Varejo, shoppings e construção civil também performaram muito bem", diz Romero Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos.

Petrobras ON e PN fecharam o dia, respectivamente, em alta de 2,02% e 1,82%, enquanto Vale ON avançou 0,62% e os ganhos no setor de siderurgia chegaram a 4,95% para Usiminas PNA, no encerramento da sessão. Na ponta do Ibovespa, Cielo subiu 14,29%, à frente de Ecorodovias, em alta de 8,82%, e de Magazine Luiza, de 6,70%. No lado oposto, Assai caiu 3,28%, Pão de Açúcar, 1,60% e Klabin, 0,58%. Entre os grandes bancos, os ganhos chegaram a 2,11% para Banco do Brasil ON.

Câmbio

Com mínima a R$ 5,4793 e máxima a R$ 5,5321, a moeda americana encerrou a sessão desta sexta-feira praticamente no zero a zero. O dólar fecha a semana em alta de 2,74% e acumula uma valorização de 1,28% em setembro. O dólar para novembro recuou hoje 0,14%, a R$ 5,5300.

Segundo operadores, depois de uma arrancada nos últimos dias, com o dólar voltando a ser negociado acima de R$ 5,50 pela primeira vez desde fins de abril, era esperada uma acomodação da taxa de câmbio. Contribuiu para o pouco apetite dos negócios o feriado prolongado de Nossa Senhora Aparecida, com provável liquidez reduzida na segunda-feira, 11, e paralisação dos negócios na terça-feira, 12.

A janela para essa acomodação foi aberta por surpresa positiva com o IPCA de setembro e o payroll abaixo do esperado nos EUA, que tirou um pouco do fôlego do dólar no exterior, ao dar sustentação à tese de que o Fed, embora possa iniciar o tapering em novembro, será bem cuidadoso na condução da política monetária.

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - teve leve recuo hoje, embora se sustente acima dos 94 pontos. Em relação às divisa emergentes, o real e o rand sul-africano foram os destaques, terminando praticamente estáveis, enquanto a lira turca e o peso chileno caíram mais de 1%. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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