Werther Santana/Estadão - 18/06/2021
B3, a Bolsa de Valores de São Paulo Werther Santana/Estadão - 18/06/2021

Dólar sobe a R$ 5,37, maior patamar desde maio, com risco fiscal e fim de estímulos nos EUA no radar

Preocupação com o cumprimento do teto de gastos fez o dólar subir 2% e a Bolsa cair 1% nesta quarta; ata do BC dos EUA sinalizou diminuição do programa de compra dos títulos públicos, o que também influenciou o mercado

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 16h34
Atualizado 18 de agosto de 2021 | 19h07

O mercado local foi afetado pela forte aversão aos riscos, em dia no qual o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) voltou a sinalizar um aperto nas medidas de estímulos, enquanto por aqui, o risco de rompimento do teto de gastos continua preocupando o investidor. Em resposta, nesta quarta-feira, 18, a Bolsa brasileira (B3) virou o sinal e fechou com queda de 1,07%, aos 116.642,62 pontos, enquanto dólar disparou 1,99%, cotado a R$ 5,3749 - no maior patamar desde 4 de maio.

Operadores não identificaram um gatilho específico para a arrancada da moeda americana nesta quarta, que já acumula alta de 3,17% em agosto. Mas citaram o mal-estar com o adiamento da reforma do Imposto de Renda ontem à noite. Teme-se que o texto da reforma, que já desagradava no início, seja modificado ainda mais para satisfazer demandas de Estados e municípios, resultando, no fim, em perda de arrecadação.

O desconforto com as contas públicas fez a moeda americana operar em alta firme já pela manhã, alcançando a casa de R$ 5,35. O movimento era acentuado pelo tombo das commodities no mercado internacional, diante da probabilidade de a China cortar drasticamente a produção de aço. Operadores notaram também sinais de movimentos especulativos de investidores à espera de uma intervenção do Banco Central, que acabou não acontecendo.

Houve certo alívio no meio da tarde, com o dólar passando a ser negociado no nível de R$ 5,33, na esteira da perda de força momentânea da moeda americana no exterior. Mas o caldo voltou a entornar na reta final do pregão, após a divulgação da ata do Fed, que voltou a sinalizar para um aperto nas medidas de estímulos adotadas na pandemia.

Embora tenha repetido a avaliação de que a alta da inflação têm efeitos transitórios, o Fed confirmou que o debate sobre o início da redução de compra mensal de títulos públicos, o chamado 'tapering', ainda neste ano. Foi o que bastou para uma rodada mais acentuada de deterioração dos ativos domésticos. 

Para a BMO Capital Markets, a ata de julho mostra que o debate sobre a eventual data do início da retirada gradual dos estímulos monetários é contínuo, mas ainda é "muito provável" que o anúncio seja feito em um dos próximos três encontros entre os dirigentes.

"Alta nos juros nos Estados Unidos pode tirar fluxo de capital de países emergentes rumo aos títulos públicos americanos, o que contribuiria para enfraquecimento das moedas desses países e agravaria o aumento da inflação nestas economias menos desenvolvidas", observa Paloma Brum, analista da Toro Investimentos

"O governo já não consegue ancorar mais as expectativas. O presidente perdeu muito do seu capital político e existe o risco de que ele jogue o fiscal pela janela para tentar se reeleger", afirma o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto

Em audiência no Congresso Nacional, o secretário do Orçamento Federal, Ariosto Culau, disse que, sem o parcelamento dos precatórios, todos os programas do governo em 2022 estarão comprometidos. Culau argumentou que a PEC dos Precatórios é uma forma de manter o teto de gastos sem sacrificar programas meritórios. "Não estamos propondo que o teto seja rompido, parcelar precatórios torna a regra efetiva", afirmou.

 


O head de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que o real, que havia se alinhado às demais moedas emergentes anteriormente, passou a apresentar um desempenho muito pior do que seus pares, como o rand sul-africano, o peso mexicano e o rublo, o que mostra o peso de problemas locais na formação da taxa de câmbio. "Isso [a depreciação do real] está muito ligada ao que está acontecendo na área política e econômica. A fala do Roberto Campos [presidente do BC] deu uma amenizada ontem, mas o quadro piorou novamente", afirma Weig, ressaltando as dúvidas relacionadas ao Bolsa Família, à PEC dos Precatórios e à reforma tributária.

