Werther Santana/Estadão
B3, a Bolsa de Valores de São Paulo Werther Santana/Estadão

Bolsa cai 0,7% após Evergrande não honrar pagamento de dívida nos EUA; dólar sobe

Credores da incorporadora, que deve US$ 83,5 milhões em juros sobre títulos nos EUA, não receberam o pagamento marcado para quinta-feira; por aqui, inflação também ficou no radar

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 14h39
Atualizado 24 de setembro de 2021 | 18h28

O movimento típico de cautela antes do final de semana foi agravado nesta sexta-feira, 24, pela volta das preocupações com a crise de solvência da incorporadora chinesa Evergrande, após ela deixar de arcar com compromissos nos Estados Unidos. Assim como os principais índices do exterior, e também afetada pela prévia da inflação de setembro, a Bolsa brasileira (B3) fechou em queda de 0,69%, aos 113.282,67 pontos, encerrando uma sequência de três pregões em alta. No câmbio, o dólar subiu 0,64%, a R$ 5,3438, no maior nível de fechamento desde o dia 23 de agosto.

Investidores globais que possuem títulos da Evergrande em dólares não receberam o pagamento de juros que deveria ter sido feito na quinta-feira. A companhia tinha que pagar US$ 83,5 milhões em juros sobre títulos com valor de face de US$ 2,03 bilhões. 

A empresa, porém, ainda pode fazer os pagamentos depois do prazo: há carência de 30 dias antes que os detentores dos títulos possam declarar inadimplência. No entanto, o pagamento perdido abriria espaço para o que poderia ser o maior calote de um título em dólar já cometido por uma empresa da Ásia, conforme relato da Dow Jones Newswires.

Na visão do Ing, todo o caso de resolução de débito da Evergrande está "longe de ser esclarecido". O banco holandês observa que pode haver novas reviravoltas antes de uma reestruturação completa do débito, uma vez que as autoridades chinesas parecem esperar que a gigante do setor imobiliário resolva seus desafios por conta própria.

Para Jonas Goltermann, da Capital Economicas, ainda que o sentimento do mercado tenha se estabilizado após uma venda massiva dos ativos de risco na segunda-feira, o assunto continua sendo sensível e deve permanecer em foco na próxima semana.

"A perspectiva para a semana que vem ainda depende de como o governo da China vai interferir na Evergrande, e como vai ser esta recuperação (da empresa). Acredita-se que o governo está deixando sangrar para dar recado a outras empresas, para evitarem a alavancagem e altas dívidas", diz Piter Carvalho, economista da Valor Investimentos.

Além disso, também adicionou uma dose extra de cautela à proibição na China das negociações envolvendo bitcoins. "O bitcoin inicialmente caiu mais de 5% e as outras moedas (virtuais) principais caíram cerca de 10%", observa em nota Edward Moya, analista de mercado financeiro da Oanda em Nova York. "Bitcoin, Ethereum e Tether foram especificamente nomeadas como criptomoedas que não podem circular na China", acrescenta o analista.

Com a aversão a risco desde o exterior, setores e empresas de maior peso no Ibovespa, que mostravam ontem recuperação em geral bem distribuída, voltaram a cair hoje, ainda que moderadamente, devolvendo parte da recuperação do dia anterior, a terceira seguida. No plano doméstico, a prévia da inflação de setembro, que subiu 1,14%, no maior patamar para o mês desde 1994, também não ajudou nos negócios, com algumas casas já projetando inflação a 10% ao ano, algo que não era visto desde 2016.

"Os mesmos problemas continuam no radar à medida que nos aproximamos de outubro: inflação em alta e a Evergrande, na China. O desconforto com a inflação talvez ajude a impulsionar a definição de questões importantes, como os precatórios e avanço nas reformas. Lá fora, a injeção de recursos no sistema financeiro da China sugere que as autoridades podem vir a tratar a Evergrande como 'too big to fail", evitando crise sistêmica como a de 2008, nos Estados Unidos", diz Victor Licariao, líder de alocação de renda variável da Blue3.

