Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa recua 0,8% com cenário político tenso e Orçamento do ano que vem; dólar cai

Segundo operadores, projeto orçamentário divulgado hoje não reduz as incertezas sobre as contas públicas, atualmente pressionadas pelas eleições e pela perda de popularidade de Bolsonaro

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 14h41
Atualizado 31 de agosto de 2021 | 18h41

O último pregão do mês foi negativo para os ativos locais, com a Bolsa brasileira (B3) fechando em queda de 0,80%, aos 118.781,03 pontos nesta terça-feira, 31, acumulado queda de 2,48% em agosto. Além da realização de lucros típica do final do mês, o investidor observou os impasses no cenário político, em dia de apresentação do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) do governo para o ano que vem. No câmbio, o dólar caiu 0,34%, a R$ 5,1719.

Nesses dois últimos meses, o Ibovespa acumula retração de 6,32%, intervalo no qual o otimismo sobre a recuperação econômica e a relativa melhora das contas públicas deram lugar, rapidamente, a sinais de deterioração, puxada por perspectiva pior para o fiscal, pelo avanço da inflação e por ruídos políticos que se avolumaram, desembocando em crise institucional - situação que se agravou de forma a levar entidades empresariais a esboçar "manifestos" em defesa da harmonia entre Poderes, divulgados ou não, às vésperas do 7 de setembro. No ano, o índice cai 0,20%, acumulando queda de 1,57% na semana.

No Brasil, "há um imbróglio complexo entre política e fiscal, um não desenrolando o outro, e com STF e passeata (de 7 de setembro) no meio. E as reformas, sem avanço, assim como a definição sobre como ficarão o futuro Bolsa Família e o pagamento de precatórios. O exterior segue positivo e líquido. Há espaço para subir", diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vítreo.

A instabilidade crescente - agravada pela queima de largada no calendário eleitoral em meio à queda de popularidade do presidente Bolsonaro - traduz a perda de capacidade de iniciativa do governo, via reformas, mesmo com o Centrão abrigado no Palácio do Planalto. Aparente perdedor, o ministro da Economia, Paulo Guedes, passou da condição de 'Posto Ipiranga' à de 'Faria Loser', transformado em efígie de cédula "lambe-lambe" pregada no coração financeiro de São Paulo, dias depois de mostrar tolerância, senão conformismo, com o nível da inflação.

Com os ruídos políticos contaminando a pauta econômica, há também a percepção de que, independente de quem esteja sentado na cadeira de ministro, e da habilidade de interlocução ou de expressão verbal que possa ter, é difícil avançar quando o foco está no modelo da eleição - que só ocorrerá em 2022 - e na instabilidade institucional. "O foco do Congresso foi para se a urna vai disparar ou não voto impresso, se há ameaça ou não à democracia, de forma que a agenda econômica foi ficando de lado", observa Knudsen, da Vítreo.

Ainda assim, leniência com o avanço dos preços reforça o temor do mercado quanto a uma guinada populista na gestão fiscal, com o presidente Jair Bolsonaro atrás nas pesquisas de intenção de voto frente a Lula - e analistas políticos considerando mesmo a possibilidade de que não tenha força para chegar a um segundo turno contra o favorito no momento, o ex-presidente.

Nesta tarde, o Ministério da Economia apresentou o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2022. Segundo a proposta, o teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à inflação, terá um crescimento de R$ 136,6 bilhões no próximo ano, e gasto total sujeito ao teto poderá chegar a R$ 1,61 trilhão no ano que vem.

A proposta considera o total de R$ 89,1 bilhões em despesas com precatórios, antes da solução que está sendo costurada pelos três Poderes para adiar uma parte dessa despesa, e não prevê nenhuma ampliação no Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil. Segundo a Economia, o Orçamento de 2022 destina R$ 34,7 bilhões ao programa social, o que seria suficiente para alcançar 14,7 milhões de famílias.

Operadores comentaram, mais cedo, que a peça orçamentária não reduz as incertezas em relação à condução das contas públicas, em meio ao aumento da pressão por gastos no ano que vem, por causa das eleições.

"O mercado mais uma vez estressado, também com o Orçamento, que parece que não para de pé, já bem próximo de deadline. O mercado segue preocupado com o fiscal: andamos, andamos, e sempre voltamos para o mesmo assunto, o perigo fiscal no Brasil e a discussão do Orçamento, que não para de pé, o que se reflete não só na Bolsa, mas também no câmbio", diz Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos.

Nesta última sessão de agosto, leitura desfavorável sobre o nível de atividade na China manteve as ações de commodities sob pressão, com perda de 1,37% para Vale ON e de 3,92% para Petrobras PN, e recuo de até 4,99% para CSN ON no setor de siderurgia. O efeito foi em parte contrabalançado pelo desempenho majoritariamente positivo do setor financeiro na sessão, recuperado no fechamento, com ganhos de 0,56% para Bradesco PN a 1,57% para a Unit do Santander. Na ponta do Ibovespa, destaque para alta de 5,60% em Braskem, à frente de Copel, com 4,11%.

Câmbio

O dólar caiu hoje alinhado à maré positiva para moedas emergentes no exterior, movimento atribuído tanto a dados fracos dos Estados Unidos, quanto à continuidade dos ajustes ao tom ameno do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, na sexta-feira. Com máxima a R$ 5,1978 e mínima a R$ 5,1167, a moeda americana fecho agosto com desvalorização modesta de 0,73%, após ter subido 4,76% em julho. No pior momento deste mês, a moeda americana chegou a superar R$ 5,40, ao fechar a 5,4228, no dia 19. O dólar para outubro subiu 0,57%, R$ 5,1785.

Afora uma alta pontual logo após a abertura do pregão, o dólar trabalhou em queda durante todo o dia, com perdas mais acentuadas pela manhã, em meio à disputa pela formação da Ptax de agosto, referência para contratos futuros e balanços corporativos. Dados positivos da economia brasileira  teriam contribuído para o fortalecimento o real na primeira etapa de negócios, servindo do suporte as operações de "vendidos" (que apostam na queda do dólar), que já se beneficiavam dos ventos externos favoráveis.

O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que o real tem tido um desempenho similar a de outras moedas emergentes, mas que ainda acumula uma desvalorização relevante na comparação com seus pares, como o peso mexicano e o rand sulafricano - fenômeno que ele atribui, sobretudo, aos problemas domésticos.

"O dólar já poderia estar abaixo do nível de R$ 5,00. A sensação é que o real se mantém desvalorizado por toda essa questão fiscal, dos precatórios e do Bolsa Família, e dos problemas políticos, com essa briga do presidente com o STF", afirma Weigt, ressaltando que, a despeito das quedas recentes, o preço de commodities exportadas pelo Brasil, como minério de ferro e soja, ainda está em patamares elevados. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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