B3/ Divulgação
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Bolsa recua 0,7% e dólar sobe a R$ 5,11 de olho em avanço da inflação dos EUA

Mercado foi impactado pela fala do presidente do banco central americano, Jerome Powell, que apontou para uma inflação 'bem acima' da meta nos Estados Unidos

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 15h51
Atualizado 15 de julho de 2021 | 18h23

Assim como os principais índices do exterior, a Bolsa brasileira (B3) também acompanhou nesta quinta-feira, 15, a fala do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que apontou para uma inflação acima da meta nos Estados Unidos. Em resposta, o Ibovespa fechou com queda de 0,73%, aos 127.467,88 pontos, enquanto o dólar subiu 0,60%, cotado a R$ 5,1147.

As perdas em Nova York chegaram a 0,70% pata o Nasdaq, com o Dow Jones conseguindo sustentar leve ganho de 0,15% no final da sessão, em que os investidores buscaram assimilar comentários do presidente do Fed, Jerome Powell, no Senado, e do presidente da distrital de Chicago, Charles Evans, em evento. A admissão de que a inflação está "bem acima" da meta, por Powell, e de que tem se acelerado de forma surpreendente, por Evans, recoloca na boca de cena o momento da retirada de estímulos monetários pelo Fed.

"Powell reiterou a visão de que a inflação é pontual e temporária, mas a reação do mercado decorre do temor de que o Fed fique atrás da curva, o que favoreceu uma realização hoje, com o avanço do VIX (índice de volatilidade em Nova York) refletindo a aversão a risco e a busca por proteção", diz Antonio Pedrolin, líder da mesa de renda variável da Blue3. Ele chama atenção também para um fator setorial, que contribuiu para a replicação do movimento na B3, atingindo dois segmentos importantes, o de bancos e o de petroquímica: a sanção de lei que eleva a CSLL para instituições financeiras e corta subsídios ao setor petroquímico.

Nas apresentações de hoje, tanto Powell como Evans mantiveram a percepção de que o aumento de ritmo na inflação é transitório, e de que a variação vista nos preços tende a perder fôlego. Assim, Evans defendeu, em evento, que a menos que a trajetória dos preços requeira, o Fed não deve "elevar os juros de modo desnecessário", em quadro ainda de recuperação da economia e do mercado de trabalho.

Powell, por sua vez, reiterou que por enquanto ainda é "apropriado" manter a política monetária acomodatícia. Por outro lado, o presidente do Fed disse também que a instituição já discute o melhor momento para começar a diminuição do programa de compra de títulos públicos - o "tapering".

"Os indícios de mudança de direção na política monetária do Fed, com redução de estímulos, se acrescentam aos aspectos domésticos, que vinham pressionando o câmbio", diz Rafael Ramos, especialista em câmbio da Valor Investimentos, destacando a retomada de protagonismo do fator externo sobre o interno, que vinha prevalecendo com o avanço dos trabalhos da CPI da Covid, em Brasília.

Em outro desdobramento vindo do exterior, a elevação pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) da previsão de elevação da oferta por países que não integram o cartel resultou em novo dia negativo para os preços da commodity, com Petrobrás PN em baixa de 2,13% e a ON, de 2,36%, no encerramento da sessão na B3.

O dia também foi amplamente negativo para as ações de bancos, com destaque para Bradesco PN, com queda de 1,50%, Banco do Brasil ON, de 1,53% e Unit do Santander, de 1,60%. Na ponta negativa do Ibovespa, CVC cedeu 3,54%, Pão de Açúcar, 2,97%, e Sul América, 2,63%. Na face oposta CSN subiu 1,98% e BTG, 1,80%. Na semana, o índice sobe 1,63%, com ganhos nesta primeira quinzena do mês a 0,53% e, no ano, a 7,10%.

Magazine Luiza teve ganho de 3,45%. "O mercado está de olho em 'follow on' da Magazine Luiza, com expectativa de uso dos recursos principalmente em fusões e aquisições, após ter saído o anúncio, pela manhã, de compra da KaBuM! por R$ 1 bilhão", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.

Câmbio

O dólar à vista acompanhou o fortalecimento global da moeda americana, em dia marcado por aversão ao risco no exterior. Analistas e operadores não cravaram um gatilho específico para o mau humor lá fora, mas citaram três fatores que podem ter azedado os mercados: preocupações com o avanço da variante Delta, suposta perda de fôlego da economia chinesa e, sobretudo, desconfiança em relação ao cenário de inflação nos EUA após comentário de presidente do Fed.

Por aqui, investidores monitoram o quadro do presidente Jair Bolsonaro, que segue internado em São Paulo para tratar uma obstrução institucional, e a votação do texto base da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2022 no Congresso. A preocupação com a questão fiscal voltou a ser comentada nas mesas de operações, em meio a dúvidas com os impactos da reforma tributária e uma possível guinada populista de Bolsonaro, que aproveitaria a folga fiscal momentânea para expandir gastos.

Na semana, a moeda americana ainda acumula queda de 2,38%. O dólar para agosto subiu 0,83%, a R$ 5,1230. Lá fora, o DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a seis divisas fortes - operou em alta durante todo o dia, acima dos 92,500 pontos. O dólar também subiu em relação a divisas emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano.

"A variante delta pode atingir algumas economias, sobretudo na Ásia. Fica alguma dúvida sobre o crescimento global", o economista da Ampla Assessoria de Câmbio, Alessandro Faganello, citando o crescimento anual de 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) da China no segundo trimestre, resultado que vem em linha com as expectativas do mercado, mas que mostra uma desaleração da retomada da segunda maior economia do mundo.

O economista-chefe do Instituto Internacional de Finanças (IFF), Robin Brooks, acredita que não haja fundamentos para o valor atual do dólar, cujo valor justo seria de R 4,50. Em comentário no Twitter, Brooks afirmou que "a alta do dólar de menos de R$ 5 para R$ 5,26 foi justificada em termos de prêmio pelo risco político, mas que esse prêmio já é enorme". /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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