Entre os setores de maior peso no índice, as perdas entre os grandes bancos ficaram nesta sexta-feira entre 1,34% para Bradesco ON e 2,79% para Santander. Entre as ações metálicas, Vale ON caiu 1,55%, CSN teve baixa de 3,59%, e Usiminas, de 2,16%, em meio às dúvidas sobre a economia da China. Na face positiva, destaque para Minerva, em alta de 4,52%, PetroRio, de 3,87% e JBS, de 3,72%. Apesar do desempenho negativo hoje, o Ibovespa ainda acumula alta de 1,65% na semana. No mês, limita as perdas a 4,63%, que chegaram a superar 8% no pior momento de setembro - no ano, cai 4,82%.

Câmbio

A onda de fortalecimento global da moeda americana - que subiu tanto em relação a divisas fortes quanto emergentes - pautou os negócios no mercado doméstico de câmbio nesta sexta e levou o dólar à vista a se consolidar acima do patamar de R$ 5,30, encerrando a semana com valorização acumulada de 1,17%.

A valorização do dólar, nesta semana, se deve principalmente ao anúncio da diminuição do programa de compra de ativos dos Estados Unidos, processo chamado de 'tapering', que pode começar já em novembro, segundo sinalizou o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell. O corte nos estímulos favorece o dólar, pois torna a renda fixa americana mais atraente, diminuindo o apelo de papéis dos países emergentes.

"Por mais evasivo que o Fed possa ser, o fato é que estamos chegando perto do tapering, que só não vira em novembro se houver algum problema grave. O mercado está acostumado aos estímulos e isso vai mudar", diz o diretor de estratégia da Inversa Publicações, Rodrigo Natali

Refletindo a busca dos investidores por proteção, o dólar à vista operou em alta desde a abertura dos negócios, sempre acima da linha de R$ 5,30, e correu até a máxima de R$ 5,3549 ainda pela manhã. Em setembro, o dólar acumula valorização de 3,32%. O dólar para outubro subiu 0,58%, a R$ 5,3435.

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a seis divisas fortes - operou em alta firme, na casa dos 93,300 pontos. A moeda americana também subia em bloco na comparação com divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com destaque para o rand sul-africano (+1,52%) - que vinha de uma performance superior a de seus pares - e a lira turca (1,29%), ainda na esteira do corte de juros pelo Banco Central da Turquia ontem. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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Evergrande não paga credores e derruba mercados internacionais

Humor do mercado azedou após a informação de que credores da incorporadora chinesa nos EUA ainda não receberam o pagamento de juros marcado para quinta-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 17h15

Os índices do exterior fecharam majoritariamente em queda nesta sexta-feira, 24, diante da volta da preocupação de investidores com a crise de solvência da incorporadora chinesa Evergrande, que havia ficado em segundo plano nas últimas sessões.

Após a notícia de que autoridades da China orientaram governos locais a se preparar para um eventual colapso da Evergrande, hoje foi noticiado que os credores da empresa nos EUA ainda não receberam o pagamento de juros previsto para ontem. A companhia tinha que pagar US$ 83,5 milhões em juros sobre títulos com valor de face de US$ 2,03 bilhões.

A empresa ainda teria, porém, 30 dias para fazer a operação antes que os detentores dos títulos possam declarar inadimplência. Ainda no noticiário, o Financial Times informou, a partir de fontes, que o Credit Suisse havia vendido no fim do ano passado toda sua exposição em títulos da Evergrande, como forma de se proteger em caso de eventual default. A ação da empresa em Hong Kong recuou hoje 11,61%.  

Líderes e agentes do mercado, porém, têm tentado minimizar o impacto da crise da empresa. Ontem, alguns bancos chineses revelaram o quanto têm a receber da Evergrande e alegaram estarem preparados para absorver um possível calote.  

Nos Estados Unidos, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, comentou que a situação envolve particularmente a China. Questionado sobre um possível impacto nos EUA, ele afirmou que não há grande exposição para o país. Powell disse, contudo, que poderia acontecer algum leve respingo por lá, como na confiança do mercado.

Já a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, disse que a exposição direta da zona do euro à Evergrande será limitada, embora os mercados financeiros estejam todos interligados.

