Gustavo Scatena/B3 - 21/10/2020
Gustavo Scatena/B3 - 21/10/2020

Bolsa fecha setembro em queda de 6,57% e tem pior resultado mensal desde março de 2020

Dólar terminou último pregão do mês com alta de 0,3%; azedou o humor do mercado possibilidade do governo contrariar a equipe econômica e prorrogar o auxílio emergencial

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 14h40
Atualizado 30 de setembro de 2021 | 20h16

O último pregão do mês foi marcado pelos investidores atentos às movimentações de uma ala do governo para prorrogar o auxílio emergencial, enquanto o Auxílio Brasil não sai do papel. Nesta quuinta-feira, 30, com a ajuda do Banco Central, o dólar segurou os ganhos e subiu 0,29%, a R$ 5,4462, enquanto a Bolsa brasileira (B3) seguiu Nova York para fechar com queda de 0,11%, aos 110.979,10 pontos. Ela termina setembro com recuo de 6,57, o terceiro pior resultado mensal desde o início da pandemia, em março.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, uma ala do governo defende a inclusão da prorrogação do auxílio emergencial na PEC dos Precatórios, ideia que encontraria resistências no ministério da Economia. Se não foi incluída na PEC, a extensão do auxílio emergencial, adotado para lidar com os efeitos da pandemia do coronavírus, pode ser feita por crédito suplementar (fora do teto de gastos).

O Estadão/Broadcast também apurou que, em reuniões organizadas pela XP Investimentos e BTG pela manhã, o secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, afirmou que não assinaria qualquer medida relacionada à prorrogação do auxílio emergencial. Segundo relato de fontes Funchal adotou um tom pessimista e disse que há muitas pressões políticas para aumentar o gasto público. A própria equipe econômica não vê hoje fundamento legal para uma nova rodada da ajuda aos vulneráveis.

A escalada do dólar, que bateu em R$ 5,4758, alta de 0,84% na máxima, só diminuiu após intervenção inesperada do Banco Central com a oferta de até 10 mil contratos (US$ 500 milhões) de swap cambial - equivalente à venda de dólares no mercado futuro -, absorvida integralmente pelo mercado. Na prática, o BC injetou dinheiro no sistema com uma operação equivalente a venda de dólar futuro. Foi a primeira intervenção "surpresa do BC" desde 8 de julho, quando o dólar bateu R$ 5,30. Naquela época, o BC também ofertou também US$ 500 milhões.

Este foi o sétimo pregão seguido de ganhos da moeda americana, que encerrou setembro com valorização de 5,30% - resultado só inferior ao mês de janeiro, quando subiu 5,51%.

Na avaliação do diretor de estratégia da Inversa, Rodrigo Natali, não havia disfuncionalidade do mercado nem restrição de liquidez que justificasse uma intervenção do Banco Central hoje. "A impressão é de que ele está querendo forçar a barra e segurar o câmbio para tentar de alguma forma conter a inflação e não subir tanto os juros", afirma Natali, que chama a atenção para o volume de intervenções do BC no câmbio. "O problema é que isso não funciona e mostra fraqueza do Banco Central, diz.

"O BC tentou se adiantar a pressão de fim de ano já oferecendo swap, mas acabou piorando a situação, porque deixou o mercado com a impressão de quer é diminuir a fricção no dólar por que está atrás da curva (na condução da política monetária)", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, ressaltando que tem tesouraria querendo "peitar o BC".

O diretor da corretora Correparti, Ricardo Gomes da Silva, observa que o BC precisava atuar para evitar uma alta mais acentuada da moeda. Além das questões domésticas, Gomes da Silva ressalta que, apesar da moeda americana ter perdido força entre a maioria das divisas emergentes hoje, a tendência é de valorização do dólar no exterior por conta da perspectiva redução da liquidez por conta do início da redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos.

"O mercado se antecipa ao encurtamento da liquidez por conta do 'tapering' [redução do programa de compra de ativos], e ainda pelo aperto monetário via elevação dos juros em 2022. E aí não tem jeito, o dólar vai continuar valorizando", afirma o diretor da Correparti, que chama a atenção para declarações mais duras do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell.

Em fala no Congresso americano hoje, Powell disse que o quadro inflacionário é "frustrante", diante de gargalos na cadeia de produção que perduram e parecem piorar. Isso, disse Powell, deve levar a inflação a ficar mais elevada por mais tempo do que o esperado anteriormente. O presidente do BC espera algum "alívio apenas no primeiro semestre de 2022".

O índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes - chegou a operar em alta, na esteira do discurso de Powell, mas depois arrefeceu e passou a trabalhar entre estabilidade e ligeira queda. É preciso ressaltar, contudo, que o índice vem de uma sequência relevante de alta e já está na casa dos 94 pontos.

Bolsa

O Ibovespa tentou, mas não conseguiu se manter em alta nesta quinta. Na semana, ele cede agora 2,03%. No ano, o índice vira diametralmente e cai 6,75% ao fim do terceiro trimestre. O desempenho negativo de hoje, além das questões internas, foi apoiado também no exterior. Em Nova York, Dow Jones caiu 1,59%, S&P 500, 1,19% e Nasdaq, 0,44%. Na Europa, a Bolsa de Londres cedeu 0,31%, a de Paris, 0,62% e a de Frankfurt, 0,68%.

"O fechamento de setembro foi bem negativo, após uma manhã que sugeria algo melhor para a sessão", diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos. "Tivemos outros pontos que pesaram para o Ibovespa no mês, além de auxílio emergencial e teto de gastos, e toda a conversa sobre o tapering, em torno do que o Fed fará, se a economia continuará a caminhar, com as próprias perdas, quando esses estímulos forem retirados (nos EUA)", acrescenta.

As ações metálicas foram favorecidas pela China hoje, "com o PMI industrial interrompendo o movimento de queda recente", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Destaque para o setor de siderurgia, com Gerdau PN em alta de 3,95%, CSN ON, de 3,05%, e Usiminas PNA, de 2,68%, vindo o segmento de longa correção decorrente do ajuste negativo nos preços do minério de ferro em setembro - em estabilização e recuperação recente. Vale ON fechou em leve alta de 0,58%, enquanto Petrobras ON e PN cederam, respectivamente, 0,07% e 0,58%. /ANTONIO PEREZ, LUIS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.