Decisão do Copom foi péssima, diz Delfim Netto

Para o economista, o Banco Central demonstrou "insensibilidade fantástica" ao não cortar os juros

Luciana Xavier, da Agência Estado,

13 de dezembro de 2008 | 12h11

O economista Delfim Netto criticou fortemente a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de manter, por unanimidade, a taxa Selic em 13,75%, na reunião de dezembro. Delfim foi ministro da Fazenda no período conhecido como o do milagre econômico, no início dos anos 70, além de ministro da Agricultura, do Planejamento e deputado federal. "A decisão foi péssima. Não há justificativa técnica. O BC demonstrou uma insensibilidade fantástica. Estamos diante de um processo de queda de confiança e uma das poucas contribuições que o BC poderia dar seria um pequeno sinal de que está sensível ao que ocorre no mundo", disse ao AE Broadcast Ao Vivo. Ouça a entrevista  Um corte na Selic, segundo ele, não teria muito efeito na economia, além daquele de reduzir o gasto do governo. No entanto, seria um importante sinal para restabelecer a confiança. Até porque, conforme ressaltou Delfim, o Brasil tem a maior taxa de juros no mundo e promoveu o maior aumento de juros global este ano, em apenas sete meses. Desde janeiro não houve nenhum corte da Selic, mas sim quatro elevações que tiraram a taxa básica de 11,25% para 13,75%. Delfim diz que prefere não travar uma aposta sobre qual será a próxima decisão do Copom. "Não ponho a minha mão no fogo sobre o que vão buscar com os juros, porque eles é que são cientistas, eles é que têm o modelo", alfinetou.  Para o economista, a valorização do dólar não pode ser apontada como fator determinante para manutenção da taxa. "Quem produziu essa porcaria no câmbio foi o próprio BC. Quem supervalorizou o real foi o BC, que agora está colhendo os problemas que plantou". Delfim Netto disse também que não pode culpar a inflação para explicar o fato de a taxa ter continuado no mesmo nível desde setembro deste ano. "Isso é conversa para boi dormir. A inflação brasileira como a de outros países tinha lá um componente nunca provado empiricamente de excesso de demanda - ainda há muita dúvida sobre como se mede isso - mas não era nada fora do que estava acontecendo no mundo. Havia uma inflação planetária, como agora existe uma desinflação planetária. Daqui a pouco o Banco Central vai dizer que ele que derrubou os preços das matérias-primas", disse. O ex-ministro disse ainda não se preocupar com a deterioração das expectativas de inflação, que segundo ele são alimentadas pelo próprio BC. "O BC alimenta a expectativa do mercado, o mercado alimenta a expectativa do Banco, aí ele publica a Focus. Isso é um incesto monumental entre o setor privado e o BC. O BC é a única coisa privada que está no governo. A autonomia do Banco Central é fundamental, se de fato o BC agisse de acordo como agem os outros bancos centrais do mundo. Ponto".  Credibilidade Para Delfim Netto, o Brasil tem condições de se sair melhor do que a maior parte do mundo desta crise, ainda que vá colher o ônus agora, depois de ter tido o bônus de vários anos de abundância de liquidez mundial. "Uma coisa é segura: o Brasil provavelmente vai crescer mais do que a maior parte do mundo. Isso é o suficiente. Mas a coisa mais ridícula é o sujeito dizer que o Brasil vai crescer 3,874%. Porque a precisão dos economistas brasileiros está chegando à terceira casa decimal. O Brasil vai crescer aquilo que for capaz de produzir", afirmou ele.  Segundo ele, "o ano de 2009 está naquilo que formos capazes de fazer com nossa inteligência e nossa ousadia. E os investimentos devem voltar quando formos capazes de mostrar confiança em nós mesmos".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.