Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Dólar se firma em alta, a R$ 5,51, enquanto Bolsa se descola do exterior e cai 0,24%

Para evitar uma alta mais forte da moeda americana, o Banco Central voltou a realizar novos leilões, mas o dólar se valorizou no final da tarde; em Nova York, índices subiram

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 14h59
Atualizado 14 de outubro de 2021 | 18h39

Apesar do clima positivo visto no exterior, o dia foi negativo para o mercado local, em meio às incertezas econômicas e fiscais, e diante da mudança feita pelo Congresso no ICMS. Descolada do exterior, a Bolsa brasileira (B3) fechou em baixa de 0,24%, aos 113.185,48 pontos, nesta quinta-feira, 14, enquanto no câmbio, o dólar se firmou em alta na etapa final dos negócios, com valorização de 0,13%, cotado a R$ 5,5161.

Uma alta mais brusca da moeda, porém, foi contida pela nova oferta de US$ 1 bilhão em swaps cambiais (equivalente à venda de dólares no mercado futuro) pelo Banco Central. Porém, segundo operadores, embora haja agora um vendedor de peso no mercado, na figura do BC, as incertezas fiscais domésticas dão certa "rigidez" à taxa de câmbio. Pela manhã, a moeda tocou em R$ 5,4694 na mínima, subindo depois até R$ 5,5301 na máxima, perto do final do pregão. O dólar tem valorização de 0,35% na semana e de 1,28% no acumulado do mês.

"O efeito do leilão foi fazer o dólar despencar pela manhã. Mas a moeda teve uma reversão de tendência de novo ao longo do dia com as incertezas em relação à questão fiscal. Essa intervenção do Banco Central é paliativa, tem efeito no curto prazo. Precisamos de medidas concretas de ajuste fiscal para ver o dólar cair", afirma Zeller Bernardino especialista em câmbio da Valor Investimentos.

Rumores de que o governo pretende combinar a extensão do auxílio emergencial para além deste ano com a adoção do Auxílio Brasil (versão ampliada do Bolsa Família) reforçaram a percepção de uma guinada populista de Bolsonaro e do Congresso, já de olho nas eleições de 2022 - ainda mais após a mudança na legislação do ICMS sobre combustíveis. A proposta é que os Estados prevejam um valor fixo de ICMS, no lugar de alíquotas, para um período de um anos.

Hoje o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que o debate em torno da reforma do Imposto de Renda e da PEC dos precatórios é essencial para definição das fontes de financiamento do Auxílio Brasil. Lira não descartou a possibilidade de prorrogação do auxílio emergencial, mas ressaltou que tudo tem que transcorrer com respeito ao teto de gastos. 

A avaliação é que, diante de tantas dúvidas no campo político e fiscal, investidores permanecem na defensiva e evitam assumir posições maiores a favor do real. Esse quadro se agrava com a proximidade do fim do ano, época de maior pressão de saída de recursos com remessas de lucros e dividendos, que, desta vez, pode ser turbinada caso a reforma do Imposto de Renda avance no

Senado

Na avaliação do gerente da mesa de derivativos financeiros da Commcor, Cleber Alessie, o Banco Central mostra, com essas intervenções, que "está, de fato, mais vigilante em relação ao câmbio", em meio às pressões inflacionárias globais, turbinadas por aqui em virtude das questões fiscais. "A dúvida que fica agora é a razão que levou o BC a atuar. Se foi porque está incomodado com o nível da taxa de câmbio ou se foi para atender uma demanda de compra específica de algum player que poderia deixar o mercado disfuncional", diz.

Alessie chama a atenção para o fato de que, mesmo diante do quadro de elevações seguidas da taxa Selic, e da nova postura do Banco Central no mercado de câmbio, não se vislumbra perspectiva de queda do dólar. A moeda brasileira é punida tanto por questões externas quanto internas. Em um ambiente global ainda conturbado, investidores estrangeiros usam posições vendidas em real como hedge. Por aqui, não há apetite por apostas mais contundentes na moeda brasileira, por conta da percepção elevada de risco gerada pela ameaça de abandono, mesmo que informal, do teto de gastos.

No exterior, as atenções estiveram voltadas a indicadores da economia americana. A inflação ao produtor nos Estados Unidos subiu apenas 0,2% em setembro, abaixo das previsões de alta de 0,5%, e também houve resultado melhor que o esperado dos pedidos de auxílio-desemprego americano, que caíram 36 mil na semana, a 293 mil, ante previsão de que ficariam em 318 mil solicitações. Já o índice de preços ao produtor chinês chinês atingiu o patamar inédito de 10,7% em setembro, ampliando riscos de estagflação na segunda maior economia do mundo.

Entre os indicadores locais, o IBGE divulgou pela manhã que o volume de serviços subiu 0,5% em agosto ante julho, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços - resultado levemente acima da mediana de Projeções Broadcast, de 0,4%. A reabertura da economia deve manter o setor aquecido e pode suscitar repasses de custos, com impacto na inflação. 

Bolsa

O Ibovespa tentou, mas não conseguiu acompanhar o exterior hoje. Em Nova York, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq subiram 1,55%, 1,71% e 1,73% cada, apoiados nos dados positivos para a economia americana, mas também nos balanços positivos de grandes bancos dos EUA. Na Europa, as Bolsas de Londres, Frankfurt e Paris tiveram ganhos de 0,92%, 1,40% e 1,33%, respectivamente. Na Ásia, o índice chinês de Shenzhen subiu 0,20%.

O mercado tomou com uma boa pitada de sal a retórica do governo sobre privatização da Petrobras, o que em outras quadras talvez tivesse chegado a estimular o desempenho de suas ações - segundo afirmou ontem à noite o ministro Paulo Guedes, em Washington, melhor agora do que daqui a 30 anos quando as petrolíferas vierem a valer menos com a transição energética, sugeriu o titular da Economia. "Vou ver com a equipe econômica o que se pode fazer", afirmou hoje o presidente Jair Bolsonaro. Ao final, a ON da estatal mostrava perda de 0,17%, enquanto a PN subia apenas 0,17%.

Na máxima, o Ibovespa foi aos 113.881,35 pontos. Na semana, ainda avança 0,31%, com ganho de 1,99% no mês - no ano, cede 4,90%. Entre as ações, Banco Inter Unit subiu 5,17%, PetroRio, 4,45%, e Banco Pan, 4,41%. Na face oposta, Méliuz caiu 4,97% e Eztec, 2,83%. Entre os grandes bancos, Santander subiu 0,56%. Vale ON fechou estável, sem variação.

"A Bolsa permaneceu hoje em um cenário de incerteza, operando no positivo por duas vezes ao longo do dia, mas também chegando a ampliar perdas à tarde, neste cenário aqui do Brasil de inflação elevada e muito acima do teto da meta. A perspectiva de alta de juros é negativa para a Bolsa, e o dólar tem se recuperado desde o exterior, com dados mais favoráveis sobre a economia americana, como os pedidos semanais de auxílio-desemprego na leitura desta quintafeira, abaixo do esperado", diz Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, acrescentando que a volatilidade deve continuar pautando os negócios na B3, daqui ao fim do ano. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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