Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Dólar sobe 2,6%, a R$ 5,25, e Bolsa recua 1,2% com avanço de variante da covid

Segundo a OMS, a cepa Delta já está presente em mais de 111 países, mas número pode ser ainda maior; em Nova York, índices tiveram perdas de até 2%

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 16h31
Atualizado 19 de julho de 2021 | 18h49

O temor ante o avanço da variante Delta pesou nos ativos locais nesta segunda-feira, 19, com o dólar fechando em forte alta de 2,64%, a R$ 5,2506, no maior avanço porcentual desde 18 de setembro de 2020. O mau humor atingiu também a Bolsa brasileira (B3), que cedeu 1,24%, aos 124.394,57 pontos, em sintonia com a forte queda do mercado de Nova York. Hoje, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que a cepa do coronavírus já circula em mais de 111 países. 

Em sessão virtual da OMS, a líder técnica da resposta à pandemia, Maria Van Kerkhove, ressaltou que o número de países com a nova variante pode ser ainda maior, dada a limitação de fazer o sequenciamento do vírus em alguns países. "Estamos buscando entender por que a variante delta é mais transmissível", disse Kerkhove. O objetivo, segundo ela, é reunir todas as informações sobre a cepa e estudar se precisarão ser feitas mudanças nas orientações da OMS.

"Por um lado, a França está reabrindo para turistas vacinados e o Reino Unido colocando fim ao distanciamento social, no momento em que a variante Delta tem preocupado a todos. Já vemos alguns casos de contaminação de covid em atletas em Tóquio, ainda antes do início da Olimpíada. E as aglomerações vistas na Eurocopa, especialmente no estádio de Londres, foram de assustar. Começa a se falar em terceira dose de vacina", diz Rodrigo Friedrich, sócio e head de renda variável da Renova Invest.

Assim, no exterior, as bolsas refletiram hoje os "temores da propagação do coronavírus com a variante Delta, além do forte recuo do petróleo após divulgação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) de que (os países-membros) concordaram em aumentar, durante este ano, os limites de produção do petróleo", observa em nota a equipe de análise da Terra Investimentos, destacando também o avanço observado no índice de volatilidade VIX. Em Nova YorkDow Jones, S&P 500 e Nasdaq em quedas de 2,09%, 1,58% e 1,06% cada.

"A decisão (da Opep+) foi de elevar a produção de petróleo em 400 mil barris por dia até o final de 2022. Tal medida deve começar a valer a partir de agosto de 2021, mas com uma reavaliação em dezembro deste ano", observa em nota o economista Guilherme Sousa, da Ativa Investimentos. "Hoje, sabemos que existe defasagem do preço praticado na gasolina doméstica em relação ao internacional, de aproximadamente 15%. O aumento de produção pode trazer um alívio nos preços dos combustíveis aos consumidores, no curto prazo, e essa defasagem deverá ser reduzida", acrescenta.

Nesta segunda-feira de forte correção nos preços do petróleo, com queda de quase 7%, Petrobrás PN e ON fecharam respectivamente em baixa de 1,65% e 1,18%, após terem sustentado perdas superiores a 2%, em sessão também negativa para Vale ON, em queda de 1,09% no encerramento, em dia no qual o minério fechou em leve baixa de 0,18%, a US$ 221 por tonelada, em Qingdao (China).

"A partir de agosto, a Opep+ aumentará sua produção em 400 mil barris por dia a cada mês até dezembro e chegará ao total de 2 milhões de barris. No ano que vem, o grupo concordou em reavaliar o corte de 5,8 milhões de barris de produção até o fim de 2022, que havia sido planejado no ano passado", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Em meio à generalizada aversão a risco, um grupo restrito de ações conseguiu fechar o dia em terreno positivo: Rumo subiu 2%, Locaweb teve alta de 1,38% e Banco Inter, de 0,86%. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para Americanas ON, em baixa de 8,94%, Via Varejo, de 3,77%, Gol, de 3,61%, e PetroRio, de 3,45%. No mês, o índice cede agora 1,90%, limitando o ganho do ano a 4,52%. Hoje, o índice teve a terceira queda seguida, duas das quais superiores a 1%.

Câmbio

O real liderou as perdas entre dividas emergentes no pregão desta segunda-feira, 19, em dia de marcado por forte liquidação de ativos de risco e queda acentuada das commodities, diante de temores de que o avanço da variante Delta do coronavírus mine a recuperação da economia global.  Em alta desde o início dos negócios, o dólar à vista renovou sucessivas máximas ao longo da tarde, ultrapassado a barreira de R$ 5,25. Operadores notaram sinais de acionamento de ordens de stop loss (limitação de perdas) após a moeda romper o nível de R$ 5,23, acompanhando o sinal externo.

Entre as principais divisas emergentes, o a moeda americana subia cerca de 1% na comparação com o peso mexicano e por volta de 0,70% ante o rand sul-africano, considerados pares do real. O índice DXY - que mede a variação do dólar em relação a seis divisas fortes - subia 0,17%, na casa dos 92,8 pontos

Analistas lembram que, tecnicamente, o real tende a sofrer mais em tempos de aversão ao risco. A moeda brasileira têm exibido uma volatilidade muito mais acentuada que a de outras divisas emergentes. Além disso, permanece ainda certo desconforto com o ambiente político doméstico, o que torna posições na moeda brasileira muito desconfortáveis neste momento, a despeito da perspectiva de novas elevações da taxa Selic .

O economista da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, destaca que a grande preocupação é com uma eventual "recaída" da economia global por causa da variante Delta. "Vai ter um cenário de menor crescimento no ano que vem com a inflação nos Estados Unidos em patamar já elevado, o que vai obrigar o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) a agir", afirma, ressaltando que a questão é saber como o Fed vai manobrar a política monetária para segurar a inflação sem provocar deterioração aguda e rápida nos preços dos ativos. "E isso provoca muito estresse nos mercados, como estamos vendo hoje."

Para o especialista em câmbio da Valor Investimentos, Rafael Ramos, o dólar deve seguir rodando entre R$ 5,15 e R$ 5,25 no curto prazo. "Mas com a perspectiva de redução de estímulos pelo Fed e o debate em torno das eleições presidenciais cada vez mais fortes, pode ir para cima de R$ 5,40 no ano que vem", afirma Ramos. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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