Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Bolsa cai de olho em avanço da inflação de julho e reajuste da Selic; dólar cede 1%

Inflação tocou nos 9% no acumulado de 12 meses até julho, em dia no qual o Copom sinalizou novo aumento de 1 ponto percentual da taxa básica de juros da economia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 14h31
Atualizado 10 de agosto de 2021 | 18h29

A Bolsa brasileira (B3) cedeu 0,66%, aos 122.202,47 pontos nesta terça-feira, 10, após a conclusão de que o Banco Central ainda está muito atrás da inflação e correndo contra o tempo para fazer com que ela entre na meta dem 2022. A percepção veio após a divulgação do IPCA de julho e com a sinalização de novo aumento de 1 ponto porcentual para a Selic em setembro. No câmbio, o real foi favorecido pelo cenário de reajuste da taxa básica brasileira e o dólar caiu 0,96%, cotado a R$ 5,1967.

No mês, o Ibovespa avança 0,33%, acumulando ganho de 2,68% no ano e cedendo 0,49% na semana. Em Nova York, apenas o Nasdaq caiu, no dia em que o Senado americano aprovou o aguardado pacote trilionário para investimentos em infraestrutura de Joe Biden.

"O viés está otimista no mercado internacional. A ata do Copom, pela manhã, trouxe preocupações do Banco Central com o risco fiscal e com a persistência do cenário de inflação ao consumidor, frente a incertezas com relação à crise energética, um ponto bastante relevante. Vem mais alta para a Selic, com sinalização para taxa de juros acima do patamar neutro", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.

Hoje, com o IPCA pressionado a quase 9% em julho no acumulado em 12 meses, maior nível desde maio de 2016, diversas instituições financeiras, entre as quais Bank of America e Barclays, revisaram para cima as estimativas de inflação para este e em alguns casos para o próximo ano, apesar de o Copom ter sinalizado, na ata desta manhã, um novo aumento de 1 ponto porcentual na Selic em setembro. O IPCA a 0,96% em julho, maior nível para o mês desde 2002, pressionado em especial pelas tarifas de energia elétrica, veio no mesmo dia em que a ata.

Na macroeconomia, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, reconheceu hoje que os dirigentes da instituição estão se surpreendendo a cada ciclo de decisões do Copom com os condicionantes da inflação. Em evento promovido pelo Goldman Sachs nesta tarde, Serra disse que "muita coisa mudou" de um ano para cá, entre as quais o retorno do PIB a nível anterior ao da pandemia.

Serra observou que, na virada de 2020 para 2021, o BC e o próprio mercado financeiro imaginavam que o hiato do produto continuaria aberto "por muito tempo", o que "não se materializou". "Vimos o hiato de produto se fechando rapidamente e vimos que juro a 2% não fazia mais sentido", acrescentou o diretor de política monetária, em referência à Selic, que permaneceu neste patamar até março.

"A preocupação do Serra (BC) com a inflação também chamou atenção, favorecendo a realização, principalmente em bancos, que vieram de fortes ganhos ontem. Por outro lado, siderurgia subiu hoje muito por conta do pacote nos Estados Unidos, que dá suporte à demanda por aço", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

Com isso, o mercado brasileiro se descolou do bom humor do exterior, com os mercados da Ásia e da Europa fechando em alta, de olho no pacote de infraestrutura de Biden. Além disso, o cenário fiscal também limita o avanço do Ibovespa, que ainda mantém cautela sobre o novo modelo de programa social que será sugerido pelo governo, mais ambicioso, em substituição ao antigo Bolsa Família. Além disso, o investidor também observa a votação da reforma do Imposto de Renda, marcada para acontecer amanhã, na Câmara.

Entre as ações, o bom desempenho do petróleo, após as perdas do dia anterior, apoiaram os ganhos de Petrobras ON e PN, em alta de 0,03% e 0,32% cada. Apesar do recuo nos preços do minério, Vale, Gerdau e Usiminas, em altas de 0,96%, 2,52% e 2,70%, respectivamente. Entre as ações de grande peso, destaca-se o recuo do setor bancário, com Banco do Brasil em baixa de 2,54%, Santander, de 2,24% e Itaú, de 1,89%.

Câmbio

Após uma sequência de três pregões de alta, o dólar perdeu força e encerrou a sessão desta terça, abaixo do patamar de R$ 5,20. No acumulado do mês, o dólar recua 0,25%. Analistas destacam que a perspectiva de alta mais forte e prolongada da taxa Selic tende a dar certa sustentação ao real, ao aumentar o diferencial de juros e, por tabela, a atratividade da renda fixa local. Além disso, o fato de a PEC dos Precatórios não trazer "surpresas negativas" que ameacem formalmente o teto de gastos foi visto com positivo. No fim, parece ser menos pior o parcelamento das dívidas judiciais do que a assimilação completa do pagamento no Orçamento de 2022.

O mercado permanece, contudo, ainda muito receoso com o risco fiscal, o que impede uma rodada abrangente de apreciação da moeda brasileira e adiciona muita volatilidade à taxa de câmbio. A avaliação é de que existe hoje pouco espaço no Orçamento para abrigar a expansão de gastos sociais almejada pelo presidente Jair Bolsonaro, que tenta recuperar sua popularidade.

"O BC mostrou que está disposto a elevar o juro acima do patamar neutro e usou uma linguagem um pouco mais dura, o que explica esse comportamento do dólar", afirma o economista da Integral Group, Daniel Miraglia, que ainda vê um ambiente de muita volatilidade para o câmbio. "Caminhamos para um fim de ano desafiador, sem espaço para surpresa positiva no crescimento capaz de melhorar a relação dívida/PIB e com essa tendência do governo ao populismo."

Lá fora, o dia foi de alta moderada do índice DXY - que mede o comportamento da moeda americana ante seis pares fortes - e desempenho misto do dólar frente a divisas emergentes, com queda na comparação com a lira turca, certa estabilidade ante o peso mexicano e alta em relação ao rand sul-africano. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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