Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Dólar recua apesar de cenário político movimentado, mas Bolsa é pressionada e cai

Notícia de que governo, Legislativo e Judiciário tentam juntos achar uma solução para o problema dos precatórios agradou o mercado, mas desentendimento entre Poderes ainda preocupa

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2021 | 15h07
Atualizado 30 de agosto de 2021 | 18h29

O ambiente interno acabou afetando o desempenho do mercado local, apesar do bom humor visto no exterior nesta segunda-feira, 30. A notícia de que governo, Legislativo e Judiciário tentam juntos achar uma solução para a dívida dos precatórios agradou os investidores, com o dólar fechando em queda de 0,12%, cotado a R$ 5,1893. No entanto, o cenário político tenso, com organizações pedindo harmonia entre os Poderes, pesou na Bolsa brasileira (B3), que cedeu 0,78%, aos 119.739,96 pontos.

Depois da queda de 3,52% na semana passada, o dólar até ensaiou um movimento de alta nas primeiras horas de negócios espelhando cautela com os problemas locais, mas acabou perdendo fôlego ainda pela manhã. Na mínima, a moeda bateu em R$ 5,1826 - na máxima, foi a $ 5,2266. No acumulado de agosto, a moeda americana acumula desvalorização de 0,40%. O dólar para setembro caiu 0,34%, a R$ 5,1855.

Lá fora, o DXY - que mede o desempenho da moeda americana em relação a seis divisas fortes - operou entre estabilidade e ligeira queda ao longo da tarde, na casa de 92,600 pontos. O dólar perdia mais de 0,30% em relação ao peso mexicano e ao rand sul-africano, considerados pares do real.

Ainda ecoa no mercado o tom ameno do discurso de sexta-feira do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Embora tenha sinalizado o início da redução do volume mensal de bônus neste ano, chamado de 'tapering', Powell afirmou não há ligação direta entre o processo e alta dos juros.

Não por acaso, operadores atribuíram parte da alta da moeda americana no início do dia às tensões fiscais e política, na esteira do anúncio de que Banco do Brasil e Caixa estavam deixando a Febraban, por discordarem de teor de comunicado assinado pela entidade que supostamente traria críticas ao governo Jair Bolsonaro. Também se comentava sobre a apreensão com uma escalada retórica do presidente na semana que antecede os protestos de 7 de setembro.

Segundo a Febraban, o objetivo era defender a "harmonia dos três Poderes". A instituição esclareceu não participar de elaboração de texto com ataques ao governo ou à política econômica, e que a intenção era pedir "serenidade, harmonia e colaboração entre os Poderes". "Nenhum outro texto foi proposto e aprovação foi só para documento submetido pela Fiesp", diz a Febraban.

"O documento passa pano. Fala para os Três Poderes, como se os Três Poderes estivessem prejudicando o País. Não é verdade, quem está prejudicando o País é Bolsonaro", afirmou o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, conhecido como Juruna, ao Estadão.

No cenário fiscal, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), haviam dado declarações a favor de uma solução negociada com o Judiciário para os precatórios (no lugar da PEC enviada pelo Executivo) e reforçado o compromisso com o teto de gastos. Pacheco e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) devem se reunir amanhã com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, para discutir o tema.

Para o head de mesa específica para câmbio e operações PJ, da Wise Investimentos, Gustavo Gomiero, a notícia do encontro entre Pacheco, Lira e Fux contribuiu para a perda de fôlego do dólar. "Se conseguir uma solução para adiar os pagamentos para o ano que vem, vai dar um alívio fiscal", afirma Gomiero, que vê um cenário propício para apreciação do real e afirma que o "dólar já estaria abaixo de R$ 5" não fossem as tensões políticas locais.

Na avaliação da economista chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, os problemas fiscais e políticos continuam a prejudicar o desempenho do real, a despeito da percepção de fluxo de recursos de investidores estrangeiros, provavelmente para a renda fixa.

"Ainda tem essa equação a ser resolvida em torno de Auxílio Brasil, Precatórios e reforma do Imposto de Renda com a LOA (Lei Orçamentária Anual), que deve ser apresentada amanhã. Isso acaba atrapalhando a formação da taxa de câmbio", afirma Abdelmalack, acrescentando que, como amanhã tem formação da Ptax de agosto, o mercado já carrega um componente mais técnico, com movimento de exportadores no pré-fechamento do mês.

Entre os dados domésticos, destaque para as contas do governo central, que registraram déficit primário em julho. No mês passado, a diferença entre as receitas e as despesas ficou negativa em R$ 19,829 bilhões, menor que as expectativas do mercado financeiro, cuja mediana apontava saldo negativo de R$ 25,750 bilhões. Ainda assim, o resultado - que reúne as contas do Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central - foi o terceiro pior desempenho para o mês da série, iniciada em 1997.

Bolsa

O Ibovespa chega amanhã à última sessão de agosto acumulando perda de 1,69% no mês, após se dissociar hoje do bom humor de Nova York, com S&P 500 e Nasdaq em novas máximas históricas. Hoje prevaleceu a cautela sobre o cenário doméstico, em semana que reserva leitura sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do segundo trimestre e a definição do valor da tarifa de energia elétrica, da bandeira vermelha 2, para setembro.

Aqui, "depois de encerrar o último pregão na máxima, nada mais natural do que uma correção para o mercado. E o volume muito abaixo da média corrobora essa expectativa - em movimento de queda liderado por bancos e construção", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. "O grande desafio em termos gráficos fica por conta do rompimento da média móvel de 21 dias descendente na faixa de 121 mil pontos, pois irá interromper o 'momentum' de baixa de curtíssimo prazo e abrir caminho para a faixa de 124 mil pontos", acrescenta.

Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para queda de 4,04% em Cyrela, à frente de Cogna, com baixa de 3,83% e de Yduqs, com 3,76%. Na face oposta, Americanas ON subiu 2,69%. Entre as ações de grande peso no índice, Petrobras ON cedeu 1,24% e Vale ON caiu 0,64%. Entre os bancos, Bradesco teve queda de 1,07%, Banco do Brasil, de 0,95% e Itaú, de 0,72%. /ANTONIO PEREZ, LUIS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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