Crise já entrou no Brasil via câmbio e crédito

O ex-diretor do BC, Carlos Thadeu de Freitas, disse que o setor real da economia não está sentindo a crise porque o País ainda está "crescendo bem"

Luciana Xavier e Cristina Canas,

10 Outubro 2008 | 16h59

A crise financeira já chegou ao Brasil, via câmbio e crédito, disse o economista e ex-diretor do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. "A crise já entrou aqui, mas o setor real da economia não está sentindo porque o Brasil está ainda crescendo bem", avaliou. "Mas, no ano que vem, o País vai crescer menos e o brasileiro vai sentir, porque vamos ter menos empregos do que tivemos até agora e, provavelmente, vamos ter menos consumo das famílias", acrescentou.Ouça a entrevista  Thadeu de Freitas não espera queda abrupta do consumo, mas disse que as vendas no comércio não repetirão o bom desempenho dos últimos anos, assim como a produção industrial deve cair um pouco. "E os investimentos, que têm sido bastante fortes, devem desacelerar também. Para o dia-a-dia do brasileiro, isso vai significar um custo maior para sua dívida, uma geração um pouco menor de empregos e, conseqüentemente, também um salário real um pouco menor", explicou.O ex-diretor do BC, no entanto, não vê risco de recessão no Brasil. Segundo ele, há um "carry over" do PIB deste ano para o próximo ano, que dará um "certo chão" para o crescimento da economia brasileira em 2009 de no mínimo 2%, podendo chegar superar 3%. "Se o País não crescer nada no ano que vem, mas crescer 5,2%, 5,3% este ano, já estará crescendo no ano que vem no mínimo 2%. A não ser que haja queda do crescimento econômico, um crescimento ruim, negativo. Aí o País pode parar de crescer", ponderou.Segundo Freitas, "o governo tem responsabilidade enorme de segurar gastos públicos e evitar muita volatilidade do câmbio". Ele avalia que o BC está atuando de maneira correta no câmbio, mas demorou muito para começar a agir."Atuação pesada"O Banco Central tem que atuar mais pesado no mercado à vista de dólar para tentar conter a alta excessiva da moeda, avaliou o ex-diretor do Banco Central. "Quando o dólar começou a subir, o BC deveria ter agido de forma mais maciça. Ele demorou a fazer e quando fez, o fez em doses homeopáticas. Agora o BC está fazendo mais intervenções, mas o dólar já está onde está".Segundo ele, a disparada do dólar foi inesperada. "Uma surpresa que não necessariamente bate com a realidade. Os nossos fundamentos estão muito bons para o dólar ter disparado assim".Thadeu de Freitas explicou que há um estoque no mercado de cerca de US$ 20 bilhões em swap cambial reverso e com a alta do dólar os detentores de swap reverso começaram a perder muito. "Há um fato inédito. Houve uma maxidesvalorização do real em pouco tempo, quando grande parte do mercado estava vendida e não comprada em dólar".Freitas ressaltou que o governo sai ganhando com a alta do dólar no lado da dívida. "O governo ganhou, pois o Brasil é credor líquido em dólar. A relação dívida/PIB em setembro deve ficar abaixo de 40%", disse. "Isso já é uma vantagem para o ano que vem", afirmou. "Mas levou prejuízo forte quem estava vendido em dólar".O ex-diretor do BC disse que o governo provavelmente irá tirar gradualmente o swap reverso do mercado. "O grande ponto é que os detentores não querem sair do swap reverso com muito prejuízo. Se a cotação cair é melhor para eles saírem", disse. Mas as vendas de dólar pelo BC não podem tímidas. "Tem que entrar sucessivamente para derrubar cotação. Temos reservas para atuar pesado".Ou seja, o BC terá que atuar no mercado com venda de dólar à vista para tentar baixar a cotação no curto prazo, o que gera um dilema para o Banco Central em relação aos juros, especialmente num momento em que os BCs no mundo todo estão cortando suas taxas."Vender dólar a vista significa manter os juros altos. Não há espaço para Banco Central derrubar taxa de juros na próxima reunião do Copom. Não digo que vá aumentar, a menos que o dólar continue pressionando. Porque senão se você vende dólar no mercado físico com juro baixo você vai perder reservas cambais. O custo-oportunidade no Brasil é taxa de juros. Tem que ser alta para o Banco Central derrubar o dólar", comentou Thadeu de Freitas.O economista acredita ser possível uma "trégua" na alta de juros este mês, de acordo com o contexto internacional, mas não fim do aperto monetário. Segundo ele, a Selic só deve começar a cair no segundo trimestre 2009, mas não descarta que isso possa ocorrer nas primeiras reuniões do Copom do próximo ano. "Se o BC tiver na cabeça que tem que ter 4,5% de meta de inflação no ano que vem, então vai ter que subir juros. Mas como há choque de oferta, o BC pode ajustar a meta de inflação. Ao invés de olhar 4,5%, olhar 5% ou 5,5% , sem precisar elevar a Selic".Para Freitas, é compreensível que o BC do Brasil esteja na contramão de outros BCs em relação à política monetária. Os principais BCs do mundo estão cortando juros. "Outros países não tiveram depreciação tão rápida da moeda como no Brasil nem demanda tão aquecida", justificou.De acordo com ele, o Tesouro Nacional não deverá ter dificuldade em rolar sua dívida. "Dívida no Brasil não é problema mais na medida em que somos credores em dólar. O grande ponto é que governo provavelmente vai vender mais papéis pós-fixados devido às incertezas em relação às taxas de juros futuras. Acho que a tendência é vender mais papel prefixado à medida em que o dólar volte mais ao seu patamar real que é ao redor de R$ 2".SaídaThadeu de Freitas disse que a crise financeira global não deve ser solucionada tão cedo. "Não vejo uma luz no fim do túnel para o término desta crise. O BC americano (Federal Reserve) vai ter que nacionalizar parte do sistema bancário para evitar quebradeira", opinou."Não vejo final para crise nos movimentos de agora. A crise só vai ser resolvida quando mudar a presidência americana e o governo capitalizar os bancos. Não há outra alternativa. Enquanto o BC americano não entrar como sócio dos bancos o crédito vai continuar ruim, travado."

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