Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Bolsa recua 1,67% com exterior negativo e cenário local incerto; dólar sobe 0,7%

Enquanto a pandemia volta a gerar cautela no exterior, por aqui, o investidor teme um aumento nos gastos públicos, especialmente após Bolsonaro falar em reajuste para servidores

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 17h20
Atualizado 09 de dezembro de 2021 | 19h26

Um dia após o tom mais duro adotado pelo Copom e na esteira do mau humor dos mercados no exterior, a Bolsa brasileira (B3) quebrou a sequência de cinco altas consecutivas, para fechar com queda de 1,67%, aos 106.291,24 pontos nesta quinta-feira, 9. No câmbio, a valorização do dólar no exterior também foi sentida por aqui, com a moeda fechando em alta de 0,70%, a R$ 5,5738.

No cenário doméstico, o investidor digeriu o tom mais duro do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou a taxa Selic em 1,5 ponto, para 9,25% ao ano, e observa, ainda de forma lateral, com maus olhos a indicação do presidente Jair Bolsonaro de quer usar parte do espaço liberado nos gastos pela PEC dos Precatórios para dar um reajuste 'de 1%' aos servidores públicos

"Era esperado aumento de 150 pontos-base por parte do BC, mas existia uma esperança de que o Copom fosse um pouco menos agressivo nos próximos passos. Isso não aconteceu, o que, na minha opinião, é positivo", afirma Mauro Morelli, estrategista-chefe da Davos Investimentos, completando: "O mercado reage de forma negativa no curto prazo, porque isso significa uma possibilidade maior de recessão e isso é ruim para a Bolsa. Mas, no médio prazo, ter um BC com mais credibilidade e com a certeza maior de que vai lutar contra a inflação, é algo que deve ser encarado de forma positiva".

O cenário de juro mais alto prejudica o setor de varejo, que tem desempenho muito atrelado ao crédito. Em resposta, os papéis das Lojas Americanas e Magazine Luiza figuraram entre as principais baixas do índice: o primeiro caiu 9,24% e o segundo, 7,78%.

Além disso, a Bolsa reflete a percepção de que, com um patamar de juro a dois dígitos por um tempo mais dilatado em 2022, haverá uma migração natural de ativos de risco para renda fixa. "O principal [driver] é o movimento do Copom, que coloca uma trajetória de juro que vai ser, ao menos aos olhos de parte dos analistas de mercado, mais alta. E juro mais alto indica bolsa mais baixa", indica o estrategista da Modalmais, Felipe Sichel.

Em relação à sinalização dada pelo presidente Bolsonaro ontem, de reajuste ao funcionalismo, Sichel explica que o mercado ainda monitora o fato de forma lateral, mas há uma preocupação com a tendência de aumento de gastos pré-eleitoral. "Bolsonaro tem adotado tom mais alinhado à base ideológica, isso se reverte, dado a posição que pesquisas apontam no momento, em medidas de aumento do gasto. Mas a gente precisa entender o que vai realmente se concretizar", completa.

Lá fora, os índices de Nova York, que vinham dando impulso ao Ibovespa nos últimos dias, ficaram sem sinal único, com Dow Jones fechando estável, mas S&P 500 e Nasdaq caindo 0,72% e 1,43% cada. As bolsas americanas operaram em compasso de cautela, à espera dos dados de inflação ao consumidor, amanhã, e ainda de olho no noticiário sobre a variante Ômicron.

Na Europa, a Bolsa de Londres caiu 0,22%, a de Frankfurt, 0,30% e a de Paris, 0,09. Ontem, o governo do Reino Unido anunciou novas restrições para tentar conter a variante, com recomendação de transição ao trabalho remoto e exigência de passaportes de vacina. Também de olho na pandemia, o petróleo quebrou uma sequência de três altas consecutivas. O WTI para janeiro cedeu 1,96% em Nova York, enquanto o Brent para fevereiro subiu 1,85% em Londres.

Assim, as ações da Petrobras recuaram, com a PN em baixa de 0,2%. A despeito do comportamento das commodities, a CSN subiu 1,49%, enquanto Vale caiu 0,77%.  Apesar da queda de hoje, o Ibovespa ainda acumula alta de 1,16% na semana e 4,29% no mês. 

No noticiário corporativo, o Nubank fechou o primeiro dia de negociação de suas ações com alta de 14,7%, com o valor de mercado indo a US$ 47 bilhões. A fintech fez sua estreia na Bolsa de Nova York hoje, um dia após concluir a abertura de capital e ser avaliada em US$ 41,5 bilhões. Atualmente, a empresa é a instituição financeira mais valiosa da América Latina, desbancando o Itaú.

Câmbio

Após duas sessões de baixa firme, o dólar à vista avançou no pregão desta quinta, flertando novamente com o patamar de 5,60, em meio a uma onda global de fortalecimento da moeda americana, diante da perspectiva de antecipação da alta dos juros americanos, a depender dos dados da inflação dos EUA que serão divulgados amanhã.

Não bastassem os ventos externos desfavoráveis, o real sofreu também com temores de que o governo pise ainda mais no acelerador dos gastos em 2022. Essa conjunção de fatores negativos, aliada à demanda de importadores por divisa estrangeira e ajustes técnicos de tesourarias, acabou se sobrepondo ao efeito que a alta da taxa Selic, e a perspectiva de um aperto monetário ainda mais pronunciado poderiam ter sobre a formação da taxa de câmbio.

Pela manhã, o dólar à vista até chegou a ensaiar um movimento de queda, rompendo a barreira de R$ 5,52 e descendo até a mínima a R$ 5,5187, queda de 0,29%. Na máxima, bateu em R$ 5,5992, alta de 1,16%. Apesar do avanço hoje, o dólar ainda acumula desvalorização de 1,87% nesta semana, depois de ter subido 1,50% na semana passada.

No exterior, o índice DXY - termômetro do desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - operou em alta firme da linha dos 96,200 pontos, sobretudo por conta dos ganhos da moeda americana frente ao euro. O dólar avançou em bloco na comparação com divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com o rand sul-africano, o real e o peso chileno sendo os mais prejudicados.

O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, atribui a fraqueza do real nesta quinta-feira, sobretudo, a uma onda global de aversão ao risco. Ele chama a atenção para as incertezas com a evolução da ômicron, dado o aumento de casos na Europa, e para a percepção de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai mudar sua postura. "Tudo isso gera essa pressão internacional sobre as moedas emergentes, com o dólar 'bull' (em tendência de alta) no mundo", diz. /BÁRBARA NASCIMENTO, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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