Na visão do Ing, todo o caso de resolução de débito da Evergrande está "longe de ser esclarecido". O banco holandês observa que pode haver novas reviravoltas antes de uma reestruturação completa do débito, uma vez que as autoridades chinesas parecem esperar que a gigante do setor imobiliário resolva seus desafios por conta própria.

Além da Evergrande, a notícia de que a China proibiu as negociações com criptomoedas não foi bem recebida pelo mercado. "Se os usuários de criptografia chineses temem que uma "proibição de posse" esteja se aproximando, uma quantidade enorme de vendas de carteiras antigas pode ocorrer", disse Edward Moya, analista da Oanda. Após a proibição, o preço do bitcoin chegou a cair mais de 5%.

Bolsa de Nova York

Em um pregão de forte oscilação, a Bolsa de Nova York tentou buscar uma recuperação após começar em queda - e até conseguiu -, mas não a sustentou por muito tempo. No final do pregão, Dow Jones teve apenas ganho marginal de 0,09%, enquanto S&P 500 e Nasdaq caíram 0,15% e 0,03%.  Na semana, o ganho acumulado foi de 0,62%, 0,51% e 0,02%, respectivamente.

Bolsas da Europa

Com o novo impasse envolvendo a Evergrande, o mercado europeu devolveu parte dos ganhos conquistados nos últimos dias. O índice Stoxx 600, que concentra as principais empresas da zona do euro, caiu 0,90%, enquanto a Bolsa de Londres teve queda de 0,38%, a de Paris, de 0,95% e a de Frankfurt, de 0,72%. Os índices de Milão, Madri e Lisboa cederam 0,43%, 0,04% e 0,61%. Apesar dos resultados negativos, todos os índices fecham a semana com alta acumulada.

Bolsas da Ásia

Novamente no centro da crise envolvendo a Evergrande, a Bolsa de Hong Kong caiu 1,30%, após o noticiário negativo sobre a empresa voltar a predominar no mercado. Os índices chineses de Xangai e Shenzhen caíram 0,80% e 0,70% cada, enquanto Seul teve baixa marginal de 0,07%. Na contramão, a Bolsa de Tóquio subiu 2,06% na volta de um feriado e Taiwan teve ganho de 1,07%.

Na Oceania, a bolsa australiana seguiu o viés predominantemente negativo do mercado asiático e caiu 0,37%.

Petróleo

Os contratos futuros de petróleo fecharam em alta, contabilizando o quarto dia seguido de ganhos, diante das perspectivas de aumento na demanda num momento de produção limitada. Com isso, a commodity registra a quinta semana consecutiva de avanços. Hoje, o setor voltou a precificar as perspectivas de melhora da pandemia e o fim das restrições, que devem aumentar a demanda pelo óleo.

O petróleo WTI para novembro fechou em alta de 0,93%, a US$ 73,98 o barril em Nova York, enquanto o Brent para o mesmo mês avançou 1,09%, a US$ 78,09 o barril em Londres. Na semana, o WTI subiu 3,00%, e o Brent, 3,65%. /MAIARA SANTIAGO, GABRIEL BUENO DA COSTA, MATHEUS ANDRADE E SÉRGIO CALDAS

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Crise da Evergrande é 'implosão controlada' e não deve se tornar sistêmica, diz pesquisador

Para Leonardo Burlamaqui, estudioso do desenvolvimento econômico da Ásia, gigante do setor imobiliário não é o 'Lehman Brothers da China' e provavelmente os reguladores do país vão intervir

Entrevista com

Leonardo Burlamaqui, professor da UERJ e pesquisador do Instituto Levy de Economia, da Faculdade Bard

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 15h09

RIO - Os problemas financeiros da incorporadora imobiliária Evergrande, gigante do setor da construção civil da China, espalhou tensões pelos mercados financeiros de todo o mundo, mas não devem resultar em crise sistêmica, atingindo o setor bancário, na avaliação do economista Leonardo Burlamaqui, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador do Instituto Levy de Economia, da Faculdade Bard, nos Estados Unidos

Em parte, porque a crise da companhia parece uma “implosão controlada” pelos reguladores chineses. Segundo o estudioso do desenvolvimento econômico da Ásia, os problemas da incorporadora ocorrem num momento em que a China conduz mudanças estruturais na economia. O foco é o aumento relativo do peso do consumo, em detrimento dos investimentos, e a redução das desigualdades socioeconômicas. Isso resultará em desaceleração do crescimento econômico, deixando para trás os avanços em torno de 10%, e exige uma “arrumação no meio de campo”, diz Burlamaqui. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que a crise da Evergrande diz sobre a economia da China?

