Hannibal Hanschke/ Reuters
Hannibal Hanschke/ Reuters

Dólar fecha em R$ 5,74, o maior valor desde março, e Bolsa cai 2% diante de temor com a Ômicron

Nova onda de restrições na Europa, para conter a cepa, derrubou os mercados; no Brasil, a pressão de Bolsonaro por mais gastos no Orçamento de 2022 também azedou o humor e fez o dólar subir

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 14h43
Atualizado 20 de dezembro de 2021 | 19h58

As preocupações crescentes com a recuperação da economia mundial, diante do avanço da variante Ômicron, se somaram aos temores fiscais internos nesta segunda-feira, 20, após a pressão do governo para ampliar os gastos no Orçamento de 2022. Nesse cenário, a Bolsa brasileira (B3) seguiu o mau humor do exterior e caiu 2,03%,aos 105.019,78 pontos, enquanto o dólar fechou em alta de 1,02%, a R$ 5,7431, o maior valor de fechamento desde 26 de março.

Analistas destacam que as dúvidas sobre eventual desaceleração da atividade em todo o mundo diante das restrições impostas para conter disseminação da Ômicron, em especial na Europa, vem exatamente após o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e outros bancos de países desenvolvidos alardearem que vão reduzir estímulos monetários para tentar segurar a inflação. Na prática, isso significa provável diminuição da liquidez e, por tabela, de combustível para os ativos de risco.

"Temos uma aversão global ao risco com o avanço da Ômicron na Europa e nos Estados Unidos e isso causa muita apreensão. A Holanda anunciou lockdown. Já que é uma semana sem muita liquidez, investidores preferem ir para ativos mais seguros", diz Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos. "Essa variante Ômicron não se mostra letal como as outras, mas muito transmissível. Preocupa até quando as medidas de restrição da circulação vão durar, porque isso prejudica a economia", afirma o economista da Valor Investimentos, Davi Lelis.

Em resposta, as Bolsas de Nova York despencaram - o Dow Jones caiu 1,23%, o S&P 500, 1,14% e o Nasdaq, 1,24%. Na Europa, a Bolsa de Londres cedeu 0,99%, a de Paris, 0,82% e a de Frankfurt, 1,88%. Já no continente asiático, os índices chineses de Xangai e Shezhen recuaram 1,07% e 1,77% cada, enquanto o mercado do Japão cedeu 2,13% e Hong Kong, 1,93%.

Aos ventos externos desfavoráveis - que, por si só, já abalariam o apetite do investidor por ativos locais - somam-se renovadas preocupações com deterioração fiscal doméstica, em meio às negociações para votação do Orçamento de 2022. Além de pressões para reajuste do funcionalismo público, há rumores de que o Centrão estaria tentando elevar o valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 - em um prenúncio de mais tentativas de aumento das benesses sociais com vistas às eleições de 2022.

Com queda de cerca de 1,5% logo após a abertura, o Ibovespa perdeu a linha dos 105 mil pontos ainda pela manhã, registrando mínima aos 104.357,81 pontos, e passou à tarde operando com baixa superior a 2%. Apesar do tombo nesta segunda-feira, o índice ainda acumula alta de 3,05% em dezembro. Em 2021, contudo, o índice ainda amarga perdas de dois dígitos, em baixa de 11,76%.

Não bastasse o tombo das ações da Petrobras, com a PN em baixa de 2,86% e a ON, de 1,92%, em meio à queda do petróleo no mercado internacional, as ações da Vale também sofreram, em baixa de 1,12%, a despeito da valorização do minério de ferro, na esteira de anúncio de medidas de estímulo pelo governo chinês.

"Hoje, houve uma convergência de fatores negativos, com muitos países europeus tomando medidas mais fortes de restrição para combater a Ômicron e notícias ruins de Brasília. Isso acabou pesando muito na Bolsa", afirma Rodrigo Natali, estrategista da Inversa. Apesar das incertezas relacionadas aos impactos da variante Ômicron, Natali não crê que o Ibovespa possa recuar para a linha dos 100 mil pontos.

A economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, observa que, além da apreensão com a variante ômicron, os mercados sofrem com a "percepção de piora do risco fiscal, por conta da pressão por gastos às vésperas do ano eleitoral", em meio à definição do Orçamento de 2022. "Tudo isso em um momento de baixa liquidez por conta da proximidade dos feriados".

O relator-geral do Orçamento de 2022, deputado Hugo Leal (PSD-RJ), apresentou hoje o texto final da proposta, mas a votação na Comissão Mista de Orçamento (CMO) foi adiada para amanhã, 21. Segundo fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast, a prioridade na CMO seria será incorporar ao orçamento reajuste a agentes de saúde, com impacto de R$ 1,8 bilhão. Já o aumento de salários de policiais federais, com estimativa de R$ 2,86 bilhões, dependeriam de cortes no orçamento. Já a eventual redução do fundo eleitoral, de R$ 5,1 bilhões, estaria sob fogo pesado do Centrão.

O relator também propôs na peça orçamentária uma PEC para redefinir o teto de gastos a cada quatro anos, com desvinculação da margem fiscal aberta pela PEC dos Precatórios. Segundo fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast, uma nova PEC do teto é "horrível" e cria insegurança quanto a principal âncora fiscal do país.

Câmbio

O comportamento do mercado de câmbio nesta segunda-feira espelhou a busca por proteção com demanda alta pela moeda à vista em dia de negociação e véspera de votação do Orçamento de 2022 na CMO, além de aspectos mais preocupantes no exterior por causa da variante Ômicron e seus impactos nas economias globais.

Assim, o dólar manteve a trajetória de alta durante toda a sessão, que já tem liquidez reduzida devido às festividades de final de ano. Durante a tarde, a pressão aumentou sobre o real e levou a cotação da divisa americana às máximas, na casa dos R$ 5,7461 no à vista e a R$ 5,7585 no segmento futuro com vencimento em janeiro.

Thomas Giuberti, economista e sócio da Golden investimentos, aponta outra questão, desta vez externa, a influenciar a alta do dólar no Brasil na sessão de hoje: moedas de emergentes como da Turquia, da Argentina e agora do Chile - após eleger o esquerdista Gabriel Boric - estão depreciando e isso tem efeito de contaminação para o real. "Há um contágio marginal do comportamento dessas moedas emergentes para o real", afirma. /ANTONIO PEREZ, SIMONE CAVALCANTI E MAIARA SANTIAGO

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