Samuel Corum/ Bloomberg
Federal Reserve, o banco central americano; mercados globais observam atentamente às decisões de política monetária do Fed Samuel Corum/ Bloomberg

Dólar avança a R$ 5,70 e Bolsas sobem após Fed sinalizar um aperto maior nos estímulos

Banco central americano anunciou na tarde desta quarta que vai aumentar o ritmo de aperto no programa de compra de ativos e subir os juros já em 2022, em resposta ao avanço da inflação nos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 14h27
Atualizado 15 de dezembro de 2021 | 19h36

Em decisão já esperada pelo mercado, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciou nesta quarta-feira, 15, um aperto maior na redução do programa de compra de ativos e antecipou a elevação dos juros no ano que vem. Em resposta, o dólar terminou o dia em alta de 0,25%, cotado a R$ 5,7080. Já o mercado de Nova York virou para o positivo, apoiando a Bolsa brasileira (B3), que avançou 0,63%, aos 107.431,18 pontos.

Na reunião, os dirigentes optaram por reduzir de US$ 20 bilhões para US$ 30 bilhões ao mês o programa de compra de ativos, movimento que já era esperado pelo mercado financeiro. A decisão do Fed em apertar os estímulos é uma resposta ao avanço da inflação nos Estados Unidos, conforme mostraram os índices recentes de preços ao consumidor e produtor de novembro.

Sobre os juros, o Fed prevê três alterações da taxa em 2022, com a maior parte dos dirigentes projetando algo entre 0,75% e 1%. Na reunião de hoje, o BC americano manteve os juros entre 0% e 0,25%, menor patamar da história dos EUA. Em relação ao momento em que se dará o início do processo de alta das taxas, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que não espera ter de subir os juros antes do fim do tapering, em março. Mas deixou claro que é necessário elevar as taxas antes de atingir o pleno emprego e que os reajustes podem mudar se o Produto Interno Bruto (PIB) se enfraquecer.

Com os sinais trocados, o investidor oscilou entre o positivo e o negativo, ora sob o receio dos efeitos que o tapering e a alta dos juros podem ter sobre os investimentos em países emergentes, ora respondendo ao ânimo nas Bolsas americanas. Ainda que o tom seja mais otimista sobre a recuperação da economia dos EUA, a sinalização de Powell de que o Fed pode pôr o pé no freio no aperto monetário se a atividade esfriar muito agradou o mercado.

Em Nova York, após a reunião, o Dow Jones fechou em forte alta de 1,08%, o S&P 500, de 1,63% e o Nasdaq, de 2,15% às 16h20. Por aqui, o Ibovespa também foi favorecido e passou a subir, após cair mais de 1%, aos 105 mil pontos pela manhã. Com a alta de hoje, o índice quase zera a alta na semana e recua 0,30%. No ano, avança 5,41%.

"Os Estados Unidos estão nessa posição de ter uma economia crescendo e possibilitando você subir juros, ao contrário de outras regiões fortes, como a Europa", explica Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB Investimentos.

Contudo, os investidores sabem que, ao reduzir os estímulos nos EUA, o banco central americano enxuga liquidez no mundo. E, ao subir os juros, pode causar uma fuga de capital de locais com maior risco, em países emergentes, para investimentos mais seguros no país americano - o que explica também a valorização do dólar nesta quarta.

"O recado do Fed é: vou diminuir minha liquidez e o mundo inteiro vai ter de ajustar isso em 2022. E ao mesmo tempo vou subir juros", aponta Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, completando: "O Fed criou (com o programa de estímulo) um fluxo de liquidez que foi para a Bolsa americana e emergentes. Quando tem a diminuição desse programa, então não teremos mais US$ 1,5 trilhão no ano que vem de liquidez no mercado. Vou ter dólar mais forte e menos dinheiro rodando na economia, menos dinheiro de risco".

Para o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, o Fed mostrou calma, o que é importante. "Implicitamente, o Fed sinalizou que vai dar suporte e liquidez ao mercado se for preciso, enquanto espera que a inflação desacelere. Isso animou as Bolsas e tirou um pouco de força do dólar no exterior", disse, ressaltando que a estratégia do BC americano é mais arriscada, já que a inflação pode não dar trégua tão cedo. "O Fed pode ter que mudar a comunicação no primeiro trimestre, gerando um impacto negativo nos mercados"

Entre as ações, destaque para os papéis dos frigoríficos, beneficiados hoje pela retomada das importações de carne bovina desossada com menos de 30 meses do Brasil. Minerva teve alta de 11,19%, JBS de 2,44%, e BRF, de 1,09%. Já as commodities foram afetadas pelo temor ante a pandemia e Petrobras ON caiu 0,32%, enquanto Vale cedeu 0,57%.

