Demanda do mercado é por ofertas primárias e com desconto

O segundo semestre mostra um novo panorama para as ofertas de ações. São quatro cronogramas já anunciados e cada um deles traz uma novidade. A característica comum a todos é que as distribuições são primárias, indicando que o mercado não está muito amistoso para operações de vendas de ações por parte dos sócios, quando os recursos não ingressam no caixa das empresas. Por outro lado, os lançamentos são, na maioria, vultosos - à exceção de Abyara, que deseja R$ 200 milhões. MMX Mineração e Metálicos pretende arrecadar R$ 1,5 bilhão. Cyrela quer levantar R$ 800 milhões. Na colocação de Cesp, o mercado deverá absorver cerca de R$ 1,6 bilhão. Além das ofertas de ações, há o Value Brazil Fund, da empresa de gestão de recursos Investidor Profissional (IP), que terá cotas negociadas na Bovespa e deverá captar R$ 680 milhões. Somadas, as distribuições esperadas apenas para julho devem movimentar cerca de R$ 4,8 bilhões, ou 35% do volume ofertado no primeiro semestre. No entanto, há uma diferença fundamental: os recursos financeiros globais, abundantes nos seis primeiros meses do ano, secaram por conta das preocupações com a economia norte-americana. A queda de 24% do volume financeiro negociado na Bovespa em junho em relação a maio é um dos sinais de que não há dinheiro novo e disposição para os negócios. Se há exigência maior dos investidores, um outro fator também não pode ser desprezado: o tamanho das operações e sua simultaneidade sinalizam que alguns coordenadores de emissões devem ter identificado a reabertura de alguma janela de oportunidade. "É possível dizer que, neste momento de fraqueza do mercado, quem quiser entrar em novos investimentos terá de se desfazer de posições. A tendência pode ser que, para fazer tal movimentação, investidores estejam mais exigentes e pedirão, por exemplo, um desconto maior nas colocações", afirma o diretor da Petra Corretora de Valores. Ricardo Binelli. Em sua avaliação, a coincidência das ofertas indica que os coordenadores acreditam na viabilidade das operações. Alguns profissionais apontam a recente oferta de Banco do Brasil como um marco. A empresa é considerada como boa oportunidade de investimento em que, há anos, estrangeiros demandavam aumento de participação. A operação, de R$ 1,9 bilhão, saiu, mas com um robusto desconto. Do dia do anúncio do cronograma até o fechamento do bookbuilding (coleta de propostas dos interessados nas ações), os papéis no mercado à vista desvalorizaram 26%. Se um banco bem avaliado e já conhecido como este saiu com tal desconto, o mesmo raciocínio tem de ser aplicado para emissões futuras. Além disso, existe a avaliação de que não há espaço para vendas de participações dos atuais acionistas, as colocações secundárias. Além de todas as ofertas serem primárias, cada uma delas trouxe um sinal, maior ou menor, de que o mercado está muito distante da realidade de outros dias em que, por exemplo, a Telemar pretendia concretizar uma oferta bilionária fixando preço para os papéis, com um elevado prêmio para os atuais sócios. A chefe da área de pesquisa do Banif Investment Banking na América Latina, Catarina Pedrosa, acredita que a situação não é favorável para nenhuma operação. "Acho que nesse momento de depreciação dos mercados só serão lançadas operações de empresas que estejam necessitando com urgência de recursos. Se for possível esperar por mais alguns meses, as colocações serão adiadas", avalia. Em sua análise, Abyara e Cyrela claramente precisam se capitalizar por conta do momento de aquecimento do setor de construção. MMX necessita dar o pontapé inicial em suas atividades. E a Cesp tem urgência em melhorar o seu endividamento. A colocação de Abyara trouxe a novidade de ser pequena, de R$ 200 milhões, e apenas para qualificados. Trata-se de uma empresa conhecida do pequeno investidor e poderia ter potencial para atraí-lo. O mercado questiona o desejo da empresa de utilizar os recursos para iniciar a atividade de incorporação. Mais do que isso, quer o dinheiro para entrar como sócia de alguns empreendimentos. O questionamento é: por qual razão os investidores destinariam recursos para que a empresa invista em outros sócios e não destinaria verba para este parceiro diretamente? Cyrela mostrou uma clara inversão de proporções entre as distribuições primária e secundária. A oferta inicial é para abastecer o caixa da empresa. Se houver excesso de demanda, sócios da empresa venderão participação, via lote suplementar. Se tudo der certo, 87% da colocação será primária, tendência inversa ao observado no primeiro semestre. MMX, uma companhia ainda em fase pré-operacional, se dirige apenas a qualificados. O preço sugerido para os papéis se situa na casa de R$ 1 mil. O valor e a característica da empresa são entraves para a liquidez. Logo, no mesmo aviso que detalha a oferta, a MMX publicou um cronograma de desdobramentos das ações, aliado ao início de implantação de seus projetos. Ou seja, oferece aos investidores a opção de conhecer e cobrar seu desenvolvimento. No mercado, a conversa é que, diferentemente de BrasilAgro, também pré-operacional, será exigido um bom desconto para viabilizar a operação. Por fim, a Cesp fixou em valores financeiros, e não em ações, sua emissão de R$ 2,8 bilhões, em que R$ 1,2 bilhão será comprado pelo governo de São Paulo com os recursos da venda da Cteep. Desta forma, a quantidade de papéis que irá lançar será definida pelo mercado ao precificar a ação. Investidores poderão, assim, definir qual a diluição sofrida pela oferta bilionária. Além disso, ao fixar o valor de recursos de que necessita, a empresa mostra o comprometimento com seu processo de capitalização.

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