Temos que colocar a Evergrande num contexto mais amplo. O presidente Xi (Jinping) assumiu, em 2013, ainda sob os reflexos da crise de 2008, após 20 anos de crescimento. É o maior fenômeno de crescimento (econômico) da história, mas isso gerou uma série de distorções. A entrada de Xi significa uma readequação do regime. Há uma série de desafios estruturais, do ponto de vista de mudar a economia e a sociedade. Xi traz três bandeiras. A primeira delas é uma cruzada anticorrupção. A segunda é o risco financeiro. O terceiro risco é o aumento da desigualdade. Com esse contexto na cabeça, entendemos melhor todo o processo de “re-regulação” que os chineses estão fazendo agora, do qual a Evergrande faz parte.

Como a incorporadora entra nesse contexto?

O setor de construção civil movimenta de 25% a 30% do PIB da China, é gigante. É um setor que se caracteriza por endividamento, tanto do ponto de vista das empresas, porque as obras são pesadas, quanto das famílias que estão comprando imóveis. É um jogo em que o crescimento e o endividamento vão paralelamente. O grande perigo é quando o endividamento começa a acelerar muito à frente do crescimento. Enquanto estamos nos endividando, mas estamos crescendo, realizando lucros, os salários estão subindo, com taxa de crescimento (econômico) de 10%, essas dívidas estão sendo pagas porque existe fluxo de caixa positivo, lucro, empregos e salário aumentando. Quando a taxa de crescimento começa a declinar, o que é o caso da China desde 2012 e 2013, surgem os problemas. A Evergrande foi um dos conglomerados mais atrevidos. Ao mesmo tempo em que fizeram muitos imóveis, contribuindo para a melhoria da situação da classe média chinesa, também se endividaram loucamente. Aí, eles caem na malha fina do Xi. Agora está na hora de arrumar o meio de campo.

Como essa arrumação atinge a companhia? Vão deixar a empresa, que não é estatal, quebrar?

Não é o momento Lehman Brothers (banco de investimentos americano que foi a falência em 2008, por causa da crise financeira iniciada no mercado imobiliário em 2007 nos Estados Unidos) da China. É uma implosão controlada pelos reguladores chineses. Estão mandando recados para Evergrande há algum tempo. Ela já submeteu aos reguladores chineses alguns planos de reestruturação e eles disseram não. Tem relatório sobre a Evergrande que tem mais de ano, mostrando que a empresa está em processo de endividamento excessivo. Vão salvar a empresa completamente? Não. A implosão controlada, provavelmente, vai tirar a direção da empresa. Provavelmente também, vão fazer uma hierarquia de credores: a família, o pequeno poupador, os fornecedores de insumos serão preservados. Para acionistas e credores internacionais, talvez, seja outra estória.

Qual a diferença com o caso do Lehman Brothers?

É o oposto do Lehman Brothers. Na China, há um processo regulatório que age dinamicamente. Estão, o tempo todo, olhando para o mercado e intervindo de maneira muito frequente. As empresas têm liberdade para se endividar, até mais do que deveriam, mas até certo ponto. Se passam do ponto, após dar um ou dois recados, o regulador entra preventivamente. O Lehman foi uma explosão descontrolada, a Evergrande é uma implosão controlada. A regulação americana não entrou. Ela foi mudar após a crise. Os bancos (americanos) estão mais capitalizados, mas fizeram isso quase por instinto de sobrevivência.

A regulação da China é melhor?