Câmbio

O mercado doméstico de câmbio recebeu com uma boa dose de tranquilidade a já esperada decisão do Fed, acompanhada das projeções de integrantes do BC americano de três altas da taxa básica de juros em 2022. O tom mais duro da instituição foi temperado com a ponderação de que a execução desse plano de voo depende dos desdobramentos da pandemia, que pode assumir nova dinâmica com o espalhamento da variante Ômicron.

O dólar até ensaiou uma alta mais forte assim que o Fed divulgou seu comunicado, correndo até a máxima de R$ 5,7357, em sintonia com a aceleração da moeda americana no exterior. Logo em seguida, o movimento altista perdeu fôlego e o dólar voltou a ser negociado abaixo da linha de R$ 5,72. O dólar futuro para janeiro trocou de sinal após o fechamento do mercado à vista e encerrou cotado a R$ 5,7010, queda de 0,03%.

Depois de um repique pontual na esteira da decisão do Fed, o índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana frente a seis moedas fortes - passou a operar em queda, em meio a declarações de Powell, em entrevista coletiva. As moedas emergentes ganharam fôlego, com o peso mexicano e o rand-sul-africano passando a exibir ganhos.

O real poderia ter apanhado ainda mais nesta quarta-feira não fosse a atuação do Banco Central, que abriu espaço até para uma queda pontual da moeda americana pela manhã. O BC vendeu hoje US$ 950 milhões em leilão à vista e promoveu a rolagem de US$ 750 milhões em contratos de swaps cambiais (equivalentes a venda de dólares no futuro) que vencem em fevereiro. /BÁRBARA NASCIMENTO, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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Fed acelera retirada de estímulos nos EUA e prevê três aumentos da taxa de juros em 2022

Federal Reserve, o banco central americano, decidiu elevar de US$ 15 bilhões para US$ 30 bilhões a redução mensal no programa de compras de títulos em reunião de política monetária nesta quarta-feira

Camila Vech, Matheus Andrade, Gabriel Caldeira, Francine De Lorenzo e Ilana Cardial, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 16h58
Atualizado 15 de dezembro de 2021 | 20h10

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciou nesta quarta-feira, 15, que vai acelerar o ritmo de retirada dos estímulos à economia dos Estados Unidos em meio ao aumento da inflação no país, e agora espera aumentar as taxas de juros três vezes no ano que vem. 

Em uma mudança abrupta de política monetária, o banco central americano anunciou que reduzirá suas compras mensais de títulos em US$ 30 bilhões ao mês, duas vezes mais rápido que o anunciado anteriormente no início de novembro. Assim, o programa de estímulo, adotado como resposta à pandemia no ano passado, pode se encerrar totalmente em março. 

Do total de US$ 30 bilhões que serão reduzidos, US$ 20 bilhões se referem aos títulos de do tesouro americano e US$ 10 bilhões, a títulos lastreados em hipotecas (títulos imobiliários).

As compras de títulos tinham o objetivo de manter baixas as taxas de juros de longo prazo para ajudar a economia, mas não são mais necessárias. Nos últimos meses, a taxa de desemprego vem caindo e a inflação nos EUA atingiu o maior nível em quase 40 anos. Segundo comunicado, os dirigentes do Fed avaliam que as reduções "provavelmente serão apropriadas a cada mês", mas dizem estar preparados para ajustar o ritmo se as perspectivas econômicas mudarem.

O presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que havia uma visão na autoridade monetária de que o avanço na inflação nos Estados Unidos seria temporário, mas que as pressões sobre os preços foram se mostrando mais persistentes. "Havia evidências de que seria transitória", disse ele, em coletiva de imprensa após a decisão de política monetária. Para ele, a decisão de é uma amostra de que o Fed pode "adaptar" as suas políticas se a perspectiva econômica exigir. 

Ele ainda afirmou que é apropriado reduzir gradualmente as compras de títulos do que encerrá-las abruptamente, sob risco de criar choques no mercado. 

O cronograma acelerado coloca o Fed no caminho para aumentar as taxas de juros no primeiro semestre do ano que vem. A nova previsão do Fed de que aumentará sua taxa básica de juros três vezes no ano que vem contrasta com as previsões anteriores. Em setembro, por exemplo, a autoridade monetária previa apenas um aumento na taxa de juros em 2022.  

A taxa básica do Fed, agora próxima de zero, influencia muitos empréstimos ao consumidor e empresas, cujas taxas também tendem a subir. 

