B3/ Divulgação
B3/ Divulgação

Dólar sobe 0,5% e Bolsa recua no final do pregão com incertezas domésticas

Votação da reforma do Imposto de Renda, que pode acontecer ainda hoje na Câmara, e mobilização política de Bolsonaro, já de olho na reeleição, prejudicaram o mercado

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 14h28
Atualizado 11 de agosto de 2021 | 18h22

As incertezas domésticas no campo fiscal e político impediram seguraram os ganhos do mercado brasileiro nesta quarta-feira, 11, dia em que os índices de Nova York voltaram a bater recorde, após a inflação dos Estados Unidos perder força em julho. No câmbio, o dólar fechou em alta de 0,47%, cotado a R$ 5,2212 - apesar de ter cedido perante moedas emergentes. Já a Bolsa brasileira (B3) que conseguiu se manter em alta durante boa parte do pregão, perdeu força no final e cedeu 0,12%, aos 122.056,34 pontos.

Nem mesmo a ampliação do diferencial entre juros internos e externos, por conta do ciclo atual de alta da taxa Selic, parece animar os investidores a se desfazer de posições defensivas - um reflexo claro da exigência de prêmio de risco mais elevado por conta das incertezas fiscais. 

Afora uma leve queda pela manhã, logo após a divulgação do CPI nos EUA, que desacelerou de 0,9% em junho para 0,5% em julho, o dólar trabalhou em alta firme por aqui ao longo do dia, enquanto lá fora aprofundava as perdas frente a moedas emergentes pares do real, como o peso mexicano e o rand sul-africano. Além da moeda brasileira, apenas a lira turca sofreu hoje. O dólar para setembro fechou em alta de 0,74%, a R$ 5,2435

"Embora não ache que uma pequena queda (na inflação) seja uma virada de jogo, no que diz respeito à política monetária poderia ter sido, se tivéssemos continuado a ver aceleração ou evidência de pressões mais preocupantes. Podemos respirar um pouco mais, embora com a certeza de que a redução gradual (dos estímulos monetários) está chegando e provavelmente será anunciada no mês que vem", observa em nota Craig Erlam, analista sênior da OANDA na Europa.

Ao desconforto com o desfecho da reforma do Imposto de Renda, que pode ser votada hoje na Câmara dos Deputados, somou-se a informação, do Tesouro Nacional, de que a PEC dos Precatórios embute a flexibilização da chamada "regra de ouro", que impede o governo de se endividar para pagar despesas correntes sem autorização do Congresso.

Também causaram desconforto declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre preços de combustíveis e energia elétrica, consideradas populistas. Derrotado na PEC do voto impresso ontem, o presidente disse hoje que resultado da eleição não será confiável e acusou de governadores de terem interesse na manutenção dos preços altos dos combustíveis para aumentar a arrecadação com ICMS.

A avaliação nas mesas de operação é a de que Bolsonaro deseja manter a temperatura política elevada, para garantir a mobilização do seu eleitorado, ao mesmo tempo em que tenta criar uma espécie de "Orçamento paralelo", para expandir os gastos e recuperar a popularidade, sem ferir formalmente as regras fiscais.

Para a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, é difícil imaginar um alívio duradouro na taxa de câmbio, com entrada mais forte de investidores estrangeiros, com tanta incerteza no campo doméstico. Consorte nota que até houve um "alívio pontual" com o fato de a PEC dos Precatórios não atrelar recursos arrecadados (via privatizações, por exemplo) a gastos sociais. Mas nada capaz de reverter a percepção de deterioração das contas públicas. "O cenário fiscal está estrangulado, mas o governo quer aumentar os gastos já de olho nas eleições. E isso só vai piorar", afirma.

Uma das evidências de que "a situação é muito ruim", segundo a economista, é o Banco Central elevar a taxa Selic em um 1 ponto porcentual, prometer uma outra elevação da mesma magnitude, e a "taxa de câmbio não sentir tanto, como era de se esperar".

Bolsa

Apesar de se manter em alta durante boa parte do pregão, o Ibovespa foi afetado cedeu no final do pregão, apesar da alta das ações de Petrobras ON e PN, de 1,56% e 1,38% cada. O setor bancário também subiu, com Itaú em alta de 1,11% e Bradesco, de 0,65%. Na semana, o Ibovespa cede 0,61%, mas ainda avança 0,21% no mês e 2,55% no ano. A expectativa pela votação da reforma do IR na Câmara suscitou cautela entre os investidores, em dia positivo no exterior.

"As vendas do varejo tiveram queda de quase 1,7% em junho no Brasil, enquanto, nos Estados Unidos, os dados de inflação ficaram um pouco abaixo da expectativa em julho. Na política, a derrota do presidente Bolsonaro no plenário da Câmara encerra a questão do voto impresso, abrindo espaço para outras pautas", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.

"Mais uma vez os bancos foram destaque de alta, com os investidores ainda repercutindo os bons resultados do trimestre passado e na expectativa pela sequência destes bons números, com o aumento de juros e a recuperação, ainda que embrionária, da economia - o que torna o preço atual atrativo em termos de múltiplos", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Entre as ações, Hering teve alta de 3,53%, Magazine Luiza, de 2,50% e Copel, de 1,98%. No lado oposto, Qualicorp fechou

em baixa de 15,57% após fraco desempenho da empresa no segundo trimestre, com pressão sobre a margem e índice de cancelamentos ainda alto. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque também para Yduqs, em alta de 4,89% e Raia Drogasil, de 3,98%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.