Paul Yeung/Bloomberg
Paul Yeung/Bloomberg

Bolsa cai aos 126 mil pontos e dólar sobe 0,6% com CPI da Covid e crise hídrica

Apesar do desempenho negativo, Ibovespa fecha mês e semestre com ganhos, enquanto dólar acumula queda de 4,82% em junho, a maior desde novembro de 2020

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 14h48
Atualizado 30 de junho de 2021 | 18h26

O ambiente doméstico negativo, diante dos desdobramentos em torno da CPI da Covid e também das preocupações com a crise hídrica, afetou os ativos locais nesta quarta-feira, 30, em um dia marcado ainda pela tensão no exterior, ante o avanço da variante Delta da covid. A Bolsa brasileira (B3) fechou em queda de 0,41%, aos 126.801,66 pontos - no menor nível desde 31 de maio -, mas termina o mês e o semestre com ganhos. Já o dólar subiu 0,63%, a R$ 4,9732, no maior patamar desde o último dia 21.

Na mínima do dia, a moeda americana bateu em R$ 4,9529, enquanto na máxima, subiu a R$ 5,0227. Apesar do estresse da sessão de hoje, a moeda americana fechou junho com queda de 4,82%. Foi a maior baixa desde novembro de 2020 e o terceiro mês consecutivo de desvalorização da divisa americana ante o real. O dólar para agosto fechou em alta de 0,31%, a R$ 4,9860.

Por aqui, pesaram nas mesas de operação o aumento do risco político, com as investigações da CPI da Covid sobre suposta propina na compra de vacinas, e os temores de que a crise hídrica prejudique o crescimento econômico. A comissão parlamentar aprovou hoje a convocação do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, que teria interferido a favor da aquisição da vacina indiana Covaxin, cuja proposta de compra acabou sendo cancelada. Ontem à noite, surgiu nova denúncia de suposto esquema de propina para aquisição da vacina da AstraZeneca.

O presidente Jair Bolsonaro reagiu hoje e, em discurso no Mato Grosso do Sul, afirmou que "não vai ser com mentiras ou com CPI integrada por sete bandidos que vão nos tirar daqui". Bolsonaro, contudo, fez um afago ao Congresso ao dizer que os "amigos do Legislativo" têm dado "grande apoio" as propostas apresentadas pelo governo.

O economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia destaca o mau humor do mercado com os ruídos políticos e o "tom populista" da proposta de reforma tributária apresentada pelo governo. "O mercado só não piorou mais porque acredita que, do jeito que está, a reforma não vai ser aprovada", diz Miraglia, ressaltando que o ambiente político é "desafiador", com as investigações na CPI da Covid podendo estimular o governo a adotar medidas populistas, já de olho nas eleições do ano que vem. "O nosso cenário base é um dólar a R$ 5,30 no fim do ano, com todos esses riscos aqui dentro e um dólar mais forte no mundo", afirma.

Lá fora, o clima é de apreensão com o possível avanço da variante Delta do coronavírus, que ameaça se espalhar pela Europa, o que tende a fortalecer a moeda americana. O dólar subiu hoje em relação à divisas emergentes e de exportadores de commodities, à exceção da lira turca e do rand sul-africano. O índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana em relação a seis divisas fortes, como euro, iene e libra, operou em alta por todo o dia.

O estrategista Gautam Jain, da Ohmresearch, em Nova York, avalia que, apesar da valorização recente, o real ainda tem um desempenho ainda levemente abaixo das demais divisas emergentes, o que abriria espaço para uma apreciação adicional no curto prazo. Ele ressalta, contudo, que a volatilidade do real costuma ser três vezes superior a de seus pares. "Em termos ajustados em relação ao risco, nós não consideramos que valha a pena apostar no real, especialmente na comparação com o peso mexicano e o chileno", completa. 

Bolsa

Embora relativamente acomodado após um início de mês expressivo, o Ibovespa emendou em junho o quarto mês de ganho, desta vez limitado a 0,46%. Nesta última sessão do mês, o giro financeiro foi de R$ 32,1 bilhões. Na semana, o índice cede 0,36% até esta quarta-feira. No segundo trimestre, o ganho acumulado pelo Ibovespa ficou em 8,01%, após perda de 2,00% entre janeiro e março. No primeiro semestre de 2021, o avanço é de 6,54%. 

Nesta última sessão do mês, voltou a predominar a cautela, em dia de dólar alto e índices mistos no exterior, com destaque para a queda em torno de 1% das Bolsas da Europa. Os dados econômicos mostrando melhora da arrecadação federal, bem como das contas do governo central, acabaram obscurecidos pelos receios sobre a inflação, agora sob pressão de alta na tarifa de energia por causa da crise hídrica.

Por outro lado, os dados econômicos continuam a inspirar otimismo. "Para o investidor, as notícias trazem bons ventos, especialmente diante das discussões sobre riscos fiscais da reforma tributária. A arrecadação deve continuar a ser uma importante âncora positiva, apontando para potencial queda, ainda maior do que a esperada, da dívida. Porém, apesar do alívio de curto prazo alavancado pela inflação, o contexto fiscal segue como fator central na percepção de risco do País", diz Rachel de Sá, chefe de Economia da Rico Investimentos.

Diante dos ganhos dos contratos de petróleo no exteriorPetrobrás ON e PN fecharam o dia respectivamente em alta de 2,06% e 0,86%, com Vale ON subindo 0,66%, mostrando avanço moderado nesta quarta-feira, bem negativa mais uma vez para as ações de bancos, ainda pressionadas pelas novidades tributárias, com perdas que variaram no fechamento de hoje entre 0,93% para Banco do Brasil e 2,29% para Santander. O setor de siderurgia também fechou na maioria em baixa, com destaque para Gerdau PN, em queda de 2,15%.

Em dólar, o Ibovespa fechou junho a 25.496,99 pontos após ter chegado a superar a marca de 26 mil no início do mês. No fechamento de 2020, o índice da B3 em dólar estava em 22.937,77. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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