Weigt lembra que o Brasil já esteve à beira do abismo em certas ocasiões e que sempre houve um recuo por parte da classe política na direção de preservar uma racionalidade mínima na condução das contas públicas. "É difícil acreditar que vão seguir nessa linha de burlar o teto de gastos. Essa piora dos ativos domésticos faz parte da pressão do mercado para um ajuste na rota", diz o tesoureiro do Travelex, ressaltando que o nível de incerteza é hoje muito grande. "Eu geralmente tenho uma convicção da direção dos ativos, mas neste momento está muito difícil".

Bolsa

O dia negativo no mercado brasileiro seguiu o mau humor de Nova York, com Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq com quedas de 1,08%, 1,07% e 0,89% cada. Por aqui, o Ibovespa acumula baixa de 2,00% após a recente correção, o que coloca agora as perdas da semana a 3,76% e as do mês a 4,23%, acima das de julho, quando havia interrompido a recuperação de março a junho.

"A piora segue ligada (também) a questões politicas internas. A crise institucional, devida a atritos entre Bolsonaro e STF, vai seguir incomodando. A queixa registrada contra o Aras (procurador-geral da República, Augusto Aras), acusado de ser omisso em relação à arbitrariedade de Bolsonaro, foi mais um motivo para pressão no câmbio hoje", diz Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest.

Com tantos fatores negativos pesando sobre o humor dos investidores, as perdas acabaram se distribuindo por empresas e setores na B3 ao longo da tarde, sem poupar as ações de commodities, com Vale ON em queda de 3,36% e Petrobras, de 1,19%. Entre os bancos, Bradesco caiu 1,37% e Santander, 0,79%. O setor de siderurgia também foi afetado, com Usiminas em baixa de 4,73 e CSN, de 2,31%. No lado oposto, Cogna subiu 4,52% e Braskem, 4,21%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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Por que a Bolsa brasileira está caindo?

Depois de atingir nível recorde em junho, Ibovespa apresenta tendência de queda nos últimos 60 dias 

Felipe Siqueira , O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 13h36

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, teve uma recuperação muito forte entre o fim de 2020 e início de 2021, retomando o patamar de 120 mil pontos perdido em março do ano passado no derretimento dos índices globais do mercado financeiro por causa do início da pandemia de covid-19. Em 19 de março de 2020, por exemplo, a mínima registrada para o Ibovespa ficou na casa dos 61 mil pontos. Na virada para 2021, o cenário já havia ensaiado bem a recuperação até que, no começo de junho deste ano, veio o auge: 131.190,3 pontos, em negociações durante o dia, atingidos, no dia 7, o novo recorde da cesta de ações brasileira. No mesmo dia foi registrado o recorde de fechamento: 130.776,27 pontos. 

Porém, depois dessa alta expressiva, o mercado brasileiro passou a mostrar tendência de queda. A Bolsa fechou o mês de julho com recuo de quase 4% e, no ano, contando até o fechamento de terça-feira, 17, que ficou em 117.903,81 pontos, tem queda de quase 1%. O Estadão consultou especialistas em mercado financeiro para saber os motivos por trás desse cenário negativo, considerando fatores externos, com questões relacionadas aos mercados internacionais, e internos.   

No lado externo, de acordo com Jennie Li, estrategista de ações da XP, entre o fim de 2020 e o primeiro semestre deste ano, a economia global estava se recuperando do impacto da pandemia, com Estados Unidos e China, as duas principais forças econômicas do mundo, tendo bons resultados. Isso criou um efeito positivo na Bolsa brasileira, que, principalmente por causa da exportação de commodities (matérias-primas com cotação internacional), acabou tendo bons números. 

“Nós tínhamos passado por uma recuperação relevante, mas que perdeu força, passando a ter resultados em um ritmo menos acelerado. Não ficou negativo, mas passou a ser mais brando. Passamos também da fase de commodities de preços altos, indo para uma tendência de moderação. Além disso, veio a variante Delta”, explica. 

Esse último tópico, a variante Delta do coronavírus, trouxe um outro forte impacto na economia brasileira: a China passou a ter novo surto do vírus, o que fez com que o país asiático entrasse em lockdown, reduzindo a mobilidade. Pelo grande peso chinês na parceria comercial com o Brasil, se a economia por lá sofre algum baque, a tendência é que isso seja refletido por aqui.

