Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Dólar tem leve alta e fecha acima de R$ 5; Bolsa tem queda

Estatal anunciou reajuste nos preços dos combustíveis nas refinarias a partir desta sexta

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 06h27
Atualizado 10 de março de 2022 | 18h36

Nesta quinta-feira, 10, o Ibovespa, principal índice do mercado de ações do Brasil, fechou em leve queda, de 0,21%, aos 113.663,13 pontos. Já o dólar, encerrou as negociações do dia em leve alta, de 0,11%, cotado a R$ 5,0160. 

O noticiário interno nem foi de todo ruim. Enquanto a Petrobras anunciou um reajuste de dois dígitos na gasolina e no diesel, mostrando compromisso com sua política de preços, o Senado aprovou a criação de um fundo de estabilização dos preços dos combustíveis, sem que isso represente uma intervenção direta na estatal. 

Mas prevaleceram as preocupações com a guerra entre Rússia e Ucrânia e com a disparada da inflação, aqui e no mundo, o que resultou em queda das Bolsas, inclusive a brasileira, bem como alta dos juros e do dólar. Lá fora, as expectativas de que Kiev e Moscou pudessem encontrar a via diplomática para resolver o conflito foram frustradas após o encontro entre os ministros de relações exteriores dos dois países terminar sem qualquer acordo ou sinal de apaziguamento.

Tal fato, por si só, já fez o investidor tirar dos preços um pouco do otimismo da véspera. Mas a inflação também ajuda. Além da maior taxa em 40 anos nos EUA, que também puxou os yields dos Treasuries, o reajuste dos combustíveis no Brasil trouxe junto uma série de revisões em alta para o IPCA deste ano, embutindo ainda mais prêmios na curva de juros, que voltou a precificar uma Selic terminal de 13,75%.

Nesse ambiente, o Ibovespa acompanhou os pares em Nova York e cedeu 0,21%, aos 113.663,13 pontos, desempenho que só não foi pior devido à alta das ações da Petrobras após o anúncio do aumento de preços. No caso do câmbio, houve até uma melhora na reta final e o dólar, após bater em R$ 5,07 na máxima do dia, teve valorização de 0,11%, a R$ 5,0160. Operadores atribuem o arrefecimento das cotações a certo alívio com projeto aprovado no Senado, considerado menos heterodoxo do que poderia ser em meio à disparada do petróleo.

Petróleo

O petróleo voltou a recuar nesta quinta-feira, pressionado por comentários do presidente da Rússia, Vladimir Putin, garantindo que exportações de commodities energéticas do país continuam sendo feitas, inclusive por meio da Ucrânia, país invadido por forças russas há duas semanas.

Na New York Mercantile Exchange (Nymex), o barril do petróleo WTI com entrega prevista para o mês que vem fechou em baixa de 2,47% (US$ 2,68), a US$ 106,02, enquanto o do Brent para maio cedeu 1,63% (US$ 1,81) na Intercontinental Exchange (ICE), a US$ 109,33.

Mais cedo, os contratos subiam após líderes russos e ucranianos falharem em avançar por um acordo diplomático que encerre o conflito no Leste Europeu. Os ministros das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e Ucrânia, Dmytro Kuleba, viajaram à Turquia para discutir o conflito entre os dois países.

Ambos relataram que não houve progresso nas negociações por um cessar-fogo, com Lavrov ressaltando que sequer tinha autorização para negociar este tópico, que deverá ser abordado somente por delegações em Belarus.

O movimento de alta do óleo se inverteu após Putin afirmar, de acordo com relatos na imprensa internacional, que a Rússia segue exportando petróleo e gás produzido no país por meio da Ucrânia. A fala aliviou tensões quanto a um aperto ainda maior da oferta no curto prazo.

A visão da Capital Economics, porém, é pessimista. Para a consultoria, a produção russa do óleo deve reduzir ao longo deste ano sob o peso das sanções do Ocidente, que reduzem a base de clientes dos produtores locais.

Caso ocorra um "cenário extremo" de banimento completo das importações de energia da Rússia pelo Ocidente, o barril do petróleo deve ficar acima de US$ 100 para além de 2022. Caso isso não ocorra, os preços devem reduzir ao nível de US$ 100 à medida que o ano termina, prevê a consultoria. 

Bolsas da Europa 

As principais Bolsas europeias fecharam em queda nesta quinta-feira, 10. A expectativa de um cessar-fogo em breve, dadas as notícias de quarta-feira, 9, diminuiu com falas de autoridades russas nesta sessão. A decisão monetária do Banco Central Europeu (BCE) e posições da presidente da instituição, Christine Lagarde, também estiveram no radar.

O índice pan-europeu Stoxx600 fechou em queda de 1,69%, a 427,12 pontos. Enquanto o londrino FTSE 100 caiu 1,27%, a 7.099,09 pontos, e o parisiense CAC 40 cedeu 2,83%, a 6.207,20 pontos.