Até onde podemos ver, é muito eficiente. A China é a bolha que nunca explodiu. Temos 40 anos de crescimento, desde Deng Xiaoping (presidente que comandou o país desde 1978 e ao longo da década de 1980, implantando reformas econômicas que levaram ao crescimento acelerado), nos anos 1980. Já houve episódios de fragilização financeira. Os bancos públicos foram recapitalizados, entre 1996 e 2003, numa reforma bancária. Fizeram mais ou menos o que estão fazendo agora. Os bancos estavam em situação precária e foram recapitalizados antes de entrarem em situação de instabilidade financeira aguda. Desde então, não teve nenhuma crise financeira pesada, com contágio. A crise internacional que veio dos EUA e da Europa, em 2007 e 2008, a China conteve de maneira brilhante.

A experiência do Japão, com crise imobiliária no início dos anos 1990, não pode se repetir?

O Japão ensinou à China muito do que não fazer. O banco central japonês estimulou a bolha imobiliária ao longo dos anos 1980. O iene se valorizou muito. Foi quando os japoneses começaram a viajar loucamente pelo mundo. O banco central administrou essa bolha de maneira muito ruim no começo. Agiram depois, e não antes, e demoraram muito tempo para conter o estrago. A bolha japonesa estourou no início dos anos 1990 e eles passaram uma década num pântano financeiro de reestruturação de ativos e passivos.

O que a experiência de regulação na Ásia sugere sobre o papel do Estado na economia?

A transformação estrutural da Ásia, mudando a composição do organismo econômico, partindo do Japão, coloca um tijolo nas mãos de quem interpreta o desenvolvimento econômico capitalista como um processo sempre liderado pelos mercados, no qual o Estado teria pouco ou nada a fazer. Como dar conta desse desenvolvimento espetacular, não só da China, mas de todos esses países (asiáticos), sem entender o papel absolutamente crucial do Estado na economia? É um Estado que podemos chamar de pró-ativo e empreendedor. Pode ser proprietário de empresas, ou não. Certamente, exerce um controle significativo sobre o setor financeiro, no sentido de colocá-lo a serviço de um projeto de desenvolvimento, com transformação estrutural e inclusão social, entendendo isso como tema de interesse público, que deve estar a cargo de uma autoridade pública. A China faz isso de uma forma turbinada, anabolizada.

Não há dicotomia entre Estado e setor privado?

Não tem isso. Se alguém vem de uma tradição marxista ortodoxa vai ter dificuldade para lidar com a China. A China se autodeclara socialista, mas não é esse socialismo (marxista). O Estado é uma autoridade pública que estabelece as fronteiras entre o público e o privado. Ao desenhar e redesenhar continuamente essas fronteiras, cria mercados. Nada mais longe do que aquela ideia de privatizações, em que o Estado fenece, morre, e nascem os mercados. Muito pelo contrário. Quem cria os mercados é o Estado. Agora, ele pode atuar mal. Não quer dizer que, porque está lá, ele não vai fazer mal feito.

No Brasil, a participação do Estado atrapalhou ou ajudou?

O Estado é importante tanto para explicar o desenvolvimento quanto o subdesenvolvimento, porque ele também pode atrapalhar. O Estado não está sempre dando certo nem sempre é solução, mas ele está sempre lá. Tentar entender desenvolvimento ou subdesenvolvimento sem Estado é um beco sem saída. A pergunta ruim é: mais ou menos Estado? A pergunta mais inteligente é: que tipo de Estado? Olhando para trás, já fomos uma China, já crescemos a taxas de 8%, 10%, 14% ao ano. De 1930 a 1980, os três países que mais cresceram foram União Soviética, Japão e Brasil. Já tivemos um Estado com bastante competência para promover o crescimento. Onde falhamos? O nosso Estado, democrático ou autoritário, nunca resolveu nossos problemas sociais. Agora, crescer, nós crescemos, mas fomos sistematicamente interrompidos por estrangulamentos de natureza financeira, processos de fragilização financeira externa, com crises de dívida, e interna, com crescimento muito rápido da inflação. O que nos estrangulou não foi ter mais ou menos Estado. Foi a forma como manejamos, não tão bem, a dimensão financeira do crescimento. Onde temos que aprender? A ter um Estado que atue para que as finanças tenham um papel importante para financiar o desenvolvimento. Deveríamos prestar muito mais atenção à Ásia e à China, com olhos mais simpáticos.

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