Gary Cameron/ Reuters
Gary Cameron/ Reuters

Dólar cai 1,32% em dia marcado por perdas globais da moeda americana; bolsa sobe 0,71%

Segundo analistas, o dólar sofreu hoje com movimento global de realização de lucros, após a forte apreciação nas últimas semanas induzida pela expectativa de aceleração do processo de ajuste monetário conduzido pelo Fed

Antonio Perez e Luís Eduardo Leal, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2022 | 11h08

Após fechar em alta de 0,80% nesta quarta-feira, 18, o dólar caiu 1,32%, negociado a R$ 4,9168, na sessão desta quinta-feira, 19, em sintonia com o enfraquecimento da moeda americana no exterior tanto em relação a divisas emergentes quanto fortes, em especial o euro. Nos momentos de maior pressão vendedora lá fora, a moeda chegou a descer até o patamar de R$ 4,88. Com o tombo de hoje, o dólar já acumula perda de 2,78% na semana e passou a apresentar baixa em maio (-0,52%) - você pode acompanhar a cotação no conversor de moedas do Estadão.

Operadores relataram fluxo de estrangeiros para ativos domésticos, favorecidos em suposto movimento de rotação de carteiras pela alta de commodities agrícolas e metálicas, e desmonte de posições defensivas no mercado futuro.

Segundo analistas, o dólar sofreu hoje com movimento global de realização de lucros, após a forte apreciação nas últimas semanas induzida pela expectativa de aceleração do processo de ajuste monetário conduzido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O tropeço do dólar teria sido provocado sobretudo pela recuperação pontual do euro, na esteira de sinais da ata do último encontro de política monetária do Banco Central Europeu (BCE) de eventual aumento de juros na zona do euro no início do segundo semestre. A ata do BCE, ressaltam analistas, vem após falas duras de dirigentes da instituição nos últimos dias e a divulgação da alta de 7,4% da inflação anual da zona do euro em abril.

Afora a questão técnica, há também preocupações com uma eventual retração da economia americana diante do aperto das condições financeiras. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - operou em queda firme ao longo de toda a sessão, com perdas superiores a 1% frente ao euro e a libra esterlina. A moeda americana tombou também em bloco frente a divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com destaque para o peso chileno, o real e o rand sul-africano. O Banco Central da África do Sul elevou a taxa básica de juros em 50 pontos-base, a 4,75% ao ano.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, observa que a inflação na Europa roda na casa de 7% e já começa a crescer a expectativa de que o BCE terá que antecipar a primeira alta dos juros, esperada anteriormente para o fim do ano. "O euro vem apanhando muito já faz bastante tempo. É uma recuperação pontual hoje frente ao dólar, que acabou levando a uma queda da taxa de câmbio também por aqui", afirma Velho "Mas a tendência é de dólar forte no mundo, porque aparentemente o Fed vai ter que elevar o juro acima do neutro, com uma taxa dos Fed Funds mais para 4% que para 3%."

Para Velho, apesar de o Banco Central brasileiro ter sinalizado que pretende manter a taxa Selic em níveis elevados por mais tempo, após uma provável alta adicional em junho, o dólar não deve se situar abaixo de R$ 4,90. O economista ressalta que, além do aperto monetário nos EUA, há outros fatores externos que dão sustentação à demanda por dólares, como possível recrudescimento das tensões geopolíticas no Leste Europeu, com a recusa russa em aceitar entrada de Finlândia e Suécia na Otan, e dúvidas sobre o ritmo de crescimento da economia chinesa. "Tudo indica que o dólar é mais para cima. Só cairia se houvesse um fluxo muito grande para o Brasil, como no primeiro trimestre, o que acho muito difícil. Vamos ter eleição presidencial no segundo semestre", afirma.

Bolsa

O dia foi majoritariamente negativo nos mercados acionários do exterior, da Ásia à Europa e aos Estados Unidos, mas o Ibovespa conseguiu retomar o sinal positivo desde a manhã, favorecido por forte ajuste no câmbio. A sessão foi marcada por avanço do euro frente ao dólar, após novos sinais de que o BCE corrigirá a política monetária para conter o avanço da inflação no velho continente. Assim, o Ibovespa  subiu 0,71%, a 107.005,22 pontos, com giro financeiro de R$ 24,8 bilhões. Na semana, a referência da B3 sobe 0,08%, com perda no mês a 0,81% - no ano, o avanço é de 2,08%.

"O mercado ainda tem que entender qual realmente será a atitude do BC americano frente a uma inflação que é muito mais parecida com a da década de 1980 do que a vista recentemente nos Estados Unidos, e também na Europa", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group. "Há choques de oferta desde a Covid e, agora, com a guerra na Ucrânia. Uma inflação hoje, com economia aquecida e componente de demanda também, que passa a ser indexada em preços e salários, permanecendo em alta por mais tempo", acrescenta.

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