Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Bolsa avança 2,3% e dólar recua 2,2%, após fala de Lira sobre compromisso com o teto de gastos

Cenário político calmo e comprometimento do governo com o teto de gastos permitiram que ativos brasileiros tivessem um pregão de recuperação nesta terça-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 14h58

O cenário político nacional calmo, sem grandes desavenças entre os poderes, permitiu que os ativos tivessem um dia de recuperação nesta terça-feira, 24, cujo cenário positivo foi reforçado ainda pelo comprometimento do governo com o teto de gastos. A Bolsa brasileira (B3) subiu 2,33%, aos 120.210,75 pontos, enquanto no câmbio, o dólar cedeu 2,23% ante o real, a R$ 5,2622. Ambos tiveram o melhor desempenho desde 13 de agosto.

O avanço de hoje foi o suficiente para colocar o Ibovespa de volta em terreno positivo no acumulado do ano, agora com avanço de 1% em 2021, com a limitação das perdas em agosto a 1,31%. Na semana, sobe 1,83%. 

Em evento da XP Investimentos, o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), afirmou hoje que o relatório da reforma administrativa, nas mãos do deputado Arthur Maia (DEM-BA), deve ser apresentado na Casa esta semana, e disse também que pretende discutir com setores do governo, no mesmo período, a PEC dos Precatórios. Lira afirmou que buscará, com o Supremo Tribunal Federal (STF), uma solução para que a PEC respeite o teto de gastos, acrescentando já ter marcado um encontro com o presidente do STF, Luiz Fux, para que a Corte faça a mediação de solução para o tema. 

"O compromisso de Lira com o teto de gastos, e defendendo a aprovação de reformas, era o que o mercado queria e precisava ouvir, o que se refletiu não apenas na Bolsa mas também no câmbio e na curva de juros", diz Cassio Bambirra, sócio da One Investimentos, chamando atenção para o efeito da descompressão nos juros futuros sobre um setor em particular, o imobiliário, com forte desempenho na sessão. "Lira também se manifestou sobre os precatórios, contra calote, o que é muito importante para a confiança do investidor, especialmente o estrangeiro", acrescenta.

"Houve um otimismo do mercado com o discurso do presidente da Câmara, com aceno de comprometimento com a questão fiscal, que é o nosso calcanhar de Aquiles. Mas esse discurso ainda não traz uma solução final para o problema", afirma a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte.

No exterior, o desempenho positivo de commodities como o petróleo, com o Brent de volta a US$ 71 por barril, e o minério de ferro, em alta superior a 6% na China, contribuiu para alavancar a recuperação observada no Ibovespa hoje, colocando em destaque o setor de mineração, com Vale ON em alta de 3,65% e siderurgia, com Usiminas PNA subindo 7,10% e CSN ON, 5,35%. Petrobras ON e PN tiveram ganhos mais "modestos", de 0,96% e 1,96% cada.

"Lá fora, a redução do temor com relação à variante Delta do coronavírus impulsiona recuperação do setor de commodities, e também das companhias aéreas, puxando o mercado pra cima. Temos cenário externo benigno, mais otimista, o que contribui para o bom tom visto hoje", diz Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos.

Na ponta do Ibovespa na sessão, destaque para Cyrela, em alta de 12,33%, Lojas Americanas, de 11,81% e Gol, de 10,97%. No lado oposto, JBS cedeu 3,26%, Raia Drogasil, 2,64% e Pão de Açúcar, 2,09%. No campo positivo, o setor financeiro, segmento de maior peso na Bolsa, registrou ganhos entre 1,60% para Santander e 3,10% para Banco do Brasil ON.

Assim, ancorado no front doméstico em Lira, o apetite por risco deixou em segundo plano as preocupações sobre a crise institucional, os riscos político e fiscal, ainda pendentes, enquanto o presidente Jair Bolsonaro confirmava que estará presente às manifestações de 7 de setembro, na Esplanada dos Ministérios e na Avenida Paulista - segundo ele, porque continua conspirando "a favor da Constituição". "O mercado entende quando está falando o candidato, e não o presidente. Ali, estava em momento 100% candidato", diz Morelli, da Davos.

Câmbio

A combinação de um ambiente externo de amplo apetite ao risco com o arrefecimento das tensões fiscais domésticas abriu espaço para uma queda acentuada do dólar na sessão desta terça. Por causa do forte recuo de hoje, a valorização acumulada do dólar em agosto foi reduzida para apenas 1%. Já o dólar para setembro caiu 2,43%, a R$ 5,2570.

Como havia apanhando muito recentemente, devido aos problemas político-institucionais e fiscais domésticos, o real liderou com folga os ganhos das divisas emergentes, que avançaram em bloco na comparação com a moeda americana. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - até chegou a operar entre estabilidade e ligeira alta, mas trocou de sinal ao longo da tarde e passou a trabalhar em leve queda, o que contribuiu para as mínimas do dólar no mercado doméstico.

Na avaliação do economista-chefe do JF Trust, Eduardo Velho, o ambiente externo positivo, com forte alta das commodities, já tiraria, por si só, fôlego da moeda americana por aqui nesta terçafeira, apesar dos problemas domésticos. "Mas claramente o discurso do Lira [presidente da Câmara] fez o Ibovespa acelerar e o dólar cair muito mais por aqui. É muito positivo para o mercado quando um representante maior do Centrão fala de responsabilidade fiscal", afirma.

Velho também descarta, por ora, um cenário de queda persistente do dólar, que teria como primeiro suporte a faixa de R$ 5,22. "O quadro fiscal ainda é negativo. Não se sabe ainda o que vai acontecer com a PEC dos Precatórios. A reforma do IR tem problemas, mas se não for aprovada, não vai ter taxação de dividendos e isso pode prejudicar a arrecadação" afirma, ressaltando que a proximidade e do fim do ano traz uma sazonalidade negativa para a taxa de câmbio, dado o aumento das remessas ao exterior. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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