Nesta quinta, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse que o encontro com seu homólogo ucraniano, Dmytro Kuleba, não teve o cessar-fogo como pauta central. O tema deve ser discutido por delegações dos países em Belarus. E afirmou que, para que os presidentes Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky se encontrassem, Moscou precisaria de uma maior preparação e uma reunião "com mais foco".

"Parece haver uma ingenuidade generalizada por parte dos mercados, assim como de alguns políticos, de que a Rússia está interessada em seguir um caminho diplomático, quando todas as suas ações até agora parecem sugerir que Moscou tem apenas uma agenda, e não é pacífica", disse o analista-chefe para mercados na CMC Markets, Michael Hewson. O economista observa que parece haver uma redefinição de expectativas entre operadores que lidam com o cenário de incertezas.

As bolsas, que já operavam em queda, aceleraram o movimento após decisão do BCE de manter inalteradas suas principais taxas de juros: a taxa de depósitos seguiu em -0,50%, a taxa de refinanciamento em 0% e a taxa de empréstimo em 0,25%. O ritmo de redução de compra de ativos pelo BCE foi acelerado.

Na avaliação da Capital Economics, a decisão da autoridade monetária traça caminho para que os juros sejam elevados no segundo semestre deste ano, enquanto o Wells Fargo espera que isto aconteça em dezembro. O ING acredita que uma elevação na taxa "ainda é possível" em 2022 e o Commerzbank aposta em duas.

Em coletiva à imprensa após a decisão, Lagarde destacou que a guerra na Ucrânia terá "grande impacto" no crescimento econômico e inflação na zona do euro. A autoridade frisou que a energia é a principal causa para salto inflacionário na região e que preços devem seguir altos no curto prazo. Em relatório divulgado nesta quinta, o BCE projeta menor crescimento e maior inflação para a zona do euro: o índice de preços ao consumidor (CPI) deve ficar em 5,1% em 2022, 2,1% em 2023 e 1,9% em 2024, já o Produto Interno Bruto (PIB) deve subir 3,7% em 2022, 2,8% em 2023 e 1,6% em 2024.

Nos Estados Unidos, maior economia do mundo, o CPI de fevereiro registrou salto anual de 7,9%, o maior desde janeiro de 1982.

Em Frankfurt, o DAX caiu 2,93%, a 13442,10 pontos, e em Milão, o FTSE MIB cedeu 4,20%, a 22.886,69. Nas praças ibéricas, o PSI 20 teve baixa de 1,29%, a 5524,75 pontos, e o IBEX 35 recuou 1,15%, a 8.069,30 pontos, segundo dados preliminares.

Bolsas de NY

As Bolsas de Nova York fecharam em baixa, nesta quinta-feira. O movimento já era negativo no início do dia, após um fracasso em negociações entre Rússia e Ucrânia, mas os mercados chegaram a reduzir perdas à tarde, com o setor de energia exibindo ganho forte e destoando do mau humor predominante. Além disso, dados estiveram no radar, entre eles o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.

O índice Dow Jones fechou em queda de 0,34%, em 33.174,07 pontos, o S&P 500 caiu 0,43%, a 4.259,52 pontos, e o Nasdaq recuou 0,95%, para 13.129,96 pontos.

Uma discussão entre ministros das Relações Exteriores de Ucrânia e Rússia não trouxe progressos por um cessar-fogo, com o chanceler ucraniano, Dmytro Kuleba, dizendo que Moscou ainda almeja "a rendição" do vizinho. Analista da Oanda, Edward Moya afirmou em relatório que investidores temem que a guerra na Ucrânia provoque inflação elevada por "muito mais tempo".

Na agenda dos EUA, o CPI subiu 0,8% em fevereiro ante janeiro, acima da previsão de alta de 0,7% dos analistas. Na comparação anual, a inflação ao consumidor ficou em 7,9%, acima da previsão de 7,8% e na máxima desde 1982. A Capital Economics projeta que o CPI superará a marca de 8% em março, quando deverá ocorrer seu pico, e o ING considera que ela pode bater em 9% ao ano, com alta nas commodities e pressões também por aumento de salários. O presidente americano, Joe Biden, destacou em comentário o impacto inicial da guerra da Ucrânia sobre os preços.

De qualquer modo, a expectativa praticamente consensual entre investidores e analistas é que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevará os juros neste mês, em 25 pontos-base. O aperto monetário tende a pressionar as ações.

Entre ações em foco, Amazon subiu 5,41%, após a empresa anunciar a divisão de ações e também um plano de recompra de US$ 10 bilhões. Papéis do setor de energia também se saíram bem, em meio a altas recentes das commodities, com ExxonMobil terminando com ganho de 3,10% e Chevron, de 2,74%.

Já o setor de energia foi o mais penalizado, o que pressionou o Nasdaq. Apple registrou baixa de 2,72%, Tesla caiu 2,41% e Microsoft, 1,01%. / GABRIEL BUENO DA COSTA, GABRIEL CALDEIRA E ILANA CARDIAL 

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