Daniel Teixeira/Estadão
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Bolsa estende perdas pelo 4º dia, em baixa de 1,55%; dólar sobe 0,33%

Na semana, o Ibovespa cede 2,46% e, no mês, 2,68%. No ano, limita a alta a 3,38%

Luís Eduardo Leal e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2022 | 18h56

Em dia de novo avanço, ainda que moderado, para o dólar, o Ibovespa regrediu mais dois degraus neste começo de junho, agora na faixa dos 108 mil pontos, após ter iniciado o mês aos 111,3 mil e chegado no melhor momento aos 112.392,91, considerando o 

fechamento do dia 2. De lá para cá, a referência da B3 emendou quatro perdas diárias, atingindo no encerramento desta quarta-feira, 8, os 108.367,67 pontos, em baixa de 1,55%.

Assim, o Ibovespa registrou hoje a menor marca intradia desde 20 de maio (107.056,05) e o menor nível de fechamento desde o dia 19 do mesmo mês (107.005,22). Ainda moderado, o giro desta quarta-feira ficou em R$ 22,5 bilhões. Na semana, o Ibovespa cede 2,46% e, no mês, 2,68%. No ano, limita a alta a 3,38%.

Em contexto de persistente pressão das commodities sobre a inflação global - o Brent de agosto foi negociado a US$ 124,40 por barril na máxima do dia - e de risco crescente de que algum parêntese recessivo venha a se impor no momento em que as maiores economias tornam as respectivas políticas monetárias mais restritivas, o quadro doméstico tem se tornado também mais desafiador, após reação inicial positiva do Ibovespa pela exposição a matérias-primas.

A aproximação do calendário eleitoral e a dificuldade da costura política de uma solução aceitável para os entes federativos sobre a desoneração de combustíveis recolocam sobre a mesa preocupações com a situação fiscal, não vistas desde o fim do ano passado. A 'folga de arrecadação' que havia contribuído para a melhora da percepção fiscal emerge agora como elemento acenado pelo governo para conquistar apoio à proposta de controlar a inflação por meio de atuação sobre o preço da energia na ponta final do consumo.

"Apesar do impacto positivo - a possibilidade de contenção da inflação -, existe um custo fiscal relevante caso a proposta (de desoneração tributária) seja aprovada. Um custo para o qual ainda não foi apresentada fonte de financiamento. Essa incerteza gera preocupação quanto a risco fiscal, um velho conhecido nosso", diz Antônio Sanches, analista da Rico Investimentos.

"A desoneração dos combustíveis tem aspectos positivos e negativos. O que o governo está colocando é usar um pouco de sua folga de arrecadação. O governo já vinha sinalizando nessa direção, de forma que não chega a ser uma surpresa para o mercado. À medida que a eleição se aproxima, a volatilidade sempre costuma aumentar, o que se reflete em câmbio, curva de juros e Bolsa. Mas, diferentemente da última eleição, em que Paulo Guedes trouxe uma agenda mais liberal para o debate, os dois lados, hoje, têm discurso populista", diz André Luzbel, head de renda variável da SVN Investimentos.

Os sobressaltos domésticos se somam à incerteza sobre o grau de ajuste das políticas monetárias no exterior, em momento de commodities ainda pressionadas, em meio à reabertura da China, e de falta de sinal quanto a uma resolução da guerra entre Ucrânia e Rússia, que se arrasta desde o fim de fevereiro. "O principal fator de risco ainda são os juros americanos. O aumento em curso por lá não é algo trivial, pode produzir grande efeito sobre empresas e setores mais alavancados", diz Luzbel, acrescentando que, no Brasil, os juros de referência tendem a permanecer na casa de dois dígitos por mais tempo do que se antecipava.

Dólar

A instabilidade marcou os negócios no mercado doméstico de câmbio na sessão desta quarta-feira, 8. Após uma manhã e início da tarde de muitas trocas de sinal, o dólar se firmou em alta nas últimas horas dos negócios e fechou a sessão em alta de 0,33%, cotado a R$ 4,8901, em meio à aceleração dos ganhos da moeda americana ante pares, sobretudo o iene, e à piora das Bolsa em Nova York. Com isso, a divisa já acumula valorização de 2,33% nesta semana e de 2,89% neste início de junho. No ano, as perdas são de 12,30%. 

Segundo operadores, o real segue pressionado pela reprecificação do risco fiscal doméstico, na esteira do plano do governo para reduzir os preços de combustíveis, e pela piora do apetite ao risco no exterior. Crescem os temores de que a economia global amargue um quadro de estagflação diante da disparada do petróleo e do aperto monetário em diversos países, em especial nos Estados Unidos. Na outra ponta, favoreceria a moeda brasileira a reabertura da economia chinesa, que tende a dar sustentação aos preços das commodities e, por tabela, contribuir para fluxo comercial. Além disso, a taxa de juros doméstica elevada torna muito custosas apostas contra o real e tende a atrair capitais de curto prazo.

"Essa preocupação com a questão fiscal está se refletindo no câmbio. O pacote dos combustíveis parece uma manobra eleitoral. Os estados vão perder arrecadação e não se sabe como será ao certo a compensação", afirma a economista Bruno Centeno, especialista da Blue3.

Reunião hoje entre secretários de Fazenda dos Estados e o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), relator do projeto de lei (PLP 18) que fixa teto de 17% para o ICMS sobre combustíveis e energia, terminou sem acordo. Os principais pontos de discordância são o nível de compensação da União aos Estados pela perda de receita e uma eventual "modulação" no corte da alíquota do tributo.

Apesar da falta de alinhamento com os governos estaduais, Bezerra apresentou seu parecer, mantendo basicamente os pontos do texto aprovado na Câmara dos Deputados. Entre os acréscimos e mudanças, houve inclusão da zeragem de PIS/Cofins sobre gasolina e álcool hidratado. Estados sem dívidas com a União serão contemplados com compensação. Já os estados endividados terão compensação via serviço da dívida (juros), e não pelo estoque.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, acredita que o "contexto político" e a inflação elevada devem levar o Congresso a aprovar o pacote de zeragem de tributos sobre combustíveis. Ele alerta que as fontes de compensação fiscal aos Estados ainda "dependem de receitas duvidosas", como recursos da privatização da Eletrobras e tamanho da arrecadação federal. "Privatização é para abater dívida e não para financiar gastos ou compensação para Estados. E ainda temos o risco grande de judicialização", afirma Velho.

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