Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Ações da Petrobras despencam 6,5% com preocupação sobre ingerência na estatal, e Bolsa cai 2,09%

Estatal perdeu R$ 23,86 bilhões em valor de mercado após falas de Bolsonaro; Ibovespa fecha outubro em queda pelo quarto mês seguido, de 6,74%

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 16h29
Atualizado 29 de outubro de 2021 | 18h35

As ações das Petrobras amargaram perda de 6,5% nesta sexta-feira, 29, diante do temor de novas ingerências do governo na estatal, principalmente após o presidente Jair Bolsonaro defender que a empresa precisa focar mais nas questões sociais. O recuo da petroleira teve forte impacto na Bolsa brasileira (B3). O Ibovespa, principal índice da Bolsa, cedeu 2,09% e fechou o dia aos 103.500 pontos. No câmbio, o dólar subiu 0,37%, a R$ 5,6461. Com o resultado desta sexta, a Petrobras perdeu R$ 23,86 bilhões em valor de mercado, provocando prejuízos para as pessoas que investem em papeis da estatal.

Hoje, a Bolsa fechou no menor nível desde 12 de novembro. Em outubro, a queda foi de 6,74%, emendando seu quarto mês consecutivo em baixa, na sequência negativa mais extensa desde os quatro recuos seguidos entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014. Na semana, cedeu 2,63%.

As ações ordinárias da estatal tiveram baixa de 6,49%, enquanto as preferenciais cederam 5,90%. O resultado veio descolado do desempenho do petróleo no exterior, com o WTI para dezembro em alta de 0,92%, a US$ 83,57 o barril em Nova York, enquanto o Brent para o mesmo mês virou o sinal no final da sessão e avançou 0,07%, a US$ 83,72 em Londres.

Nem mesmo o resultado forte da petroleira ontem, com lucro de R$ 31,14 bilhões no terceiro trimestre, revertendo prejuízo do ano anterior, ajudou a aliviar o impacto da fala, também na quinta-feira, de Jair Bolsonaro, de que a empresa não deveria lucrar tanto e contribuir mais para o social, em referência ao preço do combustível. Na ocasião, o presidente também afirmou que busca uma maneira de 'mudar a lei' para conter os reajustes.

O presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, tentou amenizar os temores, ao dizer que a empresa obedece a leis e não poderia segurar os preços dos combustíveis. A fala, porém, teve pouco efeito, principalmente após 

No balanço julho-setembro, Petrobras trouxe "resultado muito forte, margens robustas e distribuição de dividendos de quase 10% em um trimestre", observa Romero Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos.

"Por outro lado, a declaração do presidente (Bolsonaro), no sentido de interferir na política de preços da empresa, assustou o mercado, elevando a percepção de risco", acrescenta Oliveira. "Com preço do petróleo em patamares elevados, e dólar nesses níveis, o mercado fica receoso quanto a medidas em viés populista, tendo em vista a queda de popularidade do presidente e a aproximação do período eleitoral. O mercado está precificando o aumento de possibilidade de alguma intervenção na empresa, o que resulta nesse movimento de venda, de saída do papel."

"Jair Bolsonaro afirmou que busca uma maneira de 'mudar a lei' para conter os reajustes dos combustíveis. O presidente também reclamou dos ganhos da estatal, pouco antes da empresa divulgar receita recorde no terceiro trimestre. Anunciou ainda pagamento adicional de R$ 31,8 bilhões em dividendos e quer usar 60% do fluxo de caixa (livre) para dividendos em 2022", observa em nota a equipe de análise da Terra Investimentos.

Para o Bank of America, as ações da Petrobras continuam a apresentar um bom risco/retorno, apesar das incertezas políticas envolvendo a estatal. O analista Frank McGann considera que os desafios de preços e o risco contínuo do Brasil seguem no radar, assim como as incertezas eleitorais.

A esse cenário também se soma às investidas recentes tanto de Bolsonaro quanto do ministro da EconomiaPaulo Guedes, em torno da privatização da estatal. No começo da semana, ao defender a venda, o ministro chegou a dizer que a estatal não irá valer mais nada daqui há trinta anos.

Além da Petrobras, o desempenho do Ibovespa na sessão foi condicionado também pelo de outra gigante das commodities, Vale, hoje em baixa de 2,84%, que trouxe resultados trimestrais abaixo do esperado, impactados pela correção do minério de ferro, cujo preço vem sendo afetado por ingerências do governo chinês sobre a produção local de aço. O setor de siderurgia como um todo esteve entre os maiores perdedores do dia, com Usiminas PNA em baixa de 7,54% e CSN ON, de 5,24%, no encerramento desta sexta-feira.

Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para Alpargatas, em queda de 10,56%, Banco Inter, de 9,14%, e Locaweb, de 8,50%. No lado oposto, as produtoras e exportadoras de proteína animal, beneficiadas pelo dólar forte: Minerva, em alta de 7,15%, Marfrig, de 5,33% e JBS, de 4,19%. Entre os grandes bancos, as perdas nesta sexta-feira chegaram a 2,88% para Bradesco PN.

Câmbio

Com muita volatilidade e trocas de sinais ao longo do dia, o dólar à vista acabou encerrando a sessão desta sexta em alta, alinhando ao sinal predominante da moeda americana no exterior. O real, contudo, apresentou perdas bem mais amenas que seus pares, como o rand sulafricano e o peso mexicano - movimento atribuído por operadores a fluxos pontuais de recursos e ajustes na rolagem de contratos futuros.

Na esteira do temor de ingerência na estatal, o dólar chegou a correr até a máxima de R$ 5,6629, alta de 0,67%, refletindo ainda as preocupações fiscais, apreensão com a paralisação dos caminhoneiros no dia 1°. Já a mínima, de R$ 5,598, baixa de 0,48%, veio ao longo da tarde, na esteira da fala novo secretário do Tesouro, Paulo Valle, de que pode atuar no mercado em conjunto com o Banco Central. Experiente funcionário de carreira do Tesouro, Valle - em apresentação de detalhes da PEC dos Precatórios - sinalizou que, além retirar oferta de títulos prefixados, o órgão pode intervir com a recompra de títulos.

Mas o alívio na taxa de câmbio foi momentâneo. Com a aceleração da queda do Ibovespa o ambiente externo ruim para divisas emergentes, o dólar acabou recuperando fôlego e voltou não apenas a ser negociado acima de R$ 5,60 como tocou na casa de R$ 5,65. Com o avanço desta sexta-feira, a moeda fechou a semana com variação de 0,33% e acumulou valorização de 3,67% em outubro, após ter subido 5,30% em setembro. 

O diretor da corretora Correparti, Ricardo Gomes da Silva, não vê espaço para um alívio na taxa de câmbio no curto prazo e prevê nova onda de "estresse" na semana que vem com as negociações para votação da PEC dos Precatórios e a divulgação da ata do Copom, além das repercussões da paralisação dos caminhoneiros. "A pressão continua forte. Não sei se vai haver quórum para votação da PEC e o texto pode ser modificado. Mas mesmo que seja aprovada na Câmara, a PEC não deve passar no Senado", avalia. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ, LUÍSA LAVAL E MAIARA SANTIAGO

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