Crise atual é mais cara, diz Chancellor

Autor de "Salve-se quem puder" diz que há estouro global da bolha de crédito nunca visto antes

Luciana Xavier e Daniela Milanese,

17 Outubro 2008 | 17h08

A atual crise financeira será muito mais cara do que as anteriores porque o problema atinge mais países, acredita o historiador britânico e jornalista financeiro Edward Chancellor, autor do livro "Salve-se quem puder - Uma história da especulação financeira", no qual trata da história das crises desde o século 17 até o início da crise das pontocom, no final dos anos 90.Ouça a entrevistaO livro conclui que os impulsos que geram as crises financeiras, o ganância, a especulação, são os mesmos em qualquer época. Segundo o autor, a especulação não deixa de existir, porque a natureza humana permanece a mesma. Foi considerada uma "obra notável" pelo jornal The New York Times e entrou para a "dos seis clássicos indispensáveis sobre investimentos" da revista Money.Chancellor nasceu na Inglaterra, em 1962. Formou-se historiador em Oxford e Cambridge e nos anos 90 trabalhou como estrategista de investimentos do banco inglês Lazard Brothers, um dos gigantes da área. Atualmente trabalha em uma firma de investimentos em Boston e é colaborador de alguns periódicos como The Economist, o Financial Times e o New York Times. Seu último trabalho, "Credit Crunch Time for Credit?" foi publicado em fevereiro de 2005. Ele revelou que deverá escrever um novo livro, sem data para publicação, onde tratará da crise atual.Segundo Chancellor, é mais fácil ver pontos em comum do que divergentes entre esta e outras crise. Um ponto comum entre as últimas crises de crédito é que todas foram precedidas por boom no mercado imobiliário. "A crise está afetando todos os cantos do mundo", afirmou em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. "Há um estouro global da bolha de crédito, algo nunca visto antes", acrescentou"Mas, agora, a diferença é a extensão dos problemas, já que os países emergentes também faziam parte da bolha e serão abalados pela retração do preço das commodities. Além disso, a alavancagem mundial das instituições financeiras hoje é muito mais elevada.Em compensação, Chancellor avalia que a situação não será tão severa como a registrada a partir de 1929, pois os governos estão reagindo de forma muito mais afetiva para estabilizar os mercados. "Não há limite para o montante de ações para contornar a crise". Ele lembrou que no início da década de 30 os governos tomaram medidas protecionistas e elevaram os impostos sobre as importações, tornando as compras do exterior mais caras.O historiador avalia que os problemas de agora são mais graves do que a situação vivida pelo Japão na década de 1990, com a falência do sistema financeiro. Isso porque, na época, o Japão contou a ajuda das exportações para se recuperar. No entanto, a crise atual é global e passará pela contração econômica em todos os países.BricsA hegemonia dos Estados Unidos no mundo não deve ser perdida tão cedo. Na verdade, o país que desencadeou a crise global atual, com empréstimos imobiliários a maus pagadores, pode até se sair melhor, conforme avaliou Chancellor."No curto prazo, acredite ou não, os Estados Unidos devem sofrer menos dor, mesmo não estando em boa situação. É que, por enquanto, as pessoas ainda consideram o dólar americano um porto seguro", explicou.Segundo Chancellor, se o resto do mundo não estivesse sofrendo com esta crise, aí sim os EUA poderiam ver sua hegemonia ameaçada. "No longo prazo, veremos o desenvolvimento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Não há como esses países com vasta população instruída crescerem mais rápido em relação aos Estados Unidos e não ocuparem uma parte importante no mundo", afirmou Chancellor.No curto prazo, no entanto, os emergentes, Brics incluídos, deverão sentir bem o impacto da crise por causa do fim do boom das commodities. "Com os preços das commodities em baixa, veremos as exportações chinesas se contraindo e os mercados emergentes passarão por problemas."Para Chancellor, apesar da agonia provocada por esta crise, o capitalismo não está ameaçado diante de tanta intervenção do Estado em instituições privadas, com estatização, participação nas ações e injeções de recursos, não somente nos Estados Unidos como em outros países, como Reino Unido.Segundo ele, a queda do comunismo deixou evidente que as pessoas não querem que o Estado esteja no comando de corporações, serviços ou que seja o responsável por "construir todas as casas". "No entanto, o capitalismo financeiro é mais instável, mais propenso a criar excessos. Mas essa intervenção dos governos é algo temporário. No longo prazo, o que teremos será mais regulação e isso não é ruim", disse.Ciclo da criseA fase de pânico nos mercados tende a desaparecer nos próximos meses após as grandes medidas adotadas pelos governos de vários países até agora, mas o fim da crise está mais distante, na opinião do historiador.A crise, segundo ele, deve durar pelo menos mais um ano nos Estados Unidos e de dois a três anos na Europa. "A economia real será afetada inevitavelmente e todos sairão perdendo", disse. Chancellor disse que o setor imobiliário americano, no entanto, não está tão longe de voltar aos trilhos."As razões para o pânico não ter se dissipado é que ainda há muitos hedge funds com alta alavancagem. A desalavancagem está em curso e deve levar mais dois ou três meses", disse ao AE Broadcast Ao Vivo. "Estamos saindo do pânico, para o estágio da angústia", comentou. Em seu livro, Chancellor constata que as crises financeiras quase sempre obedecem a um mesmo ciclo até que chegar ao fim.De acordo com o livro de Chancellor, a especulação financeira, que leva às crises, nunca deverá mudar, pois a natureza humana sempre continua a mesma. Ou seja, é sempre uma questão de tempo até haver uma nova bolha, uma nova crise.Quanto tempo? "Bem, quanto maior a dor, mais tempo até surgir uma nova bolha", explicou Chancellor, lembrando que após a crise de 29, houve mais cautela com o mercado acionário e imobiliário por várias gerações. Para Chancellor, esta é "a mais severa crise global desde os anos 30, embora não tão severa como a dos anos 30".Chancellor disse que a crise atual deve merecer um livro inteiro, "um projeto grande" e não apenas uma atualização de "Salve-se quem puder", ainda sem data para ser publicado. "Quero colocar mais o foco no comportamento no mercado de crédito", revelou.A obra de Chancellor, considerada pela revista Money "um dos seis clássicos indispensáveis sobre investimentos", é leitura obrigatória em muitos cursos de economia no Brasil. "Não entendo porque sou tão lido e tenho fãs no Brasil. Acho que o tradutor é que foi muito bom e escreveu um livro melhor do que o meu", brincou.

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