Samuel Corum/ Bloomberg
Samuel Corum/ Bloomberg

Dólar vai a R$ 5,69, maior valor desde 13 de abril, com investidor à espera do Fed; Bolsa cai

Nos Estados Unidos, o avanço da inflação reforçou a percepção de que o banco central americano vai anunciar nesta quarta a aceleração da retirada de estímulos à economia

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 14h47
Atualizado 14 de dezembro de 2021 | 19h16

O dia negativo no exterior, com os investidores à espera da reunião de amanhã do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) - que deverá marcar o início da retirada dos estímulos - derrubou os ativos nesta terça-feira, 14. No exterior, os principais índices recuaram e por aqui, a Bolsa brasileira (B3), que subiu forte pela manhã, cedeu 0,58%, aos 106.759,92 pontos. No câmbio, o real também se desvalorizou e o dólar avançou 0,35%, cotado a R$ 5,6937 - no maior valor desde 13 de abril.

Hoje, o resultado da inflação ao produtor (PPI) dos Estados Unidos alimentou as certezas de que o Fed deverá sinalizar, na reunião de quarta-feira, 15, um aperto nos estímulos (tapering) e adotar um tom mais agressivo. Divulgado hoje, o índice subiu 0,8% em novembro - acima das preoções de analistas -, mas acumula alta de 9,6% em doze meses. Na semana passada, a inflação ao consumidor (CPI, na sigla inglês), também subiu 0,8% no mês passado, mas já acumula, em 12 meses, a maior alta dos últimos 39 anos.

Além de sinalizar um aperto maior no programa de compra ativos, especialistas já consideram que o Fed deverá também considerar uma elevação antecipada dos juros, que estão atualmente no menor patamar da história dos EUA. Uma alta antecipada dos juros irá tornar a renda fixa americana mais atraente, diminuindo o interesse do investidor pelos mercados emergentes - por mais que eles também elevem os juros. Como consequência, o dólar fica mais valorizado.

"O mercado continua na expectativa de que o Fed vá acelerar o tapering amanhã e começar o aperto monetário nos Estados Unidos antes de junho do ano que vem. Isso acaba prejudicando as moedas emergentes", afirma a economista e estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli, acrescentando que o rebaixamento da perspectiva da nota do Brasil pela Fitch, por conta  da deterioração das perspectivas para as contas públicas com a mudança na regra do teto de gastos na PEC dos Precatórios, contribuiu para a alta do dólar por aqui à tarde.

Com oscilação de cerca de oito centavos entre a mínima, de R$ 5,6190, e a máxima a, R$ 5,6981, o dólar à vista emendou hoje o quarto pregão seguido de valorização. No exterior, o índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes - operou em alta firme ao longo da tarde, na casa dos 96,500 pontos, perto das máximas.

Operadores ressaltam que o real até se comportou bem ao registrar perdas inferiores a de seus pares emergentes, como o rand sul-africano e o peso mexicano. Boa parte da resistência do real hoje é atribuída a movimento de ajustes técnicos, com realização de lucros, e a atuação do Banco Central, que colocou hoje US$ 500 milhões em leilão. "Essa atuação do BC ajudou a amenizar um pouco a pressão de alta do dólar", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.

Galhardo vê o dólar oscilando em uma banda informal entre R$ 5,50 e R$ 5,70, de acordo com o apetite por risco no exterior, a demanda por remessas e a percepção de risco fiscal doméstico. As intervenções do BC podem não trazer um alívio permanente para a taxa de câmbio, mas podem ter evitado que o dólar rompesse os R$ 5,70, diz Galhardo.

Divulgada pela manhã, a ata do Copom reiterou o tom duro do comunicado do comitê na semana passada, quando a Selic foi elevada em 1,50 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. Para o ano que vem, a expectativa é de novo reajuste de 1,5 ponto.

No cenário político, a expectativa é pela votação ainda hoje da parte da PEC dos Precatórios. Um dos temas em questão é a vigência do limite para pagamento das sentenças judiciais. O Senado limitou o pagamento de precatórios até 2026, e não mais até 2036, como havia sido inicialmente aprovado pelos deputados.

O Estadão/Broadcast apurou com fontes que líderes da Câmara fecharam uma negociação para retirar a data, em uma estratégia para enviar o texto direto para promulgação, garantindo um espaço fiscal de mais R$ 43,8 bilhões no Orçamento de 2022, além dos R$ 62,2 bilhões já garantidos com a mudança no cálculo do teto de gastos.

Bolsas

Lá fora, os mercados recuaram à espera do Fed. Em Nova York, o Dow Jones caiu 0,30%, o S&P 500, 0,74% e o Nasdaq, 1,14%. Na Europa, as Bolsas tiveram um novo dia de queda: Frankfurt perdeu 1,08%, Londres, 0,18% e Paris, 0,69%. Situação similar foi vista na Ásia, com a Bolsa de Xangai em queda de 0,53%, Shenzhen, de 0,14% e Hong Kong, de 1,33%

Já o Ibovespa, que subiu aos 109 mil pontos pela manhã, alta de mais de 1,6%, foi contaminado pelo mau humor do exterior e não conseguiu nem mesmo manter o patamar dos 107 mil pontos.  Apesar da queda de hoje, o índice mantém alta no mês, de 4,75%. Na semana, contudo, acumula um recuo de 0,93%.

Aqui, a indicação do Banco Central e do presidente da instituição, Roberto Campos Neto, de que pretende manter os juros em patamar elevado até que os preços e as expectativas de inflação estejam ancorados teve reações diferentes dentro do mercado. Se por um lado os bancos sustentaram alta, com as ações ON e PN do Bradesco subindo mais de 1%, setores dependentes de crédito, como varejo e imobiliário, sofreram. 

"Se você tem BC firme, juros mais altos, para o mercado imobiliário isso é complicado. É um setor que precisa muito de crédito para novos financiamentos", diz Josias de Matos, especialista em finanças na Toro Investimentos. Os papéis de MRV e Eztec cederam 2,98% e 2,71% cada. Entre as varejistas. Lojas Americanas caiu cerca de 2% e Magazine Luiza, 5,12%.

Entre os contratos de petróleo, o WTI para janeiro teve queda de 0,79%, enquanto o Brent para fevereiro recuou 0,93%. Em resposta, as ações ON e PN de Petrobras caíram 1,34% e 0,92% cada. Hoje, a petroleira anunciou uma redução de 3% no preço da gasolina, na esteira da fala do presidente Jair Bolsonaro de que a estatal iria baixar os preços - a declaração está sendo investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão responsável por regular o mercado de capitais no Brasil. /ANTONIO PEREZ, BÁRBARA NASCIMENTO E MAIARA SANTIAGO

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