Mohamed Abd El Gani/Reuters
Mohamed Abd El Gani/Reuters

Com investidor à espera de decisão do Copom, dólar recua 0,3% e Bolsa cai

Diante da escalada da inflação e da manobra para romper o teto de gastos, projeção do mercado é que taxa seja elevada em 1,5 ponto porcentual; votação da PEC dos precatórios também ficou no radar

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2021 | 17h42
Atualizado 27 de outubro de 2021 | 18h03

A escalada da inflação, após a prévia para outubro vir acima do esperado, e a manobra para romper o teto de gastos, elevaram a espectativa dos investidores para a decisão do Banco Central sobre a Selic, que será divulgada apenas quando o mercado já estiver fechado. Beneficiado pela alta dos juros, o real abriu vantagem ante o dólar nesta quarta-feira, 27, com a moeda americana em queda de 0,33%, a R$ 5,5510. A Bolsa brasileira (B3) teve leve recuo de 0,05%, 106.363,10 pontos. 

Apesar do clima, a amplitude das oscilações, contudo, foi bastante reduzida, de apenas cerca de seis centavos entre a mínima (R$ 5,5375) e a máxima (R$ 5,5920) - um sintoma clássico de cautela e falta de apetite por posições mais contundentes. Depois de subir 3,16% na semana passada, a moeda americana acumula baixa de 1,28% nos últimos três pregões. Em outubro, ainda avança 2%.

Também de olho na Selic, os juros, que vinham subindo há nove sessões, deram sinais de alívio. O alívio, contudo, é mínimo diante do grau de abertura das taxas desde meados do mês. A do Depósito Interbancário (DI) para janeiro de 2023, símbolo do nervosismo dos agentes, saiu de 9,05% no dia 13 para quase 12%, fechando hoje em 11,51%. O DI para janeiro de 2022 passou de 8,552% para 8,422% e a do DI para janeiro de 2025, de 11,927% para 11,81%.

A expectativa amplamente majoritária no mercado é que o BC acelere o ritmo de aperto e eleve a Selic em ao menos 1,50 ponto porcentual, para 7,75% ao ano, e que o comunicado da decisão seja duro. A tese é que um BC mais agressivo serviria de contraponto à perda da âncora fiscal, com a mudança na regra de cálculo do teto de gastos embutida na PEC dos Precatórios, que pode ser apreciada ainda hoje no plenário da Câmara.

Operadores chegaram a atribuir parte da oscilação do dólar ao longo do dia hoje a rumores sobre qual será, de fato, a postura do BC. A avaliação é que qualquer aumento da Selic inferior 1,50 ponto ou dubiedade no comunicado pode levar a taxa de câmbio rapidamente a flertar com o patamar de R$ 5,70.

No exterior, o índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis moedas fortes - operou em leve queda ao longo do dia, na maior parte do tempo abaixo dos 94 pontos. Mas o dólar subiu em relação a divisas emergentes consideradas pares do real, como o peso mexicano, em alta de 0,53%, o peso chileno, de 0,16%, e o rand sul-africano, de 1,58%.

"A expectativa maior é para o Copom, obviamente, e é fundamental que o BC traga de volta uma ancoragem nas expectativas, com o mercado muito pessimista com relação à inflação. Deve dar um choque um pouco maior, de no mínimo 1,5 ponto (na Selic), onde estão concentradas as apostas (para esta reunião), mas há casas, talvez de forma exagerada, precificando até mais de 2 (pontos porcentuais de alta, hoje). Deve ficar entre 1,5 e 2", diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.

Para Thomas Giuberti, sócio da Golden Investimentos, o dólar já está em um valor "bem esticado" e reflete "prêmio de risco elevado", dada a questão fiscal. "O BC tem o argumento perfeito agora para não ficar atrás da curva. Pode compensar os erros do passado com a decisão de subir a Selic em pelo menos 1,50 ponto com um comunicado mais forte. Isso ajudaria a segurar um pouco o câmbio", diz Giuberti, em referência ao aumento da atratividade das taxas de juros locais para investidores estrangeiros. "Se o BC não agir agora, podemos ver o mercado estressar com mais força novamente. Tudo depende da decisão e do comunicado do Copom".

O sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, argumenta que o ideal seria um "choque maior ou igual a 200 pontos bases, com Selic mínima de 8,25%, para desacelerar o impacto do dólar e estabilizar as expectativas de inflação. Velho não vê espaço, porém, para um movimento amplo de apreciação do real, já que o risco-País está na casa de 200 pontos, por causa da piora fiscal, e haverá uma deterioração sazonal do resultado da conta corrente no quarto trimestre.

"As pressões por mais gastos públicos seguem no Congresso. Desejam aumentar o valor do fundo eleitoral, emendas parlamentares dentro da PEC dos Precatórios e ainda prorrogar a desoneração fiscal da folha de pagamentos para 2022", afirma Velho, em relatório.

Pela manhã, o presidente Jair Bolsonaro, em entrevista a Jovem Pan News, se disse confiante na aprovação da PEC dos Precatórios e afirmou que não avaliou o eventual impacto político do Auxílio Brasil no valor de R$ 400 neste momento. "Muita gente diz para eu passar para R$ 600 que estou garantido na reeleição. Imagina se eu falo em R$ 600 do Bolsa Família, o que acontece com a bolsa e o dólar? Bagunça na economia não interessa para ninguém".

À tarde, ao participar do programa Pânico, também da rádio Jovem Pan, Bolsonaro voltou a chamar o mercado financeiro de "nervosinho". O presidente também arriscou um diagnóstico para a depreciação recente do real, ao dizer que o "Brasil está vivendo uma insegurança jurídica, aí o dólar não baixa".

Bolsa

Assim como outros ativos, o Ibovespa também ficou à espera da decisão do Copom, em meio a revisões contínuas do mercado nas projeções de fatores como câmbio e PIB para o ano eleitoral. Hoje, com impulso proporcionado pela manhã por uma série de balanços positivos, como os de Marfrig ON, em alta de 2,68% e Santander Brasil, em baixa de 0,03% - apesar de subir mais cedo -, o Ibovespa conseguiu sustentar recuperação parcial até o meio da tarde, mas perdeu fôlego em direção ao fechamento. Na semana, ele avança apenas 0,06%, ainda cedendo 4,16% no mês e 10,63% no ano.

O desempenho do índice no final do pregão veio em sintonia com o do mercado de Nova York, onde o investidor monitora a temporada de balanços. Hoje, Dow Jones caiu 0,74%, o S&P 500, 0,50% e o Nasdaq ficou estável (0%). O clima também foi negativo no mercado europeu, com Londres e Frankfurt cedendo ambos 0,33%, e Paris registrando baixa de 0,19%.

Na Ásia, os índices chineses de Xangai e Shenzhen baixaram 0,98% e 1,11%. No mercado de petróleo, a alta dos estoques nos EUA pesaram e o barril do WTI para dezembro recuou 2,35%, a US$ 82,66, enquanto o do Brent para janeiro teve queda de 2,08%, a US$ 83,87. Em resposta, as ações ON e PN de Petrobras baixaram 0,03% e 0,28% cada.

"Hoje houve balanços positivos, como o da Gerdau [em baixa de 2,50% no fechamento], com forte distribuição de dividendos. Enquanto os resultados das empresas mostram uma realidade diferente, a preocupação com o macro, com a política de forma geral, continua a preocupar, trazendo volatilidade", diz Alexandre Brito, sócio da Finacap Investimentos.

Na ponta do Ibovespa nesta quarta, destaque para Cogna, em alta de 5,58%, Eztec, de 4,99%, e Multiplan, de 4,57%. Na face oposta, PetroRio cedeu 6,63%, Méliuz, 4,55% e GetNet, 4,41%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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