Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Dólar recua a R$ 5,07 acompanhando bom humor do exterior; Bolsa realiza lucros

PIB abaixo do esperado dos Estados Unidos no segundo trimestre reforçou a importância da manutenção dos estímulos do Federal Reserve, o que ajuda a liquidez mundial

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 15h09
Atualizado 29 de julho de 2021 | 18h31

O bom humor do exterior, com os mercados americano, europeu e asiático fechando em alta, em dia de divulgação do PIB dos Estados Unidos do segundo trimestre, ajudou a aliviar a pressão do dólar ante o real nesta quinta-feira, 29, com a moeda americana em queda de 0,60%, cotada a R$ 5,0792. Esse foi o menor valor de fechamento desde 2 de julho. A Bolsa brasileira (B3), no entanto, foi na contramão do otimismo e realizou lucros, em baixa de 0,48%, aos 125.675,33 pontos.

Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu 1,6% no segundo trimestre do ano, informou o Departamento de Comércio nesta quinta, ante 1,5% nos primeiros três meses de 2021. Em uma base anualizada, o crescimento do segundo trimestre foi de 6,5%. A produção está significativamente abaixo de onde estaria se o crescimento continuasse em sua trajetória pré-pandemia.

O resultado vem em linha com o tom pró-estímulos adotado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no dia anterior, de manter os estímulos à economia dos Estados Unidos, incluindo os juros entre 0% e 0,25%. Dirigentes da entidade monetária, incluindo o próprio presidente do Fed, Jerome Powell, destacarm a importância de apoiar a economia e manter a liquidez, em um momento no qual a retomada ainda acontece de forma desigual.

Com isso, analistas afirmam que a aposta em alta mais pronunciada da taxa Selic e a perspectiva de manutenção de liquidez global farta nos próximos meses, principalmente após o tom pró-estímulos adotado pelo Fed - abrem uma janela para apreciação do real no curto prazo.

A taxa Selic mais gorda aumenta a atratividade da renda fixa brasileira e pode estimular os exportadores a internalizar mais recursos. Também conta a favor do real nas próximas semanas a possibilidade de elevação do fluxo externo de recursos para ofertas de ações na B3, que, até o momento, tem sido em sua maior parte absorvida por investidores locais. Com esse pano de fundo, já há quem veja a possibilidade de o dólar furar o piso de R$ 5, caso não haja solavancos do lado político.

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, vê uma janela favorável para o real no curto prazo, na esteira de entrada de dinheiro para aproveitar o diferencial de juros - com eventual alta de 1 ponto porcentual da Selic em agosto e sinalização de outra elevação de 1 ponto na sequência - e manutenção de um ritmo forte de exportações. "No quesito crescimento, apesar de cerca moderação na margem, o Brasil está em vantagem em relação a outros países, o que também favorece a moeda", afirma.

Para o economista-chefe Instituto Internacional de Finanças (IFF), Robin Brooks, os mercados sabem que a redução de estímulos nos Estados Unidos não virá em breve, o que dá impulso às moedas emergentes, "especialmente onde os bancos centrais estão subindo os juros, caso do Brasil". Brooks ainda vê o real 15% abaixo de seu valor justo, de R$ 4,50. "Os estrangeiros estão entusiasmados. O que é necessário para que os brasileiros fiquem um pouco menos negativos com seu próprio País...", escreve Brooks no Twitter.

Damico, da Armor, vê espaço para que o dólar fure o piso de R$ 5 no curto prazo, mas não acredita em taxa de câmbio na casa de R$ 4,60 ou R$ 4,50. No médio prazo, observa a economista, a tendência é de a moeda americana subir e encerrar o ano em R$ 5,30. "As pessoas também vão começar a olhar mais para os riscos eleitorais. Isso tudo torna o fim de ano um pouco mais difícil para a moeda", complementa a economista da Armor, lembrando também que ainda existem dúvidas também sobre o impacto da reforma tributária sobre as remessas de lucros e dividendos.

Na mínima de hoje, o dólar bateu em R$ 5,0422. Apesar do tombo recente, o dólar ainda acumula alta de 2,13% em julho. A moeda para agosto fechou em queda de 0,79%, a R$ 5,0790.

Bolsa

Em dia de dólar tendendo para baixo, com retomada de apetite por risco no exterior, o Ibovespa operou em via própria, alternando ganhos e perdas nas últimas seis sessões, que o mantêm agora, faltando apenas a sexta para o encerramento do mês, na mesma casa de 125 mil pontos em que havia iniciado julho. Na semana, o índice avança 0,50%, limitando a perda de julho a 0,89% que, caso se confirme amanhã, será a primeira desde fevereiro - após retração no primeiro bimestre, o índice subiu de março a junho. No ano, o Ibovespa acumula ganho de 5,59%.

"Nomes de peso, como Vale e Ambev, operaram hoje em queda mesmo após a divulgação de resultados surpreendentes no segundo trimestre. Apesar de recorde, Vale trouxe números bem em linha com os que haviam saído no relatório de produção. Da mesma forma, Ambev, com segundo trimestre bem robusto, apresentando recuperação muito forte da receita líquida, mas o mercado está de olho nas pressões de custo, que afetaram bastante as margens da empresa - que depende de trigo, uma commodity dolarizada", diz Victor Licariao, líder em produtos e alocação de renda variável da Blue3. Hoje, Vale ON cedeu 1,47% e Ambev ON, de 1,15%.

"O mercado hoje destoou do exterior, realizando no fato, ainda de olho nos bons resultados das empresas que vêm reportando, como os excelentes (números) apresentados pela Vale - sobe no boato, cai no fato. Em contrapartida, o setor siderúrgico, que estava um  pouco depreciado com todos esses temores externos, teve uma reviravolta e hoje despontou, também com base em resultados a serem divulgados aí pra frente. Ontem, o setor de bancos subiu, com os resultados do Santander, e hoje realizou um pouco, em movimento natural", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, que acredita em melhora adiante.

Entre as ações, CSN ON fechou em alta de 5,62%, à frente de Multiplan, com alta de 5,36%, Iguatemi, de 3,27% e de Usiminas, de 3,22%. Na face oposta, Pão de Açúcar cedeu 7,40%, Cogna, 2,88%, Weg, também 2,88%, e Totvs, 2,50%. Entre as ações de grande peso, Petrobrás PN subiu 0,36% e a ON cedeu 0,39%, enquanto a realização de lucros prevaleceu entre as ações do setor financeiro, com destaque para Banco do Brasil ON, em queda de 1,58%, Bradesco PN, de 0,96% e Unit do Santander, de 1,44%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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