A maioria dos dirigentes do Fed espera que a taxa de juros em 2022 fique entre 0,75% e 1,0% em 2022. Para 2023, cinco dirigentes do Fed veem juros entre 1,25% e 1,5%, enquanto outros cinco esperam taxa entre 1,75% e 2,0%, segundo o comunicado. Outros  três integrantes do comitê que esperam um juros maiores que 2,0%. 

A decisão foi tomada dentro da "luz da evolução da inflação e da melhoria adicional no mercado de trabalho" nos Estados Unidos, segundo o documento. Para o Fed, as compras de ativos em e as participações em "títulos continuarão a promover uma funcionamento do mercado e condições financeiras acomodatícias (que estimulem a economia), apoiando assim o fluxo de crédito para famílias e empresas."

Em entrevista coletiva, Powell afirmou que a entidade pode elevar a taxa básica de juros nos EUA antes mesmo da meta de pleno emprego ser alcançada. Segundo ele, uma participação forte da população na força de trabalho americana pode demorar mais que o normal para ser retomada. "Mesmo com a participação da força de trabalho abaixo da meta de pleno emprego, precisamos agir pois inflação está bem acima de 2% ao ano", ressaltou o dirigente. Caso a entidade queira subir os juros antes do previsto, o Fed teria que acelerar o fim do programa de estímulos mais uma vez, de acordo com Powell. Ele, porém, não espera que isso ocorra. 

Pressões inflacionárias

A mudança de política monetária ocorre duas semanas depois de o presidente do Fed, Jerome Powell, reconhecer o aumento das pressões inflacionárias em depoimento ao Congresso americano. Ele afirmou que o Fed precisava começar a restringir o crédito para consumidores e empresas mais rapidamente do que ele projetava apenas algumas semanas antes. 

Na decisão de hoje, o Fed elevou sua expectativa para a inflação dos EUA em 2021, de 4,2% em setembro para 5,3% neste mês. Para 2022, a previsão da inflação passou de 2,2% para 2,6%.

Nos últimos meses, o Fed vinha caracterizando o pico da inflação como um problema "transitório" que desapareceria à medida que os gargalos de oferta causados ​​pela pandemia fossem resolvidos. 

Mas a alta nos preços persistiu por mais tempo do que o esperado e se espalhou para produtos como alimentos, energia e automóveis, aluguéis, refeições em restaurantes e acomodação. 

A inflação pesou muito sobre os consumidores, especialmente as famílias de baixa renda e, em particular, para as necessidades diárias, e anulou os aumentos salariais que muitos trabalhadores receberam. 

Em resposta, o Fed está deixando de focar na redução do desemprego, que caiu rapidamente para ​​4,2%, para focar no controle dos preços mais altos. Os preços ao consumidor subiram 6,8% em novembro em comparação com o ano anterior, segundo dados do governo divulgados na semana passada, o ritmo mais rápido em quase quatro décadas. 

Segundo o comunicado de hoje, o Fed reforça que "está empenhado em usar toda a sua gama de ferramentas para apoiar a economia dos EUA neste momento desafiador, promovendo assim o seu emprego máximo e metas de estabilidade de preços". 

Riscos

A nova mudança de política do Fed traz riscos. Aumentar os custos dos empréstimos muito rapidamente pode sufocar os gastos dos consumidores e das empresas. Isso, por sua vez, enfraqueceria a economia e tende a aumentar o desemprego. No entanto, se o Fed esperar muito para aumentar as taxas, a inflação pode ficar fora de controle. Pode então ter que agir de forma mais agressiva para restringir o crédito e potencialmente desencadear outra recessão.

Autoridades do Fed disseram esperar que a inflação esfrie no segundo semestre do ano que vem. Os preços do gás já atingiram seus picos. Os gargalos da cadeia de suprimentos em algumas áreas estão diminuindo gradualmente. E o auxílio emergencial do governo americano, que ajudou a impulsionar um aumento nos gastos, provavelmente não retornarão. 

Mesmo assim, muitos economistas esperam que os preços altos persistam. Essa probabilidade foi reforçada esta semana pelo indicador de inflação no atacado, que subiu 9,6% nos 12 meses encerrados em novembro, o ritmo mais rápido desde o início da série histórica, em 2010. 

Custos de habitação, incluindo aluguel de apartamentos e o custo da casa própria, que representam cerca de um terço do índice de preços ao consumidor, têm subido a um ritmo anual de 5% nos últimos meses, calcularam economistas do Goldman Sachs. 

Os preços dos restaurantes aumentaram 5,8% em novembro em relação ao ano anterior, uma alta de quase quatro décadas, refletindo em parte os custos salariais mais elevados. Esses aumentos provavelmente manterão a inflação bem acima da meta anual de 2% do Fed no próximo ano. /COM ASSOCIATED PRESS

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