Amanda Perobelli/Reuters
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Dólar cai mais de 2% com alívio no exterior após decisão do BC americano; Bolsa avança 0,73%

No fim do pregão, a moeda norte-americana foi negociada a R$ 5,0260, em recuo de 2,11%. Com a performance positiva nesta quarta, o Ibovespa interrompeu a sequência de oito sessões de queda

Antonio Perez e Luís Eduardo Leal, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 18h52

O dólar à vista caiu mais de 2% e encerrou a sessão desta quarta-feira, 15, na casa de R$ 5,02, alinhado ao enfraquecimento da moeda americana no exterior, na esteira de declarações do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, sobre o ritmo de ajuste da política monetária americana. Como projetado por casas como JPMorgan e Barclays e refletido na curva de juros dos Estados Unidos, o BC americano, premido pela leitura forte da inflação ao consumidor em maio, acelerou o passo e elevou a taxa básica em 75 pontos-base, para a faixa entre 1,50% e 1,75%.

A postura mais forte contra a alta de preços foi temperada, contudo, pela fala de Powell. Apesar do discurso duro contra a inflação, ele classificou o aumento de 75 pontos como "incomumente alto" e abriu a possibilidade de que o BC americano opte por uma elevação de 50 pontos em julho. Foi a senha para que investidores reajustassem posições e voltassem aos ativos de risco, muito castigados nos últimos dias. As bolsas em Nova York se firmaram em alta, movimento seguido pelo Ibovespa, e as taxas dos Treasuries recuaram. No mercado de câmbio, as divisas emergentes aceleraram ganhos ante o dólar e o índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana frente a seis pares fortes - virou para o lado negativo, passando a ser negociado na casa dos 104,700 pontos.

Por aqui, o dólar à vista, que já vinha em baixa, acentuou o ritmo de queda e registrou sucessivas mínimas nas últimas horas de negócios, descendo até R$ 5,0190 (-2,25%). No fim do pregão, a moeda era negociada a R$ 5,0260, em queda de 2,11%, interrompendo uma sequência de sete pregões de alta em que havia acumulado valorização de 7,44%. Apesar do alívio hoje, o dólar ainda apresenta avanço de 0,75% na semana. O mercado estará fechado amanhã em razão do feriado de Corpus Christi, mas retorna ao trabalhos na sexta-feira.

Além da decisão da esperada elevação em 75 pontos-base, o Fed revelou sua projeção para o nível da taxa de juros no fim do ano, pelo chamado gráfico de pontos. Treze dirigentes do BC americano veem taxa entre 3% e 3,5%, sendo oito na faixa de 3,25% e 3,50% e cinco entre 3% e 3,25%. Em entrevista, Powell disse que os dirigentes do Fed esperam que a política monetária se torne "modestamente restritiva" para controlar a inflação nos Estados Unidos, com taxa entre 3% e 3,5% no fim de 2022. Ele afirmou que a chamada taxa neutra está "baixa" atualmente, em algum ponto entre 2% e 3%.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, ressalta que tanto o gráfico de pontos quanto as declarações de Powell acabaram levando à leitura de que o BC americano adotou uma postura "dovish" em relação à condução da política monetária, o que explica a reação positiva dos ativos de risco nesta tarde.

"Nos últimos dias, o mercado havia passado a precificar altas seguidas de 75 pontos e até a possibilidade de alta de 100 pontos nesta reunião. Além disso, o mercado precificava taxa de 3,8% no fim do ano, e os 'dots' vieram abaixo disso", diz Oliveira, chamando a atenção para o fato de que Powell ter dito que a taxa de juros não é o único instrumento para segurar a inflação. "Ele disse que o Fed não está olhando apenas para a taxa, mas para outros fatores, como aperto das condições financeiras e redução de balaço".

Bolsa

A decisão do Federal Reserve de elevar a taxa de juros americana em 0,75 ponto porcentual - acima do meio ponto que o mercado esperava até os dados de inflação da semana passada, que resultaram em reformulação de expectativas - não impediu que o Ibovespa cortasse a série negativa e encerrasse hoje em alta de 0,73%, a 102.806,82 pontos, vindo de oito perdas seguidas que haviam consumido 10.329 pontos entre os fechamentos dos dias 2 e 14.

Hoje, à espera também da reação do Copom a um Fed que tem se mostrado mais duro no combate à resiliente inflação, a referência da B3 oscilou entre mínima de 102.046,47 (-0,02%), correspondente ao início da fala de Jerome Powell, presidente do BC americano, e máxima de 103.951,95, com giro a R$ 85,5 bilhões no fechamento, muito reforçado pelo vencimento de opções sobre o índice, nesta quarta-feira. Na semana, o Ibovespa ainda cede 2,54% e, no mês, 7,67% - no ano, a perda está em 1,92%.

No melhor momento da tarde, apenas Petrobras (ON -1,31%, PN -1,76% no fechamento) destoava de retomada bem distribuída entre as ações e os segmentos de maior peso no índice. Ao final, Vale ON mostrava leve baixa de 0,06%, com siderurgia refluindo também para o negativo (CSN ON -1,05%). O encerramento foi moderadamente positivo para as ações de grandes bancos, com BB ON (+1,58%) à frente, e melhor para as utilities, com destaque ainda para Eletrobras (ON +2,77%, PNB +2,75%).

"Nesse momento de muita incerteza ainda sobre a magnitude de aumento de juros pelo Fed, as empresas intensivas em capital, como as de tecnologia, do Nasdaq, oferecem risco maior, o que tende a favorecer setores mais consolidados, como bancos e indústrias de alimentos", avalia Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.

Na ponta de ganhos do Ibovespa nesta quarta-feira, Qualicorp (+14,64%), CVC (+13,19%), Banco Inter (+9,33%) e Natura (+8,08%). No lado oposto, Braskem (-2,27%), PetroRio (-1,48%), CSN Mineração (-1,46%) e BRF (-1,37%), além de ambas as ações de Petrobras.

"A temida 'super quarta' vinha sendo a vilã da semana até que veio o Dia D, e aí valeu o sentido de cair no boato e subir no fato. O resultado da reunião do Fed mostra a preocupação de trazer a inflação para perto da meta, de 2% no longo prazo, mas sem prejudicar a economia e deixar de alcançar o máximo emprego. A discussão passa a ser em quanto ficará o aumento nas próximas reuniões, o que dependerá também de como a inflação se comportará, assim como a economia americana", diz Eduardo Telles, especialista em renda variável da Blue3.

"A inflação nos Estados Unidos, desancorada, levava parte do mercado a esperar aumento de 0,75 ponto na reunião de hoje, tornando o Fed um pouco mais 'hawkish' com a última leitura (sobre a inflação). O remédio é amargo mas necessário. Para o Copom, a expectativa é de meio ponto, com parte do mercado esperando 0,75 ponto, em postura mais dura, que deve prevalecer também na próxima reunião do Fed", diz André Rolha, líder de renda fixa e produtos de câmbio da Venice Investimentos.

Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest, chama atenção para a falta de unanimidade na decisão desta quarta-feira do Federal Reserve, na qual, por um lado, a instituição destacou o forte avanço da inflação - com fatores de risco externo que têm persistido, como a guerra na Ucrânia e os 'lockdowns' na China - e, por outro, o aquecimento do mercado de trabalho americano - lembrando, observa a economista, que o mandato do Fed é dual, focado em inflação e emprego.

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