Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Com exterior ameno, Bolsa avança 0,9% e repara parte das perdas do dia anterior; dólar sobe

Desempenho positivo dos mercados europeu e americano ajudaram o Ibovespa, que fechou com queda de 3% no dia anterior; dados favoráveis para a economia brasileira também colaboraram para o resultado

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 14h30
Atualizado 29 de setembro de 2021 | 18h25

Em sintonia com a melhora do humor nos mercados internacionais, em especial, o europeu e o americano, apesar das incertezas que cercam as principais economias internacionais, a Bolsa brasileira (B3) recuperou parte das perdas do dia anterior, quando fechou com queda de 3%. Nesta quarta-feira, 29, o principal índice acionário brasileiro subiu 0,89%, a 111.106,83 pontos, enquanto no câmbio, o dólar subiu 0,11%, a R$ 5,4303.

Na mínima, o índice caiu aos 110.124,71 pontos, enquanto na máxima, tocou nos 112 mil pontos. No mês, faltando apenas o pregão de amanhã, acumula perda de 6,46%, colocando a do ano a 6,65%. Na semana, cede até aqui 1,92%. Nas últimas cinco sessões, o Ibovespa alternou ganhos e perdas, refletindo grau maior de incerteza sobre o cenário externo, que se acrescenta às dúvidas internas, especialmente quanto ao fiscal. 

Também afetados pela aversão aos riscos do dia anterior, em Nova YorkDow Jones e S&P 500 subiram 0,27% e 0,16% cada, mas o Nasdaq caiu 0,24%. O dia foi positivo também para os índices da Europa, com Londres em alta de 1,14%, Paris, de 0,83% e Frankfurt, de 0,77%.

Hoje, o movimento de recuperação foi favorecido pelo dia moderadamente positivo no exterior e por uma série de dados domésticos mais promissores: a deflação vista no IGP-M, que caiu 0,64% em setembro, além dos números do Caged, com o País criando 372 mil vagas com carteira assinada em agosto, e dos gastos públicos, com a dívida pública desacelerando para 82,7% do PIB em agosto.

"A discussão sobre o aumento da inflação em um cenário de menor crescimento em várias economias tem se intensificado, começando a haver revisão de crescimento em alguns países, para baixo, com destaque para China e Estados Unidos. Como são duas grandes potências, acaba impactando o fluxo de investimentos para outros países, principalmente para as economias emergentes, entre as quais Brasil. A discussão sobre aumento de juros nos Estados Unidos antes do esperado, já em 2022, contribui para depreciação maior da nossa moeda", observa Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest.

Em evento do Banco Central Europeu (BCE) com autoridades monetárias dos principais BCs do mundo, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, atribuiu hoje o atual avanço da inflação à combinação de demanda robusta e restrições de oferta. Ele disse também que a perspectiva para a economia americana é positiva no médio prazo, embora ainda haja incerteza quanto à pandemia. Segundo Powell, a inflação ficará "bem acima" da meta nos Estados Unidos nos próximos meses, antes de começar a perder fôlego.

O presidente do Fed também se referiu ao que seria sua maior preocupação no momento: a possibilidade de tensão entre a meta inflacionária e o outro objetivo perseguido pelo BC americano, o de assegurar máximo emprego no país. Powell observou que o fato de as restrições de oferta, que elevam preços, ainda não terem melhorado significativamente é algo "frustrante".

"Os BCs têm dado boa orientação ao mercado sobre a direção da política monetária na fase em que estamos agora, de 'pré-anúncio do anúncio' da retirada de estímulos e posterior elevação de juros, especialmente nos Estados Unidos. BCs de economias emergentes, entre os quais o do Brasil, já vêm se antecipando a esse movimento, elevando juros. Se olharmos os DIs futuros, os longos estão caindo hoje, no que talvez seja um sinal de que haja muita gordura na curva de juros", diz Alexandre Brito, sócio da Finacap Investimentos.

"Na Bolsa, o que houve de recuperação hoje esteve mais concentrado no índice de materiais. A recuperação é ainda tímida em relação ao que se teve de correção, e considerando que os fundamentos das empresas não têm correspondido aos preços: a Bolsa continua barata.", acrescenta Brito.

Nesta quarta-feira, mesmo com o petróleo em baixa moderada na sessão, Petrobras ON e PN conseguiram fechar o dia em alta, respectivamente, de 1,51% e 1,59%. Com leve recuperação do minério de ferro na China, que tem oscilado nas últimas sessões entre ganhos e perdas após correção acentuada ao longo de setembro, Vale ON encerrou o dia em alta de 1,27%, limitando ganho em torno de 2% observado até perto do fim da sessão. Usiminas PNA avançou 6,15%, Gerdau PN, 1,84%, e CSN ON, 0,94%. Os grandes bancos mostraram ganhos de até 1,81% para Bradesco PN.

Câmbio

A sessão desta quarta foi marcada por mais uma rodada de amplo fortalecimento global do dólar a despeito da recuperação parcial dos índices acionários, após as perdas expressivas de ontem. Na rabeira entre as divisas emergentes nos últimos tempos, muito por

causa dos problemas fiscais e políticos domésticos, o real hoje foi destaque positivo da turma. Apesar da alta de mais de 0,60% do índice DXY (que mede o desempenho da moeda americana frente a seis divisas fortes) e dos ganhos de mais de 1% frente o peso mexicano e o rand sulafricano, considerados pares da moeda brasileira, o dólar mostrou fôlego reduzido no mercado doméstico.

Com trocas de sinais ao longo do dia, a moeda americana chegou até a furar a barreira dos R$ 5,40, descendo até a mínima de R$ 5,3929, baixa de 0,58%, no início da tarde. Na máxima, registrada também no período vespertino, o dólar atingiu R$ 5,4464, em alta de 0,41%. Em que pese o vaivém das cotações, a oscilação se deu em um intervalo pequeno, de cerca de cinco centavos. A moeda americana agora acumula valorização de 1,62% na semana e de 5% em setembro. O dólar para outubro caiu 0,26%, a R$ 5,4185.

Por aqui, o mercado segue de olho na tramitação da PEC dos Precatórios, essencial para que o governo coloque em pé o Auxílio Brasil em 2022 (nova versão do Bolsa Família). Em fala na Comissão que analisa o tema, o secretário especial de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Bruno Funchal, disse que o governo tem capacidade de pagar as dívidas judiciais e que o desafio, em relação aos precatórios, é "compatibilizar as despesas com o teto de gastos". Segundo Funchal, colocar o teto em xeque por causa do crescimento das despesas obrigatórias (precatórios) "não é o caminho".

Segundo o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, com os impasses no Congresso em torno da agenda econômica e o DXY na casa dos 94 pontos, não há como o dólar por aqui se manter abaixo de R$ 5,30. "O mais importante é que o dólar siga abaixo de R$ 5,52, a linha de tendência de longo prazo. Caso rompa, pode voltar a mirar novamente a região de R$ 5,70", diz Faria, acrescentando que a oferta de swaps extras é suficiente apenas para cobrir a demanda relacionada ao overhedge dos bancos.

Além disso, pesou sobre a moeda a fala de Powell, presidente do Fed, de que a economia americana está perto de atingir o progresso substancial necessário para o início da redução da compra mensal de ativos, processo chamado de 'tapering', o que fez o DXY atingir às máximas do dia. Mais uma vez, Powell tentou dissociar a diminuição dos estímulos ao momento de alta dos juros, que ainda "está longe de ocorrer". /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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