“Recebemos dados chineses abaixo das expectativas, o que indica desaceleração econômica. Isso era esperado, o governo chinês não vê mais um crescimento muito forte, não é prioridade deles, colocaram um pouco o pé no freio. E a China é um dos maiores motores globais, essa desaceleração impacta o mundo, como no consumo de commodities, e o Brasil é muito afetado nessa parte”, explica a estrategista. Além disso, dentro dos dados menos fortes nos últimos meses, entram os Estados Unidos, que também não vêm tendo os mesmos números de recuperação anteriores. 

Junto com o apetite ao risco menor no exterior, ou seja, com investidores com menor propensão à negociação de ativos na renda variável, há ainda os fatores internos, que o mercado financeiro gosta de chamar de "lado doméstico". Alguns ruídos político-econômicos também acabam contribuindo para o cenário de queda do Ibovespa. 

De acordo com o gerente de research da Ativa Investimentos, Pedro Serra, incertezas geradas por assuntos de Brasília acabam segurando uma retomada mais forte da Bolsa do País. Os principais, segundo ele, são as mudanças no Imposto de Renda, parte da reforma tributária, cuja votação na Câmara foi mais uma vez adiada na terça-feira, 17, e a recente discussão sobre os precatórios, com a proposta de parcelamento das dívidas judiciais da União

“O que impede um melhor desempenho da Bolsa é o ruído no âmbito político interno, com desdobramentos sobre a questão fiscal. A conta do mercado é feita de maneira muito rápida: questões políticas que impactam no lado fiscal, em juros e na inflação pesam. Não só em ações, mas também no mercado de juros”, explica Serra. 

Jennie, da XP, ainda acrescenta um outro ponto: o novo Bolsa Família, que o governo vem chamando de Auxílio Brasil. Esse último, segundo ela, provoca a seguinte questão no mercado financeiro: “O que vai acontecer com o teto de gastos?”, ou seja, como tudo vai ser pago? 

Temporada de balanços 

Nem mesmo os balanços das empresas, que ainda estão sendo divulgados neste início de segundo semestre, conseguiram reverter a tendência de queda do Ibovespa. De acordo com os especialistas consultados pela reportagem, os números apresentados pelas empresas são bons, o que indica que as fundações das companhias são sólidas. Porém, por causa do mercado mais volátil, nem os bons parâmetros apresentados são suficientes. “A safra de resultados do segundo tri, que tem maior expectativa, veio em linha com o esperado, com algumas exceções. As recuperações estão ocorrendo. Validam a expectativa de recuperação”, diz Serra, da Ativa. “Os resultados são bons, mas as ações não reagem porque acompanham o mercado”, complementa Jennie, da XP. 

Inflação e Selic 

De acordo com Jennie, da XP, a Selic, a taxa básica de juros, traz algumas preocupações em relação à Bolsa, principalmente na percepção de valor da renda variável para o investidor, que pode se perguntar se vale mais a pena voltar para a renda fixa, por exemplo. O Banco Central vem aumentando a Selic, que atualmente está em 5,25% ao ano, ainda bem longe dos dois dígitos de meados de 2016. De acordo com os especialistas, esse movimento pode gerar ruído, mas sem muito impacto direto na Bolsa - ainda. O mesmo raciocínio vale para a inflação, que, no acumulado de 12 meses, está perto de 9%

“O nível de juros precificado até cerca de 7% ainda não é problema, já vivemos dois dígitos. A inflação do jeito que está também não é problema, parte dela é do reaquecimento da economia, ainda sob efeito da pandemia. Tudo isso se torna má notícia quando perde-se o controle, quando se tira poder de compra. Os dois causam um pouquinho de ruído, mas não parece coisa de mudança de patamar”, acredita Serra, da Ativa. 

Tendência para o futuro 

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que essa instabilidade deve ficar na economia brasileira por um período de médio prazo. Principalmente com a proximidade com o período eleitoral. De acordo com eles, ainda é muito cedo para falar que a disputa presidencial de 2022 já afeta diretamente o mercado, mas, com o passar dos meses, isso deve aumentar, o que trará uma maior volatilidade aos negócios. Porém, como os resultados das empresas são bons, assim que os ruídos se acomodarem, a perspectiva é otimista para os números da renda variável no Brasil, dizem.  

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