Gary Cameron/Reuters
Gary Cameron/Reuters

Bolsa cai 0,5% e dólar fecha estável com cenário político conturbado do Brasil

Apesar do dia favorável no exterior, a piora da relação entre Bolsonaro e o STF e o clima antecipado de eleição prejudicam o desempenho dos ativos locais

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 14h34
Atualizado 23 de agosto de 2021 | 18h35

Apesar da melhora dos mercados do exterior, o pregão foi ruim para os ativos brasileiros nesta segunda-feira, 23, que ainda são afetados pela aversão aos riscos causada pelas incertezas do cenário interno. Hoje, a Bolsa brasileira (B3) fechou em alta de 0,49%, aos 117.471,67 pontos, enquanto no câmbio, o dólar fechou estável, em leve queda de 0,05%, a R$ 5,3820.

"Os mercados lá fora estiveram animados, com alta desde a sessão da Ásia, após o governo chinês informar não ter havido novos casos de coronavírus no país. Entre as commodities, grande destaque para a recuperação dos preços do petróleo. O evento mais aguardado da semana virá na sexta-feira, com o encontro anual de Jackson Hole, do Federal Reserve [Fed, o banco central americano]", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.

Na China, foi a primeira vez desde julho que não houve nenhum caso local de covid-19, "o que mostra uma possível estabilidade no surto da doença", diz Túlio Nunes, especialista de finanças da Toro Investimentos, chamando atenção também, no país, para "avanços nas aprovações de abertura econômica, após polêmicas no que tange à regulação".

No exterior, "a expectativa da semana está concentrada em Jackson Hole, de onde se espera anúncio de normalização da política monetária, com o controle de estímulos (monetários) pelo Fed", observa Pedro Scaramussa, sócio da Valor Investimentos, que acredita que os mercados tendem a ficar mais leves, sem grandes oscilações, até lá.

Hoje, com alta acima de 5% para os contratos de petróleo, o desempenho positivo de Petrobras com ON em alta de 3,35% e PN, de 1,58%, assim como das ações de grandes bancos, com Santander e Itaú em altas de 1,34% e 1,07% cada, contribuiu para que uma correção mais forte no Ibovespa fosse evitada na contramão do exterior. Na ponta negativa do índice, destaque para queda de 6,08% em Lojas Americanas e de Eneva, de 4,21%.  No ano, o índice acumula agora perda de 1,30%, cedendo 3,55% em agosto. 

Aqui, o enfraquecimento político do governo mantém o mercado na defensiva quanto ao fiscal, em meio a uma reforma de IR polêmica - com votação remarcada para esta semana na Câmara, após adiamentos - e formação, hoje, de uma frente de governadores contra ameaças percebidas à democracia.

Nesta segunda-feira, o governador de São Paulo, João Doria, afastou um comandante da PM por simpatia aos apelos por insurgência, fator que deve ganhar relevância à medida que se aproxima o 7 de setembro, especialmente tensionado este ano pelo acirramento da disputa entre o presidente Bolsonaro e a cúpula do Judiciário. "Investidores locais mantêm o foco na crise de confiança instalada pelo presidente Jair Bolsonaro e por temores de piora das contas públicas com as eleições no ano que vem", observa em nota a equipe de análise da Terra Investimentos.

"A taxa de câmbio está precificando muito mais o risco político, o risco fiscal. Se esses riscos forem atenuados, o que não é muito visível nesse momento, a taxa de câmbio tenderia a valorizar um pouco, mas por enquanto o cenário ainda está em fase mais difícil. Estamos num ponto de inflexão, um 'turning point' no cenário econômico: aquele cenário que era de expectativa por crescimento maior, principalmente no quarto trimestre, ainda existe, mas está perdendo intensidade", diz Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

Em participação em evento nesta segunda-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reconheceu que o ambiente de antecipação das eleições prejudica a economia, causando muito barulho, mas nenhum fundamento, segundo ele, indica que o País esteja fora de controle. "Espero que excessos de uma parte ou de outra sejam moderados. Precisamos moderar os excessos para garantir a recuperação econômica, que está praticamente garantida. Muito tem se falado do déficit, sobre a possibilidade de descontrole fiscal, mas os fundamentos continuam indicando que estamos fazendo o trabalho certo", disse o ministro. 

Câmbio

As tensões político-institucionais domésticas, com o novo embate entre Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal, impediram que o real se beneficiasse mais amplamente da onda global de enfraquecimento global da moeda americana no pregão desta segunda, dia marcado por forte apetite por ativos de risco lá fora.

O dólar à vista até abriu em queda, alinhado ao movimento externo de enfraquecimento da moeda americana, e desceu até a mínima, a R$ 5,3460. Mas o apetite por real durou pouco e, logo em seguida, investidores optaram por realizar lucros e recompor posições defensivas - o que não apenas fez o dólar trocar de sinal como correr até a máxima de R$ 5,4022. Em agosto, a moeda americana acumula valorização de 3,30%. O dólar para julho subiu 0,09%, R$ 5,3880.

Lá fora, o DXY - que mede o desempenho da moeda americana frente a seis divisas fortes - renovou mínimas na etapa vespertina, negociado abaixo da linha dos 93 mil pontos. O dólar também perdia força em relação a moedas emergentes e de países exportadores de commodities, à exceção do peso argentino.

Para o especialista em câmbio da Valor Investimentos, Rafael Ramos, o embate entre os Poderes, que se acentuou com o pedido de impeachment de Moraes, provoca um desconforto cada vez maior dos investidores com o cenário político. "Isso acaba poluindo os mercados e traz aversão ao risco. Esta tende a ser uma semana de forte volatilidade no câmbio", afirma. /LUÍS EDURADO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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