Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Dólar sobe 1,21% e Bolsa cai 0,2% com retomada econômica cada vez mais incerta

Resultados ruins para as economias chinesa e americana voltaram a preocupar os investidores, que temem uma estagnação no crescimento; no exterior, índices também caíram

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 11h04
Atualizado 17 de novembro de 2021 | 13h54

A desaceleração da retomada da economia em todo o mundo, em especial nas maiores economias, e que se dá em sintonia com o aumento da inflação a nível global, segue afetando o desempenho dos ativos de risco nesta segunda-feira, 18. Por aqui a Bolsa brasileira (B3) tentou se apoiar na recuperação do mercado de Nova York, mas perdeu forças no final do pregão e caiu 0,19%, aos 114.428,18 pontos, enquanto no câmbio, o dólar fechou em alta de 1,21%, a R$ 5,5205.

Logo pela manhã, o resultado abaixo do esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) da China no terceiro trimestre, com alta de 4,9% - ante projeções de 5,2% -, alimentou a percepção de que as principais economias do mundo estão ficando estagnadas. A produção industrial do país em setembro também recuou. A retomada da segunda maior economia do mundo é prejudicada pela escassez de energia, gargalos nas cadeias de abastecimento e grandes turbulências no mercado imobiliário.

Já nos Estados Unidos, a produção industrial de setembro sofreu queda de 1,3%, segundo dados publicados pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O resultado veio abaixo da alta de 0,2% esperada por analistas consultados pelo The Wall Street Journal. "Paralisações prolongadas da atividade devido à temporada de furacões e a escassez global de chips estão tendo um impacto maior na economia", diz Edward Moya, da Oanda, sobre a desaceleração da indústria americana.

A esse cenário, se soma a escalada da inflação em todo o mundo, que reforça o risco de uma "estagflação", processo que acontece quando os preços ficam cada vez mais elevados, mas há pouco ou quase nenhum crescimento econômico.

Por aqui, o mercado teme a adoção de medidas populistas por parte do presidente Jair Bolsonaro, que já acenou com a mudança na bandeira tarifária de energia (contrariando recomendação técnica) e enfrenta nova ameaça dos caminhoneiros. Tudo isso se dá em meio ao impasse do Orçamento de 2022 e da criação do Auxílio Brasil.

O líder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), afirmou ao Estadão/Broadcast que o auxílio emergencial poderá ser prorrogado por 60 dias com um valor menor enquanto o Executivo discute a viabilidade do Auxílio Brasil. Pouco antes, em evento em Minas Gerais, o Bolsonaro afirmou que o Executivo vai resolver a extensão do auxílio emergencial ainda nesta semana. Segundo disse, o valor do benefício, não explicitado pelo presidente, foi decidido em reunião no último sábado com os ministros Paulo Guedes, da Economia, e João Roma, da Cidadania.

Ainda sobre o tema, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), demonstra otimismo com a aprovação da PEC dos precatórios - que vai liberar espaço no orçamento para o novo programa social - na Câmara nesta semana. 

"O real está se desvalorizando mais que pares pela percepção de piora local com contínua revisão de crescimento para baixo e a expectativa pela votação da PEC dos precatórios, e consequentemente, do novo Bolsa Família. E com isso a gente tem um cenário de aversão ao risco", a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, que destaca o dia negativo para as moedas emergentes.

Diante desse cenário de cautela, o dólar bateu em R$ 5,5425 na máxima do dia, pela manhã. Para conter o movimento, o Banco Central realizou hoje pela manhã três leilões de swaps cambiais (equivalente à venda de dólares no mercado futuro), avaliados em US$ 1,950 bilhão. Após a operação, a moeda arrefeceu, mas voltou a ganhar força no final da tarde. Com os ganhos de hoje, o dólar acumula alta de 1,36% em outubro e avança 6,39% no ano.

"O dólar não vai ter uma tendência de queda internamente enquanto não resolverem a questão fiscal, ainda mais com essa piora das expectativas de crescimento", afirma Hideaki Iha, operador da Fair Corretora. Hoje, o Boletim Focus trouxe hoje queda na expectativa para o crescimento do PIB neste ano, de 5,04% para 5,01%.

Bolsas

O clima não foi positivo para os principais índices. As bolsas europeias fecharam em baixa no primeiro pregão da semana, pressionadas diante de sinais de desaceleração da economia global vindo das duas principais potências mundiais: China e EUA. Os índices de Londres, Paris e Frankfurt caíram 0,42%, 0,81% e 0,72%. Na Ásia, o índice chinese de Xangai cedeu 0,12%, enquanto a Bolsa de Tóquio teve baixa de 0,15%.

No exterior, os índices de Nova York tentaram uma recuperação, diante do cenário negativo: o Dow Jones caiu 0,10%, mas S&P 500 e Nasdaq subiram 0,34% e 0,84% cada. Apoiado nesse movimento, o Ibovespa ensaiou uma recuperação e chegou a ficar no positivo na parte da tarde, mas perdeu força no final. Na mínima, bateu nos 112,8 mil pontos. No mês, o índice avança 3,11% - no ano, cai 3,86%.

Entre as ações, os dados negativos vindos da China pressionaram, em especial, Vale ON, em baixa de 0,94%, e o setor de siderurgia, com CSN ON em queda de 4,13%, e Usiminas PNA, de 3,02%. Na contramão, os ganhos do setor bancário evitaram uma queda maior do índice: Banco do Brasil ON subiu 1,99% e Bradesco PN, 1,74%.

Destaque também para Lojas Americanas, com alta de 20,72% no fechamento. "A companhia anunciou que está fazendo estudos para eventualmente unificar as três classes de ações (LAME3, LAME4 e AMER3) no Brasil, antes do processo de listagem lá fora. Com isso, essas três classes seriam concentradas no Novo Mercado", diz Danniela Eiger, head de varejo e co-head de Equity Research da XP.

"Ainda há um embate entre o micro, positivo, e o macro, que causa ruído e traz preocupação, na economia e na política. Na semana que vem, teremos resultados corporativos e, ao que tudo indica, tendem a ser favoráveis. Hoje, os dados da China também não ajudaram", diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos.

Os contratos de petróleo também foram afetados pelo desempenho econômico ruim, com o WTI para dezembro em baixa de 0,05%, a US$ 81,69 o barril em Nova York, enquanto o do Brent para o mesmo mês teve baixa de 0,62%, a US$ 84,33 o barril em Londres. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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