Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Bolsa acumula perda de 11,50% no mês e 5,99% no semestre

No quadro mensal, o Ibovespa registrou o pior resultado para junho desde 2002, quando recuou 13,39%

Luís Eduardo Leal e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2022 | 19h03

O Ibovespa termina o mês, o trimestre e o semestre em tom menor, com junho (-11,50%) ainda pior do que abril (-10,10%), após a leve recuperação observada em maio (+3,22%). Com temores fiscais domésticos acrescidos à incerteza sobre o grau de desaceleração global em meio ao ciclo de aperto monetário (especialmente nos Estados Unidos), a referência da B3 teve o pior mês de junho desde 2002 (-13,39%). Nesta quina-feira, 30, fechou em baixa de 1,08%, aos 98.541,95 pontos, entre mínima de 97.758,43 e máxima de 99.619,06 pontos, com giro a R$ 27,6 bilhões na sessão. Na semana, cede 0,13%, com recuo de 5,99% neste primeiro semestre.

O índice acumulou perda de 17,88% no segundo trimestre de 2022, o correspondente a 21.457,28 pontos - em 31 de março, antes da correção que viria no mês seguinte, o Ibovespa estava virtualmente aos 120 mil pontos (119.999,23 naquele fechamento). Assim, o trimestre que ora chega ao fim foi o pior desde a queda de 36,86% no intervalo entre janeiro e março de 2020, no começo da pandemia, a mais profunda retração de que se tem registro na Bolsa brasileira, quando superou mesmo declínios bem agudos vistos nas grandes crises de 2008, 1998 e 1995.

No primeiro trimestre de 2022, em dólar, o Ibovespa estava em 25.203,56 pontos - agora está em 18.824,39 pontos, com avanço de 10,15% para o dólar ante o real no mês, vindo o índice da B3 dos 23.429,38 pontos, na moeda americana, no fechamento de maio. De lá para cá, a Bolsa ficou bem amassada, retrocedendo a níveis não vistos desde o começo de novembro de 2020 - desde o último 17 de junho, fechou na casa dos 100 mil pontos apenas nos dias 27 e 28.

A cautela interna com relação à perspectiva fiscal do país se impôs no momento em que o cenário externo se mostra também atribulado pela correção das políticas monetárias em grandes economias, como as de Estados Unidos e zona do euro, por dúvidas sobre a retomada na China e pelo prolongado conflito no leste europeu. A combinação de incertezas, principalmente as relacionadas à economia chinesa e ao conflito na Ucrânia, tem acentuado a volatilidade das commodities, com efeito direto sobre o Ibovespa.

Hoje, o dia negativo para o minério de ferro e o petróleo colocou Vale ON (-2,83%) e Petrobras (ON -1,10%, PN -0,53%) em queda, assim como o setor de siderurgia (CSN ON -6,42%, Usiminas PNA -4,00%, Gerdau PN -3,41%). Além de CSN (-6,42%), CSN Mineração (-6,31%) também ocupou a ponta perdedora do Ibovespa na sessão, ao lado de Via (-8,13%) e JHSF (-5,66%). No lado oposto, Fleury (+16,10%), após anunciar acordo para combinação de negócios com a Hermes Pardini; Hapvida (+3,80%) e Telefônica Brasil (+3,07%). O dia foi desfavorável às ações de grandes bancos, à exceção de BB (ON +0,91%).

"Muita coisa ruim já foi colocada no preço da Bolsa com relação ao fiscal e, partindo do nível que se tem hoje, é provável que o segundo semestre seja melhor. O mercado está ajustado a crescimento em declínio e juros em alta, com o ciclo atual de elevação da taxa do Fed mais rápido do que o visto em outras ocasiões. Resta saber qual será a taxa de juros neutra nos Estados Unidos, isso permanece em aberto", diz Rodrigo Santin, CIO da Legend. "Daqui para frente, o calendário tende a jogar a favor, na medida em que muito absurdo fiscal já foi cometido, muita coisa já foi para o preço e o balanço de riscos começa a se equilibrar", acrescenta.

Santin chama atenção para os sinais de que tanto o presidente Jair Bolsonaro como o rival Luiz Inácio Lula da Silva estão agora "no mesmo balaio" com relação a gastos públicos e a compromisso com responsabilidade fiscal. Ele observa também que, com juros mais altos e tendendo a permanecer assim por tempo prolongado, a "seletividade" na escolha de ações passa a ser fundamental, ante o poder de atração da renda fixa. "Quando os juros estão baixos e as empresas são boas, compra-se até com múltiplos muito altos."

"Estamos em um mercado de baixa tanto para S&P 500 como Ibovespa, ao final de um semestre difícil. Até a metade do semestre, ninguém esperava que o Federal Reserve acelerasse a alta de juros, passando de 0,25 ponto para 0,75 ponto porcentual (no ritmo de elevação), mas a inflação americana surpreendeu para cima e o BC dos Estados Unidos mudou a estratégia. Até então os mercados tinham uma visão mais benigna para a trajetória dos juros", observa Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, acrescentando que o Ibovespa chegou a subir mais de 20% em dólar no ano, no primeiro trimestre, sendo destaque de alta no mundo.

Dólar

Após esboçar uma queda pontual ao longo da tarde, o dólar se firmou em terreno positivo na última hora de negócios e encerrou o pregão desta quinta-feira, 30, o último de junho, em alta de 0,80%, cotado a R$ 5,2348. Apesar de ter terminado a semana em leve baixa, de 0,34%, a divisa encerrou o mês com valorização de 10,15% - o maior avanço mensal desde março de 2020 (16,03%). Embora tenha permanecido com sinal positivo na maior parte do dia, o dólar oscilou quase dez centavos entre a máxima (R$ 5,2710) e a mínima (R$ 5,1880) - o que sinaliza o mercado ainda em busca de um novo parâmetro para a taxa de câmbio.

Lá fora, o dia foi marcado por aversão ao risco, em meio a temores de recessão global na esteira do aperto monetário em países desenvolvidos para combate à inflação. Investidores abandonaram bolsas e commodities e correram para se abrigar nos Treasuries, cujas taxas tombaram. A T-note de 10 anos, principal ativo do mundo, chegou a furar o piso de 3%. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - trabalhou em queda firme, ao redor dos 104,700 pontos, com perdas maiores ante o euro e o iene. A moeda americana subiu na comparação as divisas emergentes e de exportadores de commodities, com ganhos maiores frente o real.

A aguardada leitura do índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) em maio - medida de inflação preferida pelo Fed - não abalou a perspectiva de nova alta da taxa básica americana em 75 pontos-base. O núcleo, que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia, avançou 0,3%, abaixo das expectativas. Na comparação anual, o núcleo desacelerou de 4,9% em abril para 4,7% em maio. As dúvidas são o tamanho da desaceleração da economia americana e, por tabela, global em meio ao processo desinflacionário.

Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o PCE não trouxe grandes novidades, uma vez que um arrefecimento marginal da inflação na ponta já era esperado. Ele chama a atenção para a leitura do mercado de que o aperto monetário conduzido pelo Fed neste ano deve conter a inflação e permitir até um corte de juros nos EUA em 2023.

"A estimativa de juro terminal em 2023 caiu cerca de 30 pontos-base em poucos dias. O mercado talvez esteja adiantando muito essa desaceleração da inflação nos Estados Unidos. As taxas dos Treasuries caíram muito", afirma Oliveira, que vê o tombo do dólar frente a pares fortes hoje como reflexo da perspectiva de perda de fôlego da economia americana.

Oliveira atribui o tombo do real em junho à onda de fortalecimento global da moeda americana no exterior ao longo do mês e à perda de fôlego dos preços das commodities. Ele também observa que Banco Centrais de outros países emergentes começaram a apertar suas políticas monetárias, aumentando a competição por recursos de investidores estrangeiros.

"Além disso, a relação risco e retorno mudou porque a volatilidade da nossa taxa de câmbio aumentou muito. Outras moedas da região, como o peso chileno, tiveram desempenho melhor no segundo trimestre", afirma o economista do Fibra, acrescentando que há também o peso da questão eleitoral, dado o risco de escalada populista levando em conta o perfil dos dois principais candidatos, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula. "Não que esse seja o meu cenário, mas é um risco que está presente para o mercado".

Por aqui, houve a disputa técnica pela última Ptax de junho e a rolagem do vencimento dos contratos futuros de dólar, o que adicionou volatilidade aos negócios, segundo operadores. Investidores recompuseram posições defensivas em meio à expectativa para aprovação da PEC dos Combustíveis no Senado, cuja votação está prevista para esta noite. A oposição faz uma ofensiva para tirar do texto o decreto de estado de urgência, que supostamente blindaria o presidente Jair Bolsonaro de sanção pela Lei Eleitoral por aumento de programas sociais.

"Inicialmente, o mercado recebeu bem o texto da PEC dos Combustíveis. Mas o clima ainda é de muita insegurança. Existe essa contestação ao estado de emergência, porque abriria a porta para o governo gastar ainda mais em ano eleitoral. Isso bate no risco-país e no câmbio", afirma a economista Bruna Centeno, da Blue 3.

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