Amanda Perobelli/ Reuters
Amanda Perobelli/ Reuters

Dólar sobe 1,26% e Bolsa cai com risco de governo adotar outras saídas para o Auxílio Brasil

Diante da falta de apoio para votar a PEC dos Precatórios, lideranças políticas já discutem a possibilidade de nova decretação de calamidade para bancar o programa social

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 14h32
Atualizado 28 de outubro de 2021 | 18h37

O impasse em torno da PEC dos Precatórios, cuja votação, marcada para ontem, foi adiada para semana que vem, alimentou a cautela do mercado nesta quinta-feira, 28, principalmente diante da informação de que lideranças políticas já se posicionam para buscar uma alternativa. A esse cenário, se somou ainda a avaliação de que o Banco Central não foi duro o bastante com a Selic, agora a 7,75%. Em resposta, o dólar fechou em alta de 1,26%, a R$ 5,6253, enquanto a Bolsa brasileira (B3) caiu 0,62%, aos 105.704,96 pontos -  menor nível de encerramento desde 13 de novembro de 2020.

O dólar à vista já abriu a sessão em alta e ultrapassou a marca de R$ 5,60 na primeira hora de negócios. O pior momento veio no início da tarde, quando a moeda americana correu até a máxima de R$ 5,6358, alta de 1,45%, em meio a rumores de que, dadas dificuldades para a aprovação da PEC dos Precatórios, o governo estudaria a possibilidade de decretar estado de calamidade pública, abrindo espaço para despesas fora do teto de gastos e renovação do auxílio emergencial, por meio da aprovação de créditos extraordinários.

Logo em seguida, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-R), disse ao Estadão/Broadcast que não vai haver prorrogação do auxílio emergencial e nem decretação do estado de calamidade porque a PEC dos Precatórios será aprovada na próxima quarta-feira, 3, em sessão presencial da Câmara.

Na mesma linha, o ministro da Cidadania, João Roma, disse que o governo está focado "na aprovação da PEC" e não "há plano B". Em entrevista para comentar o resultado das contas do governo central, o subsecretário de Planejamento Estratégico da Política Fiscal do ministério da Economia, David Rebelo Athayde, disse que "não tem possibilidade de a equipe econômica defender a ideia de que haja um novo decreto de calamidade pública".

No entanto, depois da debandada de parte da equipe econômica na semana passada, puxada pela saída do secretário de Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, cresceram as dúvidas sobre a capacidade do ministro da Economia, Paulo Guedes, de se contrapor ao desejo da ala política do Planalto por ampliação das despesas.

Hoje, nem mesmo a divulgação de superávit de R$ 303 milhões do governo central em setembro, acima da mediana do Projeções Broadcast (déficit de R$ 4,250 bilhões), arrefeceu os temores de degringolada fiscal em meio ao abandono informal do teto de gastos. A fotografia das contas públicas pode ser boa, mas a história que o filme conta caminha para um final muito ruim, dizem analistas.

Para o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto, a tese de que uma taxa Selic maior daria sustentação ao real não se sustenta, mesmo após o Banco Central sinalizar outro aumento de 1,5 ponto porcentual em dezembro. "O problema é a percepção de risco elevada com essa incerteza sobre a política fiscal", diz.

"A alta de 1,5 ponto porcentual (na Selic ontem) e o compromisso de mais um aumento não foi suficiente para o mercado. Mostrou um BC reativo ao cenário econômico - inflação alta e aumento do risco fiscal -, e não proativo para antecipar os problemas. Somente acompanhar o rumo certamente fará o Copom 'correr atrás da curva'", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Hoje, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 caiu de 8,473% para 8,40% e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 11,529% para 12,40%, fechando perto da máximas de 12,405%.  A do DI para janeiro de 2025 fechou em 12,51%, de 11,817% ontem, e a do DI para janeiro de 2027, em 12,47%, de 11,905%.

"O BC continua atrás da curva e, sozinho, sem a âncora fiscal, não está conseguindo segurar a ponta longa dos juros. Os preços dos ativos estão cada vez mais baixos, mas o ruim sempre pode ficar pior", diz Ricardo Campos, CEO da Reach Capital

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - operou em queda firme, na casa de 93,300, sobretudo por conta do fortalecimento do euro, na esteira de declarações mais duras da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. Por aqui, com o avanço nesta quinta-feira, as perdas do dólar na semana foram praticamente apagadas (-0,04%). No acumulado do mês, a moeda americana avança 3,29%

Bolsa

Em meio ao impasse sobre a votação da PEC dos Precatórios, com o governo parecendo encontrar dificuldade para reunir quórum para uma aprovação segura, o Ibovespa voltou a mostrar nervosismo nesta quinta quanto à evolução do fiscal em 2022, no dia seguinte à elevação da Selic a 7,75% ao ano, com sinalização do Copom para outro aumento de 1,5 ponto porcentual em dezembro - indicação que não convenceu o mercado, que aposta em ajuste maior tanto em dezembro como em fevereiro.

Com isso, o Ibovespa se descolou de Nova York, com S&P 500 e Nasdaq renovando máximas históricas de fechamento, em altas de 0,98% e 1,39% cada. Já o Dow Jones subiu 0,68% - os três operam na esteira de balanços positivos. Na semana, o principal índice de ações brasileiro cai 0,56%, cedendo 4,75% no mês e, agora, 11,19% no ano.

À espera do balanço trimestral após o fechamento de hoje, Petrobras ON e PN subiram 0,96% e 0,94% cada, exceção positiva entre as empresas de maior liquidez. Na ponta do Ibovespa, destaque para Ambev, em alta de 9,72%, após resultados considerados fortes para o terceiro trimestre, seguida por BRF, com 6,56% e Klabin, com 1,37%. Na face oposta do Ibovespa, Americanas ON baixou 8,60% e Vale, que também divulga resultado trimestral hoje, caiu 1,57%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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