Dois ex-diretores da Enron vão a julgamento

Quando os ex-diretores da Enron, Kenneth Lay e Jeffrey Skillling, entrarem hoje na sala do tribunal de Houston, para enfrentar 42 acusações de conspiração, fraude e tráfico de influência, Charles Prestwood estará observando atentamente. Prestwood, de 67 anos, que mora com seu cachorro e dois cavalos nas proximidades de Conroe, Texas, trabalhou para a Houston Natural Gas, que se integrou à Enron em 1985. Ele dedicou 33 anos de trabalho às duas empresas, como soldador e operador de máquinas. Ao se aposentar, em 2000, tinha acumulado US$ 1,3 milhão em economias. Todo esse dinheiro estava em ações da Enron. A administração da empresa lhe disse repetidas vezes que as ações da Enron estavam subavaliadas e era o melhor lugar para ele investir seu dinheiro. Mas, enquanto lhe diziam isso, a empresa estava secretamente começando a ruir. Quando ela faliu, tudo que sobrou para Prestwood foram menos de US$ 8 mil. "Eu tinha grandes planos", disse ele esta semana. "Queria viajar, conhecer partes do velho e bom Estados Unidos. Agora não consigo nem cruzar a divisa do condado. Não faço mais planos. Não vivo, mal existo." Artimanhas Lá se vão mais de quatro anos desde que a Enron entrou em colapso, depois que suas artimanhas para ocultar dívidas e produzir rendimentos falsos por meio de contabilidade fraudulenta se desintegraram. Agora, a empresa aparece com menos freqüência nas manchetes, mas Prestwood e outras pessoas como ele, que perderam tudo, ainda convivem com as conseqüências. A ira deles não se abrandou. "Quero que seja feita justiça." Ele pretende fazer a viagem de uma hora e assistir ao julgamento pelo menos uma vez. "Adoraria olhar nos olhos deles. Irei para o túmulo acreditando que são culpados." "Período turbulento e sórdido" O julgamento de Lay e Skilling, que deve começar hoje, é o desfecho de um dos períodos mais turbulentos e sórdidos da história da América corporativa. A falência da Enron no final de 2001 foi o início de uma série de escândalos. Durante um ano, o país foi inundado por histórias terríveis de fraudes e corrupção, de executivos ludibriando investidores para fazer milhões de dólares para si mesmo em algumas das empresas mais confiáveis dos Estados Unidos, como WorldCom, Tyco, Adelphia, Qwest, Global Crossing e Martha Stewart. Agora, finalmente, os homens que comandavam a Enron terão seu dia de ajuste de contas. Daniel Petrocelli, o advogado de Skilling, disse à revista Fortune que esse julgamento era "o mais importante, o mais famoso que o governo já tinha processado". O governo alega que Lay e Skilling conspiraram para esconder as dificuldades da empresa por meio de uma mistura de complexas transações financeiras e mentiras deslavadas. Acusações Skilling tem 35 acusações de conspiração, fraude e tráfico de influências, enquanto Lay enfrenta sete acusações de conspiração e fraude. Skilling, de 52 anos, é considerado o cabeça do esquema. Ele trabalhava na Enron desde 1990. Assumiu o posto de diretor-presidente em fevereiro de 2001, mas renunciou em agosto do mesmo ano. Lay, de 63 anos e fundador da empresa, retomou o cargo após a saída de Skilling. O governo alega que eles tiveram boas razões para ocultar a verdadeira situação financeira da Enron e manter alto o preço das ações. Entre 1998 e 2001, Skilling ganhou US$ 14 milhões de salários e US$ 89 milhões com a venda de ações da Enron. Lay recebeu US$ 19 milhões e faturou mais de US$ 200 milhões com a venda de ações. Ambos se dizem inocentes.

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