Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa cai 0,75% com mau humor no exterior e temor com Orçamento; dólar sobe

Preocupação com rumo da política monetária dos Estados Unidos e movimentação do governo para conseguir acomodar Refis e reajuste de servidores pesaram hoje

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2022 | 18h40

O mau humor vindo de Nova York, com os investidores de olho nas decisões de política monetária do banco central americano, se somaram aos impasses fiscais aqui no Brasil, com o governo tentando decidir questões importantes, como o Refis e o reajuste aos servidores federais. Em resposta, a Bolsa brasileira (B3) caiu 0,75%, aos 101.945,20 pontos nesta segunda-feira, 10, enquanto o dólar teve alta de 0,76%, a R$ 5,6743.

No exterior, os investidores ficaram no aguardo do discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, marcado para amanhã no Senado americano. É esperado que ele mantenha o tom mais duro adotado na semana anterior, quando a entidade se mostrou a favor de uma elevação antecipada dos juros nos Estados Unidos.

Em relatório a clientes, a Oanda aponta que o mercado segue atento a avaliação do Goldman Sachs de que o Fed pode elevar quatro vezes os juros neste ano. Para esta semana, também são aguardados novos dados sobre a inflação americana. Em resposta, o Dow Jones caiu 0,45% e o S&P 500, 0,14%. O Nasdaq virou no final e teve leve alta de 0,05%.

No cenário local, de volta a Brasília após o recesso de fim de ano, o ministro da Economia, Paulo Guedes, já aconselhou o presidente Jair Bolsonaro a vetar o reajuste aos policiais federais, decisão que deflagrou uma crise em órgãos como a Receita Federal, o Banco Central e o Ministério da Trabalho. Segundo o ministro, conceder o reajuste apenas aos policiais iria aumentar ainda mais a pressão dos servidores por reajuste. No fim de semana, o proprio Bolsonaro afirmou ser possível que nenhuma categoria tenha reajuste este ano.

Ainda sobre o Orçamento, após vetar o Refis (parcelamento de dívidas tributárias) a pequenas empresas, Bolsonaro se reuniu com Guedes para discutir saídas para o programa - entre elas, está a derrubada do veto pelo Congresso. Na semana passada, o próprio Ministério da Economia aconselhou o presidente a não aprovar o texto, que ia contra a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e que poderia acabar acarretando em crime de responsabilidade.


No cenário corporativo, o impacto da pandemia no setor áereo continua gerando preocupação, principalmente após Azul e Latam voltarem a cancelar voos por causa do aumento de casos de covid-19 entre pilotos e tripulação. Em resposta, as ações de Azul e Gol - que informa ainda não ter sido afetada pelo problema -, caíram 1,13% e 0,44% cada.

O dia também foi negativo para Vale, em queda de 1,19%, diante da forte chuva que assola Minas Gerais. Hoje, Vale, Usiminas, CSN e Vallourec interromperam as operações no Estado por questões de segurança. Em relatório, a S&P indica que as paralisações têm potencial de impactar nos mercados. Apesar disso, as ações de Usiminas e CSN subiram 4,77% e 3,32% cada.

Amanhã, a atenção do mercado se volta para a divulgação do IPCA de 2021. "É bem capaz de fechar o ano um pouco abaixo de 10%. Mas se vai fechar a 9,99% ou a 10,01% ou 10,02% não é o grande foco do mercado agora, já voltado para as expectativas para 2022, que estão bem no topo da meta", diz Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group.

Na ponta positiva do Ibovespa, destaque para Fleury, em alta de 3,74%, e Pão de Açúcar, de 2,11%. Entre as ações de maior peso, Petrobras ON e PN caíram 0,36% e 0,60%, enquanto  Bradesco subiu 1,31%, Itaú, 0,93% e Santander, 1,28%.  Em janeiro e no ano, o índice registra perda de 2,74%.

Câmbio

O dólar inicia a semana em alta no mercado doméstico de câmbio, em dia marcado por fortalecimento global da moeda americana e avanço dos rendimentos da renda fixa americana, diante da perspectiva de aumento dos juros pelo Fed.  Em janeiro, a moeda já acumula valorização de 1,76%.

O índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes - operou em alta ao longo do dia, superando, nas máximas, a linha dos 96 mil pontos. A moeda americana também avançou em bloco na comparação com divisas emergentes, à exceção da lira turca e do rublo, que haviam apanhado muito na semana passada e passam por uma recuperação técnica.

Na avaliação do líder de renda fixa e produtos de câmbio da Venice, André Rolha, embora existam motivos locais para justificar uma taxa de câmbio mais depreciada, a alta do dólar hoje está mais ligada ao ambiente externo. "Com essa expectativa de trajetória de alta de juros nos Estados Unidos e dados macroeconômicos robustos, a tendência é de valorização do dólar em todo o mundo", afirma Rolha.

"Um mundo assim [com valorização do dólar e alta dos juros nos EUA] é pior para os mercados emergentes, o que penaliza o Brasil. Os ativos estão sendo direcionados hoje pelo que está acontecendo lá fora, até porque por aqui não há grandes novidades", afirma Mauro Morelli, estrategista-chefe da Davos Investimentos. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTÔNIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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