Rahel Patrasso/ Reuters
Rahel Patrasso/ Reuters

Bolsa segue sinal do BCE e cai 1,18%; dólar avança e fecha em R$ 4,92

Na B3, a sequência de cinco perdas é a mais longa desde as sete retrações observadas entre 14 e 26 de abril

Luís Eduardo Leal e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 19h47

Embora aguardada, a confirmação pelo Banco Central Europeu (BCE), em reunião nesta quinta-feira, 9, de que a política monetária da zona do euro de fato se ajustará nos próximos meses, com retirada de estímulos e elevação dos juros de referência, contribuiu para a cautela vista na sessão, em que o Ibovespa operou no mesmo sentido do exterior, a despeito da leitura melhor do que o esperado para o IPCA de maio. A referência da B3 emendou a quinta perda e fechou o dia em baixa de 1,18%, aos 107.093,71 pontos, assim como ontem no menor nível de encerramento desde 19 de maio (107.005,22).

Na B3, a sequência de cinco perdas é a mais longa desde as sete retrações observadas entre 14 e 26 de abril. Na semana, o Ibovespa cede 3,61%, colocando a queda de junho a 3,82%, e limitando o avanço do ano a 2,17%. O giro financeiro foi um pouco maior hoje, a R$ 25,8 bilhões, após recente enfraquecimento.

Na contramão do ajuste negativo em commodities (Vale ON -3,38%, Petrobras PN -1,44%) e siderurgia (CSN ON -6,65%, Usiminas PNA -4,80%), o desempenho majoritariamente positivo das ações de grandes bancos, ao final enfraquecido e misto (Bradesco ON +0,12%, Itaú PN -1,72%), contribuía para moderar as perdas do Ibovespa, até que, no fim da tarde, os índices de ações em Nova York aceleraram a correção, na véspera da divulgação de nova leitura sobre a inflação nos Estados Unidos. Destaque para o Nasdaq, em queda de 2,75% no fechamento.

Na ponta do Ibovespa, Hapvida (+2,98%), Sul América (+2,69%) e CCR (+2,24%). No lado oposto, além de CSN (na mínima do dia no fechamento) e de Usiminas, destaque também para Magazine Luiza (-6,52%), Azul (-5,34%) e Locaweb (-5,14%).

Hoje, "os rendimentos dos títulos globais subiram depois de o BCE preparar os mercados para um ciclo de alta das taxas (de juros) e com o crescente nervosismo de que os dados do índice de preços ao consumidor (nos Estados Unidos), amanhã, mostrarão claramente que a inflação não está perto do pico", aponta em nota Edward Moya, analista da OANDA em Nova York. "Sinais de alerta sobre a economia estão surgindo à medida que as dados semanais sobre desemprego (nos EUA) começam a aumentar, e a situação da Covid na China será problemática para as cadeias de suprimentos nos próximos dois trimestres. As pressões inflacionárias se ampliam e não mostram sinais de afrouxamento."

Por outro lado, o ponto mais aguardado da agenda doméstica, o IPCA de maio, agradou, mas não o suficiente para que o Ibovespa resistisse à aversão a risco que prevaleceu desde o exterior, com o mercado por aqui ainda atento às negociações entre governo federal, Estados e Congresso sobre a desoneração dos combustíveis. A percepção continua ambivalente: por um lado, efeito benéfico para a trajetória da inflação; por outro, dúvidas sobre o impacto fiscal da renúncia a impostos.

"É possível que as medidas gerem um impacto favorável sobre a inflação, de forma mais perene, na medida em que tem muita inércia na inflação brasileira. Se a inflação for 7% em 2022, em vez de 9%, voltamos a poder ter inflação de 4% em 2023. O Brasil dificilmente reduz a inflação em mais de 3 a 4 pontos porcentuais por ano, por conta da indexação", observa Igor Barenboim, sócio e economista-chefe da Reach Capital, enfatizando também efeitos positivos para o crescimento e a renda no País.

"Claro que tem o risco fiscal, que pode fazer com que o real se deprecie e os juros subam", aponta o economista, ressalvando que tal impacto tenderia a ser "marginal". "Esse conjunto de medidas pode funcionar, sim. Pode fazer o juro ter que subir menos agora e ficar menos tempo em patamar tão elevado", acrescenta Barenboim.

Hoje, em evento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu aos empresários que deem uma "pequena trégua" nos preços e que "apertem os cintos", sem perder a confiança no Brasil. No mesmo evento, em participação virtual, o presidente Jair Bolsonaro - que chegou nesta quinta-feira a Los Angeles (EUA) para participar da Cúpula das Américas - defendeu junto aos participantes o "menor lucro possível" na cesta básica.

"O Brasil andou mais rápido em políticas monetária e fiscal. A inflação é mundial e nunca foi culpa do nosso governo. Vocês empresários devem conversar com fornecedores. Precisamos estar juntos em trégua de preços, para quebrar a espiral inflacionária", disse Guedes aos participantes do Fórum da Cadeia Nacional, promovido pela Abras.

Dólar

O mercado doméstico de câmbio experimentou mais um dia marcado por alta instabilidade e liquidez reduzida. Após muitas trocas de sinal pela manhã e ao longo da tarde, o dólar se firmou em alta nas duas últimas horas de pregão, na esteira da derrocada das bolsas em Nova York e da aceleração dos ganhos da moeda americana no exterior. A divisa chegou até a tocar pontualmente o patamar de R$ 4,92 nos minutos finais da sessão, quanto registrou máxima a R$ 4,9201. No fim do dia, o dólar era cotado a 4,9156, em alta de 0,52%.

Segundo operadores, fluxo de recursos pontuais e ajustes no mercado futuro amenizaram parte das pressões externas sobre a formação da taxa de câmbio, levando o real até a operar na contramão de seus pares em diversos momentos do pregão. O resultado abaixo do esperado do IPCA de maio desautorizou apostas em taxa Selic na faixa de 14%, mas a perspectiva majoritária é de duas altas de 0,50 ponto porcentual da taxa básica, hoje em 12,75%. Isso mantém a atratividade da renda fixa local e torna custosas apostas mais contundentes contra a moeda brasileira.

"O quadro lá fora é muito ruim, com o problema da inflação e perda de força do crescimento. O Fed talvez tenha que aumentar os juros com mais rapidez. O BCE já falou mais duro hoje. As expectativas estão se deteriorando e todo mundo corre para se proteger no dólar", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, que atribui a queda pontual da moeda americana por aqui à entrada de exportadores pela manhã e a perspectivas melhores para a economia brasileira, com retomada do crescimento e sinais de que o pico da inflação já passou. "A liquidez está mais moderada e com piora mais forte do sentimento no fim do dia, o dólar acabou acompanhando o exterior".

Na mesma linha, o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, nota que há um movimento forte de exportadores, dado que os preços das commodities se recuperaram recentemente com as notícias de relaxamento das medidas restritivas na China, revertidas parcialmente hoje. "Sem dúvida, o exportador está atuando com força, até no mercado futuro. Isso faz com que o real às vezes se descole do movimento do dólar lá fora", diz Velloni.

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