Paul Yeung/Bloomberg
Paul Yeung/Bloomberg

Apesar do clima de aversão aos riscos, Bolsa sobe 0,1% e dólar cai a R$ 4,92

No exterior, avanço da variante Delta do coronavírus, especialmente na Europa, causa preocupação; por aqui, reforma tributária e CPI da Covid ficaram no radar do investidor

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2021 | 16h41
Atualizado 28 de junho de 2021 | 18h29

Apesar do clima de cautela aqui e no exterior, que predominou durante boa parte da sessão, a Bolsa brasileira (B3) conseguiu virar já no final do pregão e fechou com leve ganho de 0,14%, aos 127.429,17 pontos nesta segunda-feira, 28. No câmbio, o dólar também ignorou a aversão aos riscos e cedeu 0,19%, cotado a R$ 4,9283. Hoje, investidores ficaram de olho no avanço da covid no mundo e também na CPI da Covid e na reforma tributária.

Neste começo de semana, fatores internos - a má recepção à proposta de tributação apresentada pelo governo na última sexta, mesmo dia em que houve desdobramentos negativos na CPI da Covid, com potencial para dificultar a governabilidade de Jair Bolsonaro -, preocuparam o mercado. Teme-se que o desgaste do presidente e novas fissuras em sua base de apoio no Congresso atrapalhem a votação de reformas. O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), protocolou notícia-crime contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal sobre suposto caso de prevaricação relacionadas à aquisição da Covaxin.

Sobre a reforma, "houve uma reação diferente na sexta-feira ao pacote tributário, na medida em que se coloca na conta que o governo não costuma obter aprovação para suas iniciativas exatamente da forma como são encaminhadas. Desta vez foi diferente, e há muita atenção agora para a tramitação, em busca de mais clareza sobre essas medidas", diz Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

Sobre o cenário externo, Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch, observa que se, por um lado, o pacote de infraestrutura nos Estados Unidos, embora em dimensão abaixo da esperada inicialmente, sinaliza mais liquidez para a economia americana, por outro a variante Delta do coronavírus parece ganhar força global no momento em que a melhora da situação sanitária tem resultado em normalização da vida social e econômica.

"É preciso acompanhar o efeito que essa variante terá, principalmente sobre a situação hospitalar", diz Attuch, acrescentando como exemplo Israel, um dos países que mais avançaram com a imunização em massa, e que recentemente voltou a exigir o uso de máscaras em ambientes fechados. "O pico de crescimento econômico nos EUA provavelmente já ficou para trás, enquanto, na Europa, deve ser atingido no terceiro ou no quarto trimestre", acrescenta.

"A variante Delta, identificada inicialmente na Índia, preocupa. Na sexta-feira, a OMS (Organização Mundial de Saúde) falou sobre a necessidade de não se retirar as máscaras porque a variante é altamente contagiosa - isso, a variante, pode prejudicar inclusive as retomadas (econômicas) em alguns locais, o que se refletiu na volatilidade vista hoje nos índices de ações europeus", diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, acrescentando que tal preocupação não se fez notar, da mesma forma, nos mercados da Ásia e dos EUA - ele destaca, em particular, a leitura sobre os lucros industriais na China em maio.

"Não é à toa que se está dando mais atenção para a variante Delta. Havia uma queda vertiginosa de casos em países como o Reino Unido, de vacinação bem adiantada, e agora se vê alguma reversão. Parecia que a curva de casos não voltaria a subir com a vacinação, e é preocupante porque se sabe que há resistência de parte da população às vacinas, em várias partes do mundo", observa Cruz, da RB Investimentos.

No mês, o Ibovespa sobe 0,96% e, no ano, 7,07%. Na ponta negativa do índice, destaque para perdas de 2,62% em Iguatemi; de 2,11% em JHSF; de 1,98% em BR Malls, e de 1,94% em Cosan. Entre as ações de grande peso no índice, o dia também foi negativo para Petrobrás PN e ON, em queda de 0,17% e 0,44% cada, enquanto Vale ON cedeu 1,60%. 

O setor bancário também ficou no vermelho com baixa de 1,14% para Itaú. "Os grandes bancos são grandes pagadores de dividendos e, por isso, diretamente afetados pela possibilidade de taxação em 20% da distribuição dos lucros nesse formato no curto prazo. Por outro lado, no longo prazo, aumenta o estímulo para que essas empresas reinvistam em seus próprios negócios, o que é positivo para seu crescimento e deve amenizar o efeito negativo nas ações", aponta Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos.

Câmbio

Depois deu uma manhã volátil e de operar de lado pela maior parte da tarde, o dólar perdeu força na reta final do pregão e encerrou o dia em terreno negativo. Operadores atribuíram a queda da moeda americana a fluxos pontuais de entrada de recursos e ao tom ameno de declarações de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano). Hoje, a moeda para julho cedeu 0,71%, a R$ 4,9250.  Com as perdas de hoje, a moeda americana acumula uma desvalorização de 5,68% no mês.

Hoje à tarde, o vice-presidente de Supervisão do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), Randal Quarles, afirmou que as pressões sobre os preços parecem transitórias e devem se dissipar. Ele também disse que, por ora, o Fed não está "atrás da curva" em relação à inflação. O presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, afirmou que houve um "progresso substancial" em relação à meta de inflação, o que poderia abrir espaço para o início do processo de redução de estímulos à economia.

"Os Estados Unidos estão crescendo e o risco de inflação está no ar. Mas o Fed não vai mexer nos juros rapidamente ou reduzir a recompra de títulos", afirma Marcos Weigt, head de tesouraria do Travelex Bank, ressaltando que as atenções se voltam agora para o payroll de junho.

Lá fora, o dólar teve um desempenho misto em relação às principais divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com queda em relação à lira turca e ao rublo, estabilidade na comparação com o peso mexicano e forte alta ante o rand sul-africano. No exterior, a moeda americana perdeu espaço para o iene, ativo considerado mais seguro. No fechamento, o índice DXY, que mede a variação da divisa dos EUA contra seis pares, subiu 0,04%. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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