Crise marca fim de real forte

Com real mais fraco, o economista Paulo Tenani avalia que o BC perdeu o instrumento de controle da inflação

Luciana Xavier,

13 de outubro de 2008 | 16h05

O principal efeito da crise global no Brasil é marcar o fim do processo de apreciação do real e abrir caminho para sua depreciação, observou o professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, Paulo Tenani. Ouça a entrevista  "O real deve continuar talvez no curto prazo ainda se apreciando com boas notícias. Mas olhando para frente, a crise realmente marcou o real, que de agora em diante deve ser uma moeda mais fraca. Ou pela própria desaceleração da economia global e, portanto das exportações brasileiras, mas também pelo fato de que o real já atingiu um nível extremamente caro e com a aversão ao risco maior, o PIB brasileiro em dólares tem que ceder perante o PIB global e o real é variável de ajuste para resolver esse problema", explicou.Tenani evitou traçar projeções para o dólar no médio prazo. "O cenário para o real não é mais tão óbvio como no passado. Há forças fundamentais apontando para real mais forte, mas também várias outras forças apontando para real mais fraco", justificou.O economista explicou que o lado do real mais forte continua sendo o diferencial de juros do Banco Central. "A Selic ainda é relativamente alta no Brasil e aponta para real mais forte". Ele ressaltou, no entanto, que o diferencial de juros não é mais atrativo como foi no passado. "Uma nova deterioração do cenário global, que eleve o risco País em mais 150 pontos-base, por exemplo, poderia colocar o diferencial de juros na zona do perigo, quando o investidor é mal pago para tomar risco cambial no Brasil."Na direção de um real mais fraco está o fato de o Brasil ainda ser um país caro, citou Tenani, e de que a conta corrente tem se deteriorado com força e rapidamente, saindo de um superávit de 0,75% do PIB em agosto do ano passado para déficit próximo de 1,50% neste ano. "A questão é saber o que vai acontecer com o real quando cessarem os aumentos de juros e nem mesmo o diferencial de juros vai dar suporte para a moeda brasileira", analisou o economista.Tenani disse que o Brasil vive uma situação de inflação de demanda e há muito pouco que o BC possa fazer contra isso. "A demanda agregada cresce muito mais que a oferta agregada, como a gente pode constatar pela deterioração da conta corrente. O Banco Central, portanto, tem um problema. Ele tem uma moeda que já se desvalorizou e inclusive perdeu o instrumento de controle da inflação que era justamente a apreciação cambial."O economista avalia que as próximas decisões do BC sobre juros serão mais difíceis de tomar. Para Tenani, é possível que o BC promova mais uma alta da Selic na reunião do final deste mês, mas reconhece que a possibilidade de parada no aperto monetário está maior agora. "A política de juros do Banco Central, uma vez que ele perdeu a apreciação cambial, não é mais um instrumento eficiente para controlar a demanda agregada. O Brasil ainda é uma economia pouco alavancada. A demanda agregada é muito inelástica ao aumento da taxa de juros, uma vez que expurga o efeito do câmbio".A saída, segundo ele, está em uma ação coordenada do BC com o Ministério da Fazenda para combater a inflação, que seria também uma mostra de maturidade econômica do Brasil. Para Tenani, o cenário de inflação não é favorável no médio prazo e cabe à Fazenda ajudar o BC pelo lado fiscal, pelo corte de gastos.Tenani disse ainda que espera uma desaceleração gradual da economia brasileira no ano que vem, para PIB em torno de 4% ou pouco abaixo disso.Crise global A ação conjunta dos bancos centrais europeus para salvar o sistema financeiro é mais uma peça que se encaixa no lugar certo, uma demonstração importante de que os BCs estão lutando contra a crise, mas não significa ainda um alívio permanente aos mercados, considerou Tenani."A probabilidade (de alívio dos mercados) não é de 100%. O cenário ainda é bastante difícil. Mas a crise de confiança está a caminho de ser debelada. É mais uma peça que se encaixa onde deveria estar", disse.Pelo menos 10 países europeus devem anunciar esta semana a criação de fundos nacionais de recapitalização e de garantias do sistema financeiro. O valor dos planos deve se ao redor de 300 bilhões de euros.Segundo Tenani, uma melhora consistente depende da implementação das ações anunciadas pelos BCs e esse pode ser um processo demorado. Ele citou que a crise russa, cujo efeito de aversão ao risco durou mais de dois anos."Agir é o primeiro passo importante. O efeito da crise está sendo minimizado pelas boas políticas. Mas é uma crise séria, que não deve ser resolvida de uma hora para outra. Vai levar algum tempo", afirmou Tenani.O professor disse que medidas adicionais por parte do Federal Reserve (Fed) são bem-vindas, como a possibilidade de o Fed adotar um plano de resgate semelhante ao europeu. "O Fed já atuou bastante, mas isso tem sido necessário. E a economia global vagarosamente está se ajustando para resolver esta crise. A crise precisa de várias ações e talvez ainda mais profundas do que têm sido feito até agora".De acordo com Tenani, o mercado já precifica uma crise séria e também a possibilidade de balanços trimestrais piores das empresas, como fica claro com as perdas no mercado de ações até agora.Tenani elogiou ainda a atuação do Banco Central brasileiro nesta crise. "O BC brasileiro tem siso bastante cauteloso. Ele se antecipando aos movimentos ruins do mercado antes de a crise vir com força total para a economia